Rede de Mentiras

23/05/2009 | Categoria: Críticas

Ridley Scott realiza um filme de ação tradicional, usando a complexa situação do terrorismo no Oriente Médio como pano de fundo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, roteiristas e diretores que trabalham nos grandes estúdios voltaram repentinamente os olhares para o Oriente Médio. O ataque terrorista gerou, compreensivelmente, uma necessidade atávica de entender as razões históricas do ódio anti-americano existente naquele pedaço remoto do mundo. “Rede de Mentiras” (Body of Lies, EUA, 2008) é um thriller de espionagem que se alia essa corrente, mas tenta não mostrar muito compromisso em realizar uma reflexão político-ideológica de maior profundidade. Na verdade, o diretor inglês Ridley Scott fez um filme de ação tradicional, usando a complexa situação da região como pano de fundo.

A referência fundamental para compreender o cenário pintado em “Rede de Mentiras” é o ambicioso drama político “Syriana” (2005), de Stephen Gaghan. Aquele mosaico de histórias paralelas tentou abarcar todos os pontos de vista envolvidos na intrincada situação social dos países árabes, e como fez isso com competência, conseguiu se transformar em paradigma para todas as produções que vieram na seqüência e trabalharam o mesmo tema. Com “Rede de Mentiras” não é diferente. Desde o estilo visual adotado (luz repleta de poeira, iluminação em chave escura, profusão de cenas em locações externas) até o modo de os personagens dialogarem através de pequenas charadas, sem se referirem diretamente ao assunto, remete ao longa-metragem de 2005.

Portanto, o paradigma é o melhor possível. Ademais, Ridley Scott realmente tenta dar uma densidade dramática maior do que o normal ao longa-metragem. Ele reserva toda a primeira metade do enredo para desenvolver a teia de eventos em que Roger (Leonardo DiCaprio) está envolvido. O rapaz é agente de campo no Iraque, fala árabe fluente e acaba sendo transferido para a Jordânia, após sofrer ferimento num atentado em que tem a identidade exposta. Sua missão é caçar um novo chefe terrorista que tem planejado e executado grandes atentados em cidades européias como Amsterdã. Ele tem que fazer isso com a cooperação do chefe da CIA jordaniana (Mark Strong), e sob a supervisão de um chefe veterano (Russell Crowe), sujeito extremamente prático que já apagou da mente qualquer tipo de preocupação moral ou ética.

A atuação de Crowe é um dos destaques do filme. Gordo e sempre aparentando calma, ele acompanha a ação no Oriente Médio usando satélites e telefones celulares de última geração. Como veterano calejado, sabe o tom exato a utilizar em cada negociação, o que faz como se estivesse executando a mais prosaica das tarefas – não raro, suas ordens envolvem a vida e a morte de dezenas de pessoas, e são dadas da arquibancada do campo de treinamento onde os filhos jogam bola inocentemente. Leonardo DiCaprio é bom ator, mas não tem a mesma credibilidade no papel, talvez porque seja difícil aceitá-lo como descendente de árabes. As lentes de contato castanhas, a pele bronzeada e a barbicha mal aparada não são suficientes para apagar a imagem do rapaz loiro e bonito que ele se esmerou em construir durante quase 20 anos de carreira.

“Rede de Mentiras” também investe em uma trama secundária absolutamente clichê e dispensável, que envolve o relacionamento afetivo entre Roger e uma enfermeira jordaniana (Golshifteh Farahani). Para que esta segunda história fosse crível, o roteirista William Monahan (Oscar por “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese) deveria ter tido mais tempo, no primeiro ato, para desenvolver melhor os aspectos pessoais da vida do agente secreto. Sabemos que ele enfrenta um processo de divórcio (isto é dito em uma linha de diálogo e depois não é mais mencionado), e intuímos que talvez esteja se sentindo solitário. Mas a energia e o tempo que ele emprega nas tarefas profissionais acabam levando a crer que um homem como ele não teria chance ou disposição para se envolver emocionalmente com uma garota, especialmente com hábitos tão diferentes dos dele.

Roger, na verdade, é o herói-padrão dos filmes modernos de espionagem: um homem altruísta, que acredita no que faz, e tenta manter certo grau de moralidade, apesar de saber que está envolvido em mentiras demais para se manter eticamente limpo. Ele se comporta de acordo com o estereótipo dos agentes secretos. É auto-confiante em excesso, fala em linguagem cifrada, conta mentiras e ajuda a manter o quadro completo inacessível ao espectador. O contraponto entre os padrões éticos dele e os do personagem de Russell Crowe é interessante e rende alguns dos melhores diálogos do filme. Já as cenas de ação são quase todas burocráticas, com exceção de uma que acaba se mostrando o melhor momento do filme: a tática especial utilizada pelos terroristas para confundir os satélites que ajudam a CIA a acompanhar a ação dos espiões em tempo real.

O DVD da Warner traz o filme com razão de aspecto original (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Rede de Mentiras (Body of Lies, EUA, 2008)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong, Golshifteh Farahani
Duração: 128 minutos

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