Rede de Intrigas

05/11/2009 | Categoria: Críticas

Filme apocalíptico é panorama sombrio e corrosivo do alto escalão de uma fictícia rede de TV

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O título de “Rede de Intrigas” (Network, EUA, 1976), tanto na versão nacional quanto no original em inglês, promete uma visão dos bastidores de uma grande emissora de televisão. O longa-metragem, considerado pelos críticos como um dos melhores da carreira prolífica de Sidney Lumet, cumpre perfeitamente essa promessa, e vai além. Na verdade, são dois filmes em um: a face mais evidente da obra oferece um panorama sombrio e corrosivo do alto escalão de uma fictícia rede de TV, mas o verdadeiro cerne narrativo (o subtexto da obra) é um romance doloroso, inusitado e profundamente honesto entre um homem e uma mulher de meia-idade.

Na verdade, Sidney Lumet equilibra as duas coisas com perfeição incomum, fundindo-as em uma só história. A fluidez com que sátira e romance se chocam em “Rede de Intrigas” é quase impossível em um filme de longa-metragem, mas o roteiro de Paddy Chayefsky (que veio do mundo dos seriados televisivos e portanto conhece o tema como ninguém) não apenas permite que isso ocorra, como realiza uma verdadeira tour-de-force ao ir alterando lenta e firmemente a atmosfera do filme. Aos poucos, o que começa como uma comédia de crítica social vai virando uma sátira vigorosa mesclada com romance adulto que, no final, atinge o reino exagerado do melodrama, sem jamais perder a força dramática.

Há dois segredos para tamanho sucesso. O primeiro está na qualidade dos diálogos elaborados por Chayefsky; atualmente, quando Hollywood parece atolada em um lamaçal de filmes adolescentes e explicativos em excesso, é virtualmente impossível assistir a um filme em que os personagens são tão articulados, inteligentes e mordazes. Basta pensar, por exemplo, em “Clube da Luta” (1999), que adota o mesmo tom agressivo para bater em instituições paquidérmicas (e abstratas) como a mídia e a bolsa de valores. É bom? É, mas precisa esmurrar o espectador para fazê-lo entender a mensagem, ao invés de conversar com ele e argumentar, como faz “Rede de Intrigas”.

O outro segredo é a direção firme e primorosa de Sidney Lumet, que repete aqui seu estilo invisível de dirigir. Ele mesmo explicou como fez para que o longa-metragem fosse tomado, aos poucos, por uma atmosfera surreal, quase bizarra: começou filmando com pouca luz e câmera parada, e foi progressivamente estilizando a iluminação e enquadrando as cenas com mais movimento; a sensação, na surpreendente cena final, é que estamos vendo um programa de auditório com quatro doses de uísque na cabeça. Muito bom.

Aparentemente, o filme apresenta como personagem principal o âncora veterano Howard Beale (Peter Finch, que morreu antes de ganhar o Oscar pelo trabalho). Depois de 20 anos no ar, os baixos índices de audiência provocam a sua demissão. Em depressão, ele anuncia no programa seguinte que vai cometer suicídio no ar. A atitude impensada aumenta dramaticamente a audiência do jornal e, por causa disso, a demissão é cancelada. Aí, uma trama rocambolesca concebida pela ambiciosa e workaholic diretora de programação, Diane (Faye Dunaway, também vencedora do Oscar), transformará Howard de âncora respeitado em apresentador histérico.

Diane é a verdadeira protagonista: uma mulher inteiramente dedicada ao trabalho, cheia de energia, cuja vida não se mede em dias ou meses, mas em taxas de audiência e milhões de dólares. Emocionalmente oca, ela é capaz de manter um caso ardente com o executivo de jornalismo da companhia, Max Schumacher (William Holden), ao mesmo tempo em que trama para lhe tomar o cargo. O retrato que Sidney Lumet consegue obter da mulher é sensacional; a direção de arte faz com que seu apartamento seja modesto e uma bagunça, o que soa absolutamente natural, já que a verdadeira “casa” de Diane é o escritório – esse sim, um brinco de organização.

Uma das melhores cenas mostra Diane e Max fazendo sexo. Ela está entusiasmada com os índices de audiência, e não pára de falar sobre isso nem mesmo na cama, durante o ato em si. De fato, a intensidade da transa é regulada pelas palavras de Diane, e ela atinge o orgasmo exatamente no momento em que termina de explicar a Max porque vai transformar a rede na maior emissora de televisão dos Estados Unidos. Ele, por sua vez, sabe que a amada tem problemas emocionais. Entende que Diane é moralmente dúbia e cega de ambição, mas está apaixonado e não consegue evitar o envolvimento.

A seqüência em que Max explica à esposa (Beatrice Straight) porque vai largá-la é um primor de interpretação dos dois atores. Holden, que participou de muitos clássicos do cinema (“Crepúsculo dos Deuses” e “Meu Ódio Será Sua Herança” são apenas dois deles), faz uma avaliação assustadora do próprio futuro, demonstrando ter conhecimento total da ratoeira em que está se metendo. Sua mulher, atingida diretamente no amor próprio, retruca com uma das falas mais brilhantes já ouvidas em um filme de Hollywood. Straight fica em cena por apenas cinco minutos e quarenta segundos, e foi o suficiente para conquistar o Oscar de atriz coadjuvante de 1977.

Como se não fosse o bastante, há ainda as hipnóticas intervenções de Howard Beale, que surta e se transforma em uma espécie de profeta televisivo, vociferando um discurso dramaticamente iconoclasta, contra tudo e todos, que angaria a empatia da nação como um turbilhão. “Estou furioso como o inferno e não vou agüentar mais isso”, berra ele, conclamando os espectadores a irem às janelas de suas casas gritar junto com ele, numa das melhores cenas. Atônitos, os personagens– Robert Duvall, como o executivo-chefe, e Ned Beatty, como o acionista principal da rede, também estão sensacionais – trocam telefonemas enquanto nós, do lado de cá da tela, ouvimos ao fundo os gritos dos espectadores pendurados nas janelas de todas as cidades do país. “Rede de Intrigas”, acredite, é o produto iluminado de uma conjunção de artistas de primeira grandeza.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Fox, em versão simples, bem diferentedo disco duplo disponível nos EUA. O DVD tem boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 1.0), mas nada de extras. O DVD duplo norte-americano traz um documentário em seis partes, dois segmentos com entrevistas na TV concedidas por Peter Finch e Paddy Chayefsky e uma entrevista com Lumet.

– Rede de Intrigas (Network, EUA, 1976)
Direção: Sidney Lumet
Elenco: Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch, Robert Duvall
Duração: 122 minutos

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