Guerra Sem Cortes

03/10/2008 | Categoria: Críticas

Brian De Palma usa estilo amador e brinca com tecnologia para fazer crítica agressiva à intervenção dos EUA no Iraque

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A história é real. Aconteceu em março de 2006, na cidade iraquiana de Mahmudiya, que fica ao sul da capital, Bagdá. Turbinados por uma dieta de pílulas excitantes, quatro soldados norte-americanos estupraram e mataram uma menina iraquiana de 14 anos, em uma ação que terminou com o assassinato a sangue frio de mais três membros da família da garota. A ação teria passado despercebida se um quinto militar, que era lotado na mesma unidade e sabia do crime, não houvesse ficado com remorsos e botado a boca no trombone, denunciando o caso. Em “Guerra Sem Cortes” (Redacted, EUA, 2007), o veterano Brian De Palma reconstitui a história, renunciando ao estilo visual elegante que sempre lhe caracterizou para realizar um filme sujo e visceral, que lança uma crítica extremamente agressiva à intervenção dos EUA no Iraque.

Além de bater pesado na política intervencionista dos Estados Unidos, o cineasta também aproveita a oportunidade para realizar uma arrojada experiência estética e tecnológica. Ele conta a toda a história utilizando formatos variados de imagem, todos amadores, como se fosse um documentarista reconstituindo um acontecimento a partir de vídeos oriundos de várias fontes: telefones celulares, câmeras de segurança do quartel, sites na Internet, diários gravados pelas câmeras dos soldados, programas de televisão. O resultado final tem a estética suja e imperfeita de um vídeo amador, o que era de fato o objetivo do cineasta.

Vale observar que a gênese do projeto foi bem incomum. Brian De Palma foi abordado por uma produtora, que lhe ofereceu a chance de realizar um filme com total liberdade, a partir de duas premissas iniciais: um orçamento de US$ 5 milhões e a gravação na íntegra das imagens em formatos digitais, sem uso de película. De Palma, que lera nos jornais sobre o estupro e morte da menina iraquiana, inicialmente tencionava criar um documentário real, usando todos os vídeos amadores disponíveis sobre o caso. Com medo de um processo judicial, a produtora sugeriu que ele reencenasse toda a história, utilizando um elenco semi-profissional. O cineasta aceitou a sugestão. Daí surgiu “ Guerra Sem Cortes”.

Seguidores do diretor veterano irão observar uma semelhança temática inquestionável do projeto com um dos filmes mais obscuros dele, “Pecados de Guerra”. Embora utilize uma cinematografia convencional, o título de 1989 também conta uma história de violência contra a mulher, aditivada pela adrenalina e pela tensão resultantes da participação em uma guerra, onde o soldado nunca se sente seguro e sabe que pode morrer no minuto seguinte. A camada extra de significado emerge da utilização inusitada da tecnologia. De Palma perece dizer que a expansão da Internet e das técnicas digitais de captação de vídeos eliminam, nos dias atuais, qualquer possibilidade de censura – o título original é uma expressão atribuída à censura oficial de documentos.

Além deste comentário interessante sobre tecnologia, surpreende também a postura agressiva, quase rancorosa, do diretor em relação ao papel dos EUA na guerra do Iraque. Escolhendo propositalmente um repertório estereotipado de personagens (há o soldado bom, o mau, o violento, o indiferente), De Palma evita atribuir o ato violento exclusivamente à tensão resultante da guerra. Para o diretor, o ato criminoso no Iraque revela a falta de educação, a ignorância cultural, a intolerância e o hedonismo da geração contemporânea de jovens americanos. Não chega a ser uma surpresa que “ Guerra Sem Cortes” tenha sido vítima de censura (a versão original da obra terminava com uma seqüência de fotos reais de cadáveres mutilados, cujos rostos o estúdio distribuidor obrigou o diretor a cobrir com tarjas negras) e, também, obtido uma receptividade fria e hostil por parte da crítica caseira.

Sem dúvida, o longa-metragem é o mais agressivo de uma safra generosa de títulos destinados a espinafrar a intervenção norte-americana no Iraque. Desta safra fazem parte obras muito diferentes entre si, a exemplo da comédia política “Jogos de Poder” (de Mike Nichols), do drama “No Vale das Sombras” (Paul Haggis), da aventura de ação “O Reino” (Peter Berg) e do verborrágico thriller político “Leões e Cordeiros” (Robert Redford). Independentemente do valor cinematográfico de cada uma dessas obras, que é bastante variável, Hollywood manda um recado claro para a elite política do país: os dias de olhos fechados diante da tradicional política internacional intervencionista dos EUA ficaram para trás. Pelo menos enquanto a memória do atentado contra as Torres Gêmeas continuar viva.

– Guerra Sem Cortes (Redacted, EUA, 2007)
Direção: Brian De Palma
Elenco: Izzy Diaz, Daniel Stewart Sherman, Patrick Carroll, Mike Figueroa, Ty Jones
Duração: 90 minutos

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