[REC]

11/06/2009 | Categoria: Críticas

Usando a eficiente técnica de simular uma gravação amadora, filme espanhol prega sustos atordoantes na platéia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Barcelona, Espanha. Uma entediada equipe de TV atravessa a madrugada acompanhando um plantão corriqueiro na sede do Corpo de Bombeiros da cidade. O objetivo é fazer uma reportagem sobre a rotina noturna desses profissionais. No meio da noite, os bombeiros são chamados para apartar, num velho e apertado prédio da periferia, o que parece ser uma briga de casal. O cenário que jornalistas e policiais encontram lá, porém, é muito diferente do previsto: sangrento e absolutamente assustador. Esta é a sinopse de “[REC]” (Espanha, 2007), pequena produção espanhola que virou sensação no circuito alternativo europeu. Muita gente boa do Velho Continente a elegeu como a mais original e aterrorizante obra de horror do ano.

É impossível falar sobre “[REC]” sem mencionar a incrível semelhança com “Cloverfield”, o filme de monstro produzido por J.J. Abrams. Espectadores desatentos correm risco inclusive de pensar que a película assinada por Jaume Balagueró (que fez o interessante “A Sétima Vítima” em 2004) e Paco Plaza tenha clonado o estilo narrativo do primo norte-americano. Isto não aconteceu, já que “[REC]” e “Cloverfield” foram filmados ao mesmo tempo, sem que a equipe criativa de um soubesse da existência do outro. Ocorre que ambos buscaram inspiração na mesma fonte – o velho e bom falso documentário “A Bruxa de Blair” (1999), primeiro longa-metragem comercial a ter coragem de investir numa estética de filme caseiro, de técnica intencionalmente pobre, como se um anônimo qualquer fosse a única testemunha de um evento extraordinário, e resolvesse registrá-lo em sua câmera amadora.

Toda a ação dramática vista em “[REC]” é registrada pelo cinegrafista que acompanha a repórter Angela Vidal (Manuela Velasco). O filme aferra-se a este ponto de vista e não o abandona nunca. Se por um lado esta decisão dos diretores garante o respeito absoluto à premissa inicial, por outro lado resulta numa estética deliberadamente tosca, de imagens escuras e tremulantes, que pode incomodar espectadores acostumados ao formato clássico da narrativa cinematográfica, já que esta pressupõe uma equipe “invisível” registrando os eventos que integram a história. Adotando um estilo naturalista ao extremo, sem esconder as imperfeições no manejo da câmera, os dois cineastas são obrigados a recorrer à criatividade para driblar problemas técnicos recorrentes em filmagens amadoras, como a luz insuficiente e a captação de áudio deficiente. Eles se saem muito bem na tarefa.

Justamente por investir num estilo 100% amador, a trama de “[REC]” ganha pontos extras no quesito credibilidade. Angela, a repórter, não faz muita questão de esconder o tédio que sente no início da missão, e nem o misto de excitação com pavor que lhe acomete depois que as coisas começam a dar errado. Pablo, o cinegrafista (cujo rosto jamais é mostrado), age como um autêntico paparazzi, que se recusa a desligar a câmera mesmo nos momentos mais frenéticos – e o trepidar constante da imagem também funciona como componente emocional do enredo, já que comunica à platéia todo o espectro da montanha-russa de sensações extremas que o operador da câmera sente, enquanto testemunha eventos inexplicáveis e de violência aterradora.

Outro destaque do longa-metragem está no planejamento do design de som. Como se sabe, o áudio captado por câmeras amadoras é deficiente, e soaria inaudível se exibido em uma sala de cinema ou na televisão, mas não é o que ocorre aqui. Não, não temos um som cristalino, mas o se ouve é claríssimo. Em muitos momentos (quando a câmera cai no chão e permanece imóvel por vários minutos, ou quando a escuridão virtualmente engole todos os personagens) o áudio é a única fonte de informações da platéia. Os diretores providenciam para que estas informações continuem sendo ministradas com regularidade, preenchendo os buracos da história aos poucos e, ao mesmo tempo, permitindo ao público que preencha por si mesmo as lacunas narrativas. Somos nós mesmos quem criamos teorias para explicar o que está acontecendo.

A escuridão reinante no prédio onde ocorre a maior parte da ação ajuda Balagueró e Plaza a criar sustos inesquecíveis. Como em “Cloverfield”, o filme espanhol usa um elenco virtualmente desconhecido para aumentar a impressão de que as imagens impactantes foram obtidas casualmente, sem planejamento. A presença de algum astro ou ator conhecido quebraria esta ilusão, e amaciaria a maior parte dos sustos. Finalmente, o maior acerto dos dois diretores está no ótimo roteiro. Afinal de contas, o filme não se limita a acompanhar um acontecimento casual. O ritmo é perfeitamente controlado, alternando sustos com seqüências frenéticas e momentos de pausa que permitem ao público se recompor. Ao mesmo tempo, a história jamais deixa de progredir, de forma que todos os acontecimentos aparentemente inexplicáveis ganham explicações lógicas. É verdade que Balagueró e Plaza se excedem um pouco no terceiro ato, criando um clímax mirabolante em excesso, mas mesmo assim ousado e original, até mesmo na explicação adotada para as transformações dos personagens.

Além da estética crua, da curta duração (nenhum espectador agüentaria mais do que 80 minutos consecutivos de imagens trepidantes e mal iluminadas) e da estratégia na escalação de atores semi-anônimos, “[REC]” e “Cloverfield” ainda compartilham outra característica com “A Bruxa de Blair”: a estratégia barata e criativa de marketing, que usou de forma original o potencial viral da Internet. Enquanto o filme de 1999 se beneficiou da rede para criar a ilusão de que os eventos fictícios eram reais, e a produção de J.J. Abrams alimentou teorias conspiratórias através da Web, “[REC]” divulgou no You Tube um dos mais criativos trailers de filmes de horror já vistos na indústria cinematográfica. A prévia não exibe um segundo sequer do filme, mas sim trechos editados que mostram as reações convulsivas da platéia de uma pré-estréia. O trailer virou coqueluche na rede, se alastrou como um vírus e contribuiu para a carreira internacional do longa.

O DVD da Califórnia Filmes é simples, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mas sem extras.

– [REC] (Espanha, 2007)
Direção: Jaume Balagueró e Paco Plaza
Elenco: Manuela Velasco, Javier Botet, Manuel Bronchud, Martha Carbonell
Duração: 85 minutos

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