Ratatouille

07/11/2007 | Categoria: Críticas

Animação conta uma história sólida com ritmo envolvente, bons personagens e arte impecável – e é uma delícia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Você já tentou definir um longa-metragem utilizando uma só palavra? Na maior parte das vezes, esta tarefa pode ser bem complicada. Não é o caso de “Ratatouille” (EUA, 2007), a oitava animação computadorizada produzida pela Pixar, principal empresa no setor. Nem é preciso pensar muito para executar a tarefa: a palavra tem que ser “delicioso”. Sim, o segundo título dirigido por Brad Bird (“Os Incríveis”) para a empresa de San Francisco é delicioso, tanto no sentido literal quando no figurado. “Ratatouille” é um carrossel de emoções que une comédia, romance e aventura em um coquetel que dispensa fórmulas narrativas para contar uma história empolgante, cheia de aventura e humor de qualidade e ancorada em um visual deslumbrante.

O primeiro aspecto que chama a atenção no filme é a qualidade das imagens, com especial atenção para texturas e iluminação de realismo impecável. Obviamente, em um filme que se passa quase todo dentro de uma cozinha e que lida com gastronomia, o trabalho da equipe de 150 animadores se torna ainda mais importante – nenhum filme com enfoque em comidas sofisticadas ficaria completo se não despertasse as papilas gustativas da audiência. Pois bem, o resultado alcançado pelos animadores é nunca menos do que espetacular. O visual reproduz detalhadamente as texturas de tomates, cebolas, pimentões, beringelas, abobrinhas, cenouras e alho-porós. Vai além: traduz perfeitamente em imagens essas coisinhas delicadas e fundamentais para a boa cozinha, que são os temperos (alecrim, manjericão, salsão, alho). O esmero obriga o espectador a se controlar para não ver o estômago roncar incontrolavelmente nas cenas de maior potencial gastronômico.

Para reproduzir com exatidão as texturas das comidas, a equipe da Pixar trabalhou com milhares de fotografias de alimentos. O resultado é que, na tela, é quase possível sentir o cheiro e o sabor dos pratos maravilhosos que adornam a história. Este, porém, não é o único aspecto do filme que se sobressai. A beleza aristocrática de Paris está impressa em cada fotograma, e as seqüências externas capturam com perfeição o modo com a luz suave recai sobre as charmosas ruas com calçamento de pedra da parte nobre da cidade. Observe ainda as lindas tomadas panorâmicas dos telhados, sempre com a Torre Eiffel adornando a paisagem, e preste atenção à beleza dos enquadramentos da incrível seqüência de perseguição que se passa às margens do rio Sena. Se direção de fotografia significa controlar luz e posição de câmera, de forma a ressaltar aspectos emocionais da narrativa, não é exagero dizer que “Ratatouille” tem uma das mais lindas fotografias já vistas em uma animação.

OK, já virou clichê falar que a Pixar reafirma, a cada novo filme, a posição de liderança mundial no setor da animação computadorizada. Mas basta assistir a qualquer uma das seqüências mais intensas de “Ratatouille” para se certificar disto: a fuga pelo esgoto, a suculenta preparação da primeira sopa, a já citada perseguição às margens do Sena e, claro, todo o clímax, com centenas de ratos apinhando a cozinha de um restaurante de luxo parisiense. Sob qualquer aspecto que se observe, o resultado é magnífico – luz, enquadramentos, cores e texturas são perfeitas. Todas as cenas são exemplos de que a qualidade da animação produzida pela Pixar continua um patamar acima de todos os concorrentes de gabarito (Blue Sky, PDI, Aardman).

O que realmente faz a Pixar ser um estúdio diferenciado, porém, é que este trabalho técnico avassalador 100% está submetido às necessidades da narrativa. “Ratatouille” não é um filme bonito e vazio. Antes de ser bonito, prefere ser criativo, inteligente, engraçado, emocionante e inspirador. No todo, trata-se de uma aventura cinematográfica capaz de agradar igualmente a crianças espevitadas de três anos e adultos mal-humorados de 40. Tanto é verdade que a metragem de 110 minutos, um tanto excessiva para um filme cujo público-alvo é composto por crianças, passar completamente despercebida. Isto é fruto de uma montagem brilhante, que alterna sem falhas as seqüências de ação mais alucinadas – que não são poucas – com momentos cômicos e uma pitada de romance.

A história, como de hábito no gênero, gira em torno de um animal com características humanas: Remy, um rato com olfato apurado, tem o sonho de se tornar um bom chef de cozinha. De tanto assistir a programas gastronômicos na TV e observar livros de culinária, o roedor consegue dominar a linguagem dos humanos, inclusive a corporal – ele anda sobre as patas traseiras para não sujar as dianteiras, o que poderia interferir no sabor dos alimentos que manuseia. Após uma alucinante viagem pelos esgotos de Paris, Remy vai parar por acidente na cozinha do restaurante mais famoso da cidade, onde trabalhava o seu inspirador, o lendário chef Auguste Gusteau. Lá, ganha a oportunidade de ajudar o desastrado faxineiro Alfredo Linguini a conquistar um posto importante na cozinha do estabelecimento.

Produzido por US$ 100 milhões, “Ratatouille” entrou em desenvolvimento no ano de 2000, sob o comando do diretor tcheco Jan Pinkava. Cinco anos depois, Pinkava ainda estava às voltas com o roteiro, e foi então retirado do projeto, que passou às mãos de Brad Bird. Talentoso e hiperativo, o diretor de “Os Incríveis” – para muita gente o melhor filme da coleção de altíssimo nível da Pixar – fez profundas modificações na história, transformando-a numa sofisticada variação de um enredo típico para animações, sobre a importância de lutar por um sonho. Bird contorna a falta de originalidade com perfeito senso de ritmo, interligando de maneira fluida momentos montanha-russa, trechos cômicos imbatíveis e personagens carismáticos, como o vilão Skinner, a bela e enfezada cozinheira Colette e o implacável crítico gastronômico Anton Ego.

Outro aspecto de destaque está na sofisticação das citações a longas do passado. Ao invés de apostar em referências a filmes fáceis e de grande apelo popular, Brad Bird se dirige aos cinéfilos e providencia um diálogo intertextual com obras mais obscuras, garantindo um apelo extra junto à parcela mais exigente do público. Perceba, por exemplo, a sutil citação ao épico spaghetti “Três Homens em Conflito” durante a cena de abertura – a apresentação de Remy, o protagonista, em um frame congelamento durante uma fuga, é idêntica à do personagem de Eli Wallach no filme de Sergio Leone. Referências ao grande clássico de animação de 1940, “Pinóquio”, também estão bem escondidas, sob a forma do fantasma do grande chef, que exerce o mesmo papel de “consciência” que o Grilo Falante era para o boneco de madeira. E há ainda o incrível flashback que envolve as memórias de infância de Anton Ego e uma indisfarçável e erudita alusão a Marcel Proust, num dos momentos mais incríveis da história da animação infantil. O resultado final é um deleite avassalador.

O DVD da Buena Vista é simples, mas bacana. O filme tem ótima qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há galeria de cenas cortadas (15 minutos), um curta-metragem novo com Remy e Emile, o ótimo curta “Lifted” (que foi exibido nos cinemas) e um featurette que reúne o diretor, Brad Bird, com o famoso chef Thomas Keller.

– Ratatouille (EUA, 2007)
Direção: Brad Bird
Animação (com vozes de Patton Oswalt, Ian Holm e Peter O’Toole)
Duração: 110 minutos

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