Ray

03/07/2005 | Categoria: Críticas

Cinebiografia de Ray Charles tem grandes atuações, mas direção burocrática e ritmo irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Ray” (EUA, 2004) segue um filão muito popular da indústria cinematográfica. É a cinebiografia de um ídolo popular, que teve uma vida tumultuada e repleta de excessos, mas foi amado pelo público devido à genialidade que demonstrava no campo profissional. Jim Morrison (The Doors), Sid Vicious (Sex Pistols) e Mohamed Ali são algumas personalidades que já foram agraciadas com esse tipo de homenagem. O diretor Taylor Hackford escolheu Ray Charles, uma dos maiores ídolos negros da música dos EUA, para deixar sua marca no gênero. A escolha gera um filme que é uma verdadeira tour de force de um ator.

Não há como falar de “Ray” sem mencionar a fantástica interpretação de Jamie Foxx. A atuação poderia ser chamada de mediúnica, se Ray Charles não estivesse vivo durante as filmagens do longa-metragem. Foxx, mais conhecido nos EUA como comediante, incorpora todos os maneirismos do pianista cego que foi o primeiro homem a misturar R & B com música gospel, unindo agressividade e suingue em doses iguais. A voz mansa que ganha vigor na hora das músicas, o jeito pacato, os ombros levemente abaixados, o rosto erguido durante as canções, a famosa risada rasgada, todos os elementos estão lá, perfeitos. Jamie Foxx não interpreta Ray Charles, ele praticamente se torna o próprio.

O ator, que estudou piano na infância e tem fluência no instrumento, chegou ao extremo de aprender a tocar as músicas completas de Ray Charles para as filmagens. A iniciativa dá uma possibilidade rara a Taylor Hackford, que não precisa restringir as cenas de música ao vivo a takes do rosto e dos dedos do músico. Essa estratégia de edição mascara a falta de habilidade dos atores no instrumento, mas como Foxx realmente tecla o piano com desenvoltura, Hackford tem chance de utilizar planos abertos (ou seja, que mostrem o corpo todo do pianista), durante as muitas canções da trilha sonora.

No aspecto das atuações, Hackford não foi feliz apenas na escalação do protagonista. Todo o elenco (90% formado por atores negros, quase todos desconhecidos do público internacional) está muito bem, em especial Clifton Powell, que interpreta o dublês de motorista, chefe de turnê e confidente pessoal do músico, Jeff Brown. Como curiosidade, repare na caracterização correta de Curtis Armstrong, que faz o curioso executivo da Atlantic Records, Ahrmet Ertegun. O sujeito daria uma outra cinebiografia interessante: empresário e compositor de boa qualidade, o imigrante turco se tornou lendário no meio musical dos EUA pelo faro em descobrir iniciantes de talento – foi ele quem encontrou, em 1969, uma banda então desconhecida que se chamava Led Zeppelin. Essa qualidade acabou por tornar a Atlantic uma grande gravadora, nos anos 1970.

Infelizmente, a narrativa da vida de Ray Charles acaba se revelando problemática, devido ao ritmo irregular e a escolhas equivocadas do diretor. Taylor Hackford revela mão pesada ao salpicar a trama de flashbacks da infância do ídolo durante toda a projeção, sem o menor traço de sutileza. Pelo contrário: para sublinhar a culpa que Charles sentia pela morte do irmão mais novo, George, Hackford arma delírios do protagonista em que ele, já adulto, passa a esbarrar em várias ocasiões em um cadáver mergulhado dentro de poças de água. São seqüências berrantes, que destoam opor completo do tom sóbrio e tranqüilo da narrativa. Essas cenas ficariam melhor em um filme de terror de baixo orçamento.

Além disso, Hackford também optou por eliminar eventos verdadeiros da vida de Ray Charles, como o primeiro casamento, que é solenemente ignorado no longa. A tentativa de simplificar a narrativa vai mais longe ainda, e envereda de vez pelo caminho errado, quando o diretor tenta utilizar a cegueira do protagonista como bode expiatório para todos os pecados cometidos por ele durante a vida, como o vício em heroína e as seguidas traições com mulheres diversas, durante as temporadas na estrada.

Claro, todos esses problemas são atenuados pela excelente trilha sonora, que conta com inúmeros clássicos do cancioneiro norte-americano (“Georgia On My Mind” é a mais conhecida, mas não a melhor das várias composições ouvidas durante o filme). O envolvimento pessoal do cantor com o projeto – Ray Charles leu e aprovou pessoalmente o roteiro, além de ter participado do “treinamento” de Jamie Foxx – garante que as versões originais das músicas, com voz e piano do próprio compositor, apareçam no filme. Aí é covardia. Qualquer película com tantas músicas bacanas na trilha, mesmo tendo ritmo irregular e direção burocrática, merece pelo menos três estrelas.

Para começar, o DVD contém o filme em versão mais longa do que a exibida nos cinemas (153 minutos). O enquadramento é preservado (widescreen), há duas trilhas de áudio Dolby Digital 5.1 (português e inglês), e um comentário do diretor Taylor Hackford. Um lançamento que merece ser conferido mesmo por quem viu o filme nos cinemas.

– Ray (EUA, 2004)
Direção: Taylor Hackford
Elenco: Jamie Foxx, Kerry Washington, Regina King, Clifton Powell
Duração: 152 minutos

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