Recém Casados

06/04/2004 | Categoria: Críticas

Filme tem um roteiro previsível, interrompido de vez em quando por trapalhadas engraçadas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

As velhas, boas e cínicas comédias românticas – um dos mais notáveis gêneros nascidos nos Estados Unidos – estão sendo reduzidas, atualmente, a uma desgastada fórmula repetida infinitamente pelos estúdios de Hollywood. Um gênero que já produziu alguns dos grandes estudos do comportamento humano (“Crepúsculo dos Deuses”) e filmes engraçadíssimos (“Quanto Mais Quente Melhor”) vai se transformando, aos poucos, em um amontoado de bobagens inferiores. “Recém Casados” (Just Married, EUA, 2003) é um exemplo básico.

Par começar, a dupla de protagonistas parece uma cópia xerox de outras dezenas (ou talvez centenas) de personagens semelhantes, de filmes semelhantes, produzidos durante a década de 1990. Tom Leezak (Ashton Kutcher) é um locutor de rádio, o típico bonitão que ama esportes, um tanto abobalhado e outro tanto garanhão. Sarah McKerney (Brittany Murphy) é uma patricinha mimada, sempre vestida com roupas da moda e com um celular de última geração na orelha. A única diferença entre eles e o resto da juventude dos EUA é que os dois estão para casar, quando o filme começa.

O casamento, claro, acontece, e o casal então viaja à Europa em lua-de-mel. O que acontece, a partir daí, é uma série de situações meramente artificiais, que reforçam a idéia de que os dois possuem personalidades incompatíveis, embora estejam mesmo irremediavelmente apaixonados. Todos os clichês do gênero batem ponto em algum ponto do roteiro; há o pretendente gostosão e desonesto da garota, a gostosona burra e de peito imenso que dá em cima do rapaz, os pais conservadores que representam a “consciência” da menina e desaconselham o casamento.

Se algo salva o filme, é a química entre os protagonistas nas cenas de humor pastelão, que ambos fazem (principalmente Kutcher e seu jeito de moleque) com indisfarçável ar de diversão descerebrada. Ou seja, eles são tão espontâneos e divertidos nas trapalhadas que acabam contagiando o espectador, em muitos momentos, como aquele em que os dois desabam sobre um casal num hotel vagabundo na Itália. É possível que, se o diretor Shawn Levy tivesse desprezado o roteiro e colocado os dois atores para improvisar, em paisagens tão belas quanto as mostradas, o filme tivesse ficado melhor.

Mas há um texto para atrapalhar, e ele o faz com competência. Assim, o filme jamais se assume como um pastelão, transformando as melhores cenas em raridades, como pérolas em um oceano. Qualquer espectador com um mínimo de experiência em comédias rmântica contemporâneas pode prever com antecedência cada passo dado pelo filme. Além disso, a direção pesada de Levy garante que, nos primeiros 20 minutos, todas as pistas do que está por vir tenham sido distribuídas à platéia. E nem precisava disso, já que qualquer protagonista de novela das 20h passa sempre pelo mesmo calvário – que sempre termina do mesmo jeito. Isso é Hollywood.

– Recém Casados (Just Married, EUA, 2003)
Direção: Shawn Levy
Elenco: Ashton Kutcher, Brittany Murphy, Christian Kane, David Moscow
Duração: 95 minutos

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