Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, O

29/08/2003 | Categoria: Críticas

Documentário sobre duas personalidade da periferia de Pernambuco tem narrativa pouco convencional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A década de 90 trouxe de volta ao pernambucano o orgulho de ter nascido na terra. O mundo cultural, em especial a música e o cinema, foi o maior responsável por esse resgate. E, ao contrário do que muita gente pensa, “O Baile Perfumado” não foi o único longa-metragem bacana que surgiu da nova safra de cineastas da terra. O documentário “O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas” também realizou uma bem-sucedida carreira em festivais nacionais e internacionais, ganhando prêmio inclusive em Havana (Cuba). A obra dirigida a quatro mãos por Paulo Caldas (veterano do filme sobre o encontro entre Lampião e o fotógrafo Benjamin Abrahão) e pelo estreante Marcelo Luna existe em VHS nas boas locadoras, mas ainda aguarda um lançamento em DVD.

“O Rap do Pequeno Príncipe traz uma proposta ousada porque não segue a estrutura convencional dos documentários tradicionais. Ao decidir contar as histórias antagônicas de dois moradores da periferia de Camaragibe, os diretores preferiram intercalar as entrevistas e depoimentos com algumas cenas de ficção. Também preferiram abolir a figura do narrador, o que fragmenta ainda mais o discurso do filme e elimina o perigo do trabalho parecer feito para TV. Mesmo assim, os dois assumem uma postura quase jornalística ao evitar opinar ou tomar posição sobre as histórias distintas que narram.

A obra de Caldas e Luna parece ter dois protagonistas, mas isso é uma meia verdade. Hélio José Muniz aparece menos, mas o olhar frio e destemido e a naturalidade com que conta algumas das 70 execuções de bandidos que levou adiante lhe garantem um destaque inegável. Já o músico Garnizé, que passou a infância no mesmo lugar e acabou baterista da Faces do Subúrbio, também conta um pouco de sua vida.

No final das contas, “O Rap do Pequeno Príncipe” é um programa excelente para se ver em casa, já que a TV assume bem o formato de documentário e o ambiente favorece as reflexões pós-filme, um objetivo que o trabalho de pesquisa consegue alcançar com facilidade. “O Rap do Pequeno Príncipe” documenta um excelente retrato da periferia brasileira ao mostrar que a sensação de importência e a raiva inerente à situação dos moradores desses bairros pode levar a extremos. Além de tudo, confirma como o homem pode ser único e misterioso. Não deixe de prestar atenção em dois momentos-chave: a abertura, com os créditos surgindo como grafites nos muros da periferia, e no sobrevôo dos morros do Recife. Eles dizem mais sobre a cidade do que mil palavras.

– O Rap do Pequeno Príncipe (idem, Brasil, 2000).
Direção: Paulo Caldas e Marcelo Luna.
Elenco: Hélio José Muniz e Garnizé (documentário)
Duração: 90 minutos

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