Rastros de Ódio

20/06/2006 | Categoria: Críticas

Faroeste antológico com John Wayne é marco divisório do cinema de Hollywood

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Há filmes que são maiores do que a vida. “Rastros de Ódio” (The Searchers, EUA, 1956) é um deles. Obra-prima de John Ford, o filme marcou uma difícil transição no cinema feito em Hollywood. Em 1956, quando foi produzido, a indústria do cinema vivia uma crise feia, causada pela concorrência com a televisão. Numerosos artifícios técnicos estavam sendo experimentados como reação. O sistema technicolor era um deles. No aspecto técnico, o filme de John Ford se notabilizou como um dos trabalhos mais bem acabados a utilizar as cores vibrantes e explosivas do novo sistema. Portanto, “Rastros de Ódio” foi um triunfo de tecnologia, bem ao modo que Hollywood gosta de valorizar.

De certa forma, a fase de transição do cinema não era apenas tecnológica, mas sobretudo temática. As fantasias inocentes “sonhadas” pelos cineastas na chamada era de ouro de Hollywood, entre os anos 1930 e 1940, já eram. Os filmes mainstream – ou seja, as grandes produções – precisam ser mais realistas. Precisavam renunciar à simplificação, a mostrar um mundo cor-de-rosa demais, e passar a refletir a complexidade do mundo real. Em suma, necessitavam mostrar a dureza e o cinismo da vida em sociedade da época, algo que só aparecia em produções menores, como os policiais do chamado film noir. E John Ford também atacou nesse campo, produzindo um dos primeiros faroestes realistas.

É possível afirmar que o desafio de “Rastros de Ódio” tinha que ser enfrentado por alguém do calibre de John Ford. Único cineasta a embolsar três Oscar, inovador por excelência e dono de domínio total da arte cinematográfica, Ford era uma figura emblemática de uma Hollywood à beira da decadência. Ainda por cima, tornara-se especialista em westerns, um gênero que sempre coube muito bem no cinema romântico e nostálgico da era de ouro. Um faroeste realista? Só de pensar nisso, muito diretor de prestígio suava frio. Somente mitos como Ford e seu ator preferido, John Wayne, poderiam enfrentar uma parada daquelas. “Rastros de Ódio” poderia ser um fracasso definitivo, mas se desse certo, o sucesso também o seria. E o filme deu certo.

De forma impressionante, John Ford fez um faroeste a seu modo, e levou o gênero um passo à frente sem abrir mão de nenhuma das características presentes na sua obra. Ford não renunciou sequer a sua locação favorita, o Monument Valley, em Utah (EUA). As montanhas poeirentas em formas de mesa, pontuando longas planícies vermelhas de terra seca, mostraram-se o cenário perfeito para tomadas panorâmicas belíssimas. Filmados no novo sistema technicolor, os picos do deserto norte-americano ganharam uma profundidade e um senso épico inigualáveis. A paisagem emoldura com perfeição absoluta a trajetória de um homem anti-social e solitário, ecoando a solidão e a aspereza do protagonista do filme.

O Monument Valley funciona como uma metáfora visual da alma deserta de Ethan Edwards (John Wayne), um ex-oficial da Guerra Civil que viaja de passagem pela fazenda do irmão. Durante a estadia dele por lá, um ataque indígena mata toda a família. Os cherokees raptam a sobrinha caçula, Debbie (Lana Wood, depois Natalie Wood). É apenas o início de uma perseguição épica, que vai durar vários anos, empreendida por Ethan, junto com o irmão adotivo da menina e mestiço de cherokee, Martin Pawley (Jeffrey Hunter). O rapaz é desprezado e ridicularizado pelo torturado Ethan, um homem que tem um passado traumático – o filme não faz nenhuma menção esclarecedora a esse respeito, mas isso fica bastante evidente – e um futuro sombrio.

Cineastas de prestígio, como Steven Spielberg e Martin Scorsese, colocam “Rastros de Ódio” no topo das obras-primas produzidas em Hollywood. A fotografia deslumbrante de Winton C. Hoch, junto com o roteiro bem amarrado e cheio de nuanças de Frank Nugent, respondem pela maior parte dos méritos. A complexidade dos personagens é tão profunda que não cabe na tela: qual a singularidade da relação existente entre Ethan Edwards e a mulher do irmão dele? Os olhares trocados, e o cuidado da moça com as roupas dele, deixam no ar algo maior do que amizade, algo que as palavras talvez não sejam suficientes para expressar. Da mesma forma, a relação de amor e ódio que Edwards mantém com Martin Pawley jamais é explicada em palavras. John Ford não gostava de falar mais do que o necessário.

Esses e outros detalhes inexplicados, ao invés de criarem um filme cheio de pontas soltas, compõem uma obra de texto aberto, com entrelinhas que o próprio expectador pode preencher, de uma forma que jamais conspurca a linha mestra na narrativa. As atuações em geral parecem um tanto empostadas e artificiais, e o ritmo é naturalmente lento, mas esses detalhes fazem parte do contexto de produção dos filmes da época. As platéias de 1956 não tinham essas sensações. Por isso, “Rastros de Ódio” cavou um espaço na mitologia popular norte-americana e continua a ser reconhecido como obra-prima.

O primeiro lançamento do filme em DVD aconteceu em disco simples, com imagem cortada nas laterais (4:3) e som apenas razoável (Dolby Digital 1.0). A chamada Edição de Colecionador é dupla e está forrada de extras, além de trazer o filme restaurado e com qualidade superior de imagem (widescreen 1.75:1 anamórfica) e som (DD 1.0). O disco 1 tem um trailer, introdução do filho de John Wayne (2 minutos) e comentário em áudio do cineasta e crítico Peter Bogdanovich. O disco 2 possui outro trailer e três documentários, um feito em 2006 (30 minutos), outro de 1998 (33 minutos) e o terceiro da década de 1960 (21 minutos), tudo com legendas. Se puder escolher, claro, leve o segundo pacote. Os dois levam a marca Warner.

– Rastros de Ódio (The Searchers, EUA, 1956)
Direção: John Ford
Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles
Duração: 118 minutos

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