Receita para a Máfia, Uma

28/08/2005 | Categoria: Críticas

Publicitário filma longa-metragem dentro de restaurante cujo dono é ele próprio. O resultado? É ótimo!

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Uma Receita Para a Máfia” (Dinner Rush, EUA, 2000) é um filme independente norte-americano, mas não um filme comum. Talvez seja, ao contrário, um dos trabalhos mais esquisitos a chegar ao Brasil em muito tempo. Trata-se de um filme que narra os bastidores e o cotidiano de funcionários, proprietários e clientes de um restaurante verdadeiro em Nova Iorque. O mais curioso é que o trabalho saiu da mente do proprietário do lugar, um rico publicitário de 64 anos, Bob Giraldi. Antes de “Uma Receita Para a Máfia”, Giraldi havia dirigido um único filme, em 1989. Isso tudo pode levar o espectador a crer que “Dinner Rush” não passa de um comercial de luxo do restaurante do diretor. Talvez até funcione assim, mas vai mais longe do que isso. “Uma Receita Para a Máfia” é afetado, mas criativo e charmoso. Poderia ser descrito como um encontro bizarro do dinamarquês “A Festa de Babette” com o painel multi-personagens de “Short Cuts”.

O filme apresenta uma dúzia de personagens interessantes, cruza várias histórias individuais e utiliza esse emaranhado de relações pessoais para filosofar sobre família e sobre a tendência da sociedade contemporânea para transformar tudo – até um simples jantar – em espetáculo (no caso, dos sentidos). O filme, então, é um show, no verdadeiro sentido da palavra. Um show temperado com receitas saborosas e coloridas.

O restaurante onde quase todas as cenas foram filmadas, o Gigino Trattoria, fica no rico bairro de Tribeca, em Nova York. Detalhe importante: Bob Giraldi possui sociedade em outros nove restaurantes (em Londres, Hong Kong e lá mesmo, na Big Apple). Fazer esse filme foi, segundo ele, uma maneira de celebrar a arte de comer bem e apresentar, para o público leigo, os bastidores de um restaurante de alto nível. A rigor, o filme foi apenas um hobby de um milionário. Mas o resultado final é mais interessante do que isso.

Os 98 minutos de projeção do longa-metragem transcorrem em uma única noite. O Gigino Trattoria está particularmente lotado. Por ser o restaurante da moda em Nova York, é o tipo de lugar onde se demora três meses para conseguir uma reserva. Ou em que freqüentadores demoram 40, 50 minutos aguardando na fila sem poder demonstrar o mais leve traço de irritação. O motivo de tanta paciência está na cozinha (locação que, junto com o salão principal do restaurante, domina a película). Ou melhor, nos pratos que o jovem chef Udo Cropa (Edoardo Ballerinni) prepara. Udo é grosso e mulherengo, mas craque com as panelas. Com a providencial ajuda de Duncan (Kirk Acevedo), um apostador compulsivo, cria pratos cujo visual é capaz de fazer um asceta desistir do jejum.

A ironia disso é o que o pai de Udo, Louis (Danny Aiello), é um tradicionalista que sempre usou o lugar como fachada para fazer apostas. Louis gosta de ver os fregueses comendo, mas prefere uma boa lingüiça assada, para irritação do filho. A relação inversamente proporcional que os dois mantêm com o ato de comer sublinha com inteligência um dos grandes temas do longa, o embate tradição X modernidade. Esse assunto aparece também em vários outros relacionamentos que o enredo vai traçando, como a própria relação paternal que Louis estabelece com Duncan, cujo estilo de cozinhar (e também de viver) é menos refinado. Outra subtrama que evidencia essa temática é o aparecimento de dois mafiosos “liberais”, que rompem a ética romântica de Louis e exigem sociedade no restaurante.

Além deles, há muitos outros personagens interessantes: uma garçonete (Summer Phoenix) que é artista plástica de qualidade, uma atendente (Vivian Wu) que mantém um romance simultâneo com Udo e Duncan e um barman (Sean Harris) estilo ‘enciclopédia ambulante’ que serve drinques e responde, por alguns dólares, a qualquer pergunta dos clientes. É dele a frase que dá o tom do filme: “Nos dias de hoje, comer se transformou em um show”. É isso. A câmera ágil de Giraldi, reforçada por uma montagem veloz, transita entre a cozinha (os bastidores), caótica como os corredores de uma emergência hospitalar, e o salão principal (o palco), lugar onde o show não pode parar. E não pára mesmo. Nem com um blackout, que mergulha o ambiente na luz de velas por alguns minutos, feito sob medida para a equipe técnica mostrar como se constrói um filme plasticamente belo. É tão belo que fica, às vezes, estéril.

A fotografia do filme é um destaque óbvio, especialmente nas cenas que se passam na cozinha. Lá, o filme se transforma numa versão turbinada de “A Festa de Babette”, exagerada pelas comidas exóticas e multicoloridas que Udo bola, enquanto trata os funcionários à base do grito e dá em cima da amiga de uma crítica gastronômica, que vai ao lugar tanto pelo jantar quanto pelo ritual de sedução que envolve o chef. São cenas divertidas e literalmente deliciosas. Comida e sexo estão interligados no filme, são como cara e coroa de uma mesma moeda. Enquanto isso, o roteiro de Giraldi vai cruzando as diversas tramas com uma desenvoltura e naturalidade que lembram o Robert Altman dos melhores momentos.

Isso segue até os quinze minutos finais, quando um ato um tanto inesperado de Louis dá um novo rumo à trama, encaminhando-a rumo a um final meio decepcionante. Tudo bem, nem tudo é perfeito, embora o elenco, obviamente se divertindo, esteja bem perto disso. Uma menção especial deve ser dada a Danny Aiello, muito à vontade no papel do alter ego do cineasta. É verdade que Aiello já interpretou o dono de um restaurante italiano, mas em “Faça a Coisa Certa” o lugar estava mais para Pizza Hut do que para paraíso da nouvelle cuisine. Através do personagem dele, fica evidente que Giraldi é um nostálgico de carteirinha, e que “Dinner Rush” funciona como uma despedida em grande estilo de um mundo de glamour que parece tê-lo deixado para trás.

Uma informação final: o título original faz referência bem-humorada ao “engarrafamento” que ocorre no restaurante durante a noite em questão, quando nada menos do que 264 pratos são servidos aos clientes. Aliás, uma boa sugestão é forrar o estômago antes de ir ao filme. Assistir à película antes do jantar pode significar correr o risco de incomodar outros espectadores, se você não conseguir controlar os roncos no estômago. Depois da sessão, a dica é dar uma passada no site do restaurante e dar uma olhada nas receitas maravilhosas que preparam por lá. Só que fazer igual vai ser difícil.

O DVD [é da Europa filmes, que o lançou com imagem cortada nas laterais (fullscreen 4×3) e trilha de áudio Dolby Digital 2.0. Há documentário, cenas cortadas e até entrevista com o diretor, numa boa galeria de extras.

– Dinner Rush (EUA, 2000)
Direção: Bob Giraldi
Elenco: Danny Aiello, Edoardo Ballerini, Mike McGlone, Vivian Wu, Sandra Bernhard
Duração: 98 minutos

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