Rede Social, A

10/03/2011 | Categoria: Críticas

David Fincher realiza primoroso estudo de personagem, auxiliado por elenco brilhante e por minuciosa e impecável reconstituição de época

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Durante a pré-produção de “A Rede Social” (The Social Network, EUA, 2010), quando o roteiro de Aaron Sorkin permanecia guardado a sete chaves, rumores davam conta de que David Fincher iria dirigir um filme sobre o Facebook. Eram boatos desconcertantes. Como assim? Um cineasta que parecia genuinamente interessado em pessoas iria se dedicar a filmar uma versão cinematográfica de um fenômeno da cibercultura? Qualquer preocupação de que Fincher pudesse estar dando uma guinada radical nos rumos de sua carreira, no entanto, se dissipam ainda nos primeiros minutos de projeção. “A Rede Social” não apenas está à altura dos melhores trabalhos do cineasta, como também traz consigo uma série de marcas estilísticas que dão à produção uma textura típica do homem que a dirigiu.

Como todos sabem, o filme narra a história do surgimento e da consolidação do Facebook como a rede social mais interessante da Internet (pelo menos em 2010, quando escrevo), e também como primeiro fenômeno da cibercultura a fazer a equipe do Google coçar as cabeças e franzir os cenhos. Fincher faz isso, contudo, concentrando-se em explorar a complexa, curiosa e significativa contradição entre a personalidade de seu criador – Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um misantropo de carteirinha – e a função social de sua criação: promover a amizade e tornar as pessoas mais próximas (se não no sentido estritamente geográfico, com certeza no campo afetivo). Em outras palavras, “A Rede Social” realiza um primoroso estudo de personagem, auxiliado por um elenco brilhante e pela minuciosa e impecável reconstituição de época que já se tornou característica central (e rotineira) do trabalho de Fincher.

A estrutura não-cronológica do roteiro de Aaron Sorkin (um especialista em séries de TV, que aqui revela uma verve especialmente afiada para diálogos, na melhor tradição de Howard Hawks e das comédias de gênero dos anos 1930-40) intercala longos flashbacks, que recontam episódios importantes do nascimento e do crescimento do Facebook, com cenas do presente (dois julgamentos independentes, nos quais Zuckerberg está sendo processado por colegas de universidade que alegam serem co-autores do site). O vai-e-vem no tempo pode ser um tanto intrincado, mas espectadores atentos não devem ficar incomodados, porque David Fincher jamais perde de vista o eixo narrativo principal, que está no contraste cada vez maior entre a personalidade apática e introvertida do protagonista e a imagem jovial, alegre e popular da rede social que ele criou.

A pergunta central, aqui, é a seguinte: como é que um sujeito tão desinteressado dos seres humanos, como Zuckerberg, foi capaz de criar, num ato instintivo e em apenas um par de horas, um sítio digital tão eficiente na função de realizar justamente o oposto? Este eixo narrativo fica evidente já na longa e magnética seqüência de abertura, quando a namorada (Rooney Mara) de Zuckerber rompe com ele durante um jantar de rotina – a cena deixa claríssima a inspiração nas velhas comédias de Hawks, com diálogos à velocidade da luz e muito subtexto, enquanto nos permite enxergar claramente a personalidade alienada do herói, um cara que não consegue escutar ninguém ao seu redor e, mesmo quando conversando com os outros, está permanentemente travando uma espécie de diálogo interior incessante. O pé na bunda vai ter como conseqüência a criação do Facebook, naquela mesma madrugada, mas não como uma forma encontrada pelo estudante de Computação de Harvard para vencer sua apatia, e sim como uma maneira de se vingar cruelmente da garota. Algumas horas depois, a brincadeira inconseqüente se transformou numa idéia promissora que viria a valer, anos mais tarde, a bagatela de US$ 33 bilhões.

Ao longo de todo o filme, Fincher explora esse lado misantropo da personalidade de Zuckerberg, concentrando-se nas confusões arrumadas por ele com bons amigos (Andrew Garfield, excelente no papel do brasileiro Eduardo Saverin); com colegas de universidade (os gêmeos Winklevoss, interpretados por Armie Hammer); e com sócios famosos que encontra pelo caminho (Sean Parker, na pele de Justin Timberlake). Trabalhando basicamente com atores jovens e relativamente inexperientes, e imprimindo aos diálogos travados por eles um ritmo alucinante o tempo inteiro – o que confere dinâmica e ritmo ágil a um longa-metragem 100% composto por cenas de diálogos, sem uma única seqüência de ação física –, o diretor alcança um resultado realmente excepcional.

Para criar um universo visual que espelha o mundo interior do protagonista, Fincher lança mão de seu talento natural para a reconstituição de época. O campus de Harvard e as frias e iluminadas salas de audiência de tribunais são reconstruídos com minúcias, sempre utilizando uma paleta de cores monocromática, de maneira a simular a visão de mundo de Zuckerberg: capaz de captar os mínimos detalhes, mas vendo-os de maneira uniforme e redutora, como se fosse capaz de vislumbrar as nuances e texturas, mas não tivesse interesse ou capacidade de vê-las realmente. Da mesma forma, o uso de lentes teleobjetivas – um tique estilístico que ele carrega desde sua época de diretor de videoclipes e comerciais de TV – produz imagens praticamente sem profundidade de campo nenhuma, o que resulta em muitos primeiros e segundos planos fora de foco (muitas vezes, aliás, ele próprio está fora de foco, o que diz muito a respeito de sua personalidade). Isso reproduz a atitude de Zuckerberg diante da vida e, claro, do próprio Facebook.

Filmado com o orçamento relativamente curto de US$ 50 milhões, “A Rede Social” finca pé como um dos pontos altos da carreira do cineasta e, se exibido em uma antiga sala de grindhouse, faria uma sessão dupla perfeita com “Zodíaco” (2007). Ambos são longas-metragens representam de maneira ultra-detalhista o universo pessoal de homens obsessivos e às voltas com sérios problemas de relacionamento, tanto com as pessoas ao seu redor quanto com o mundo em geral; e ambos têm como pano de fundo eventos verdadeiros que Fincher reconstitui de maneira quase documental, com a ajuda de uma trilha sonora cheia de canções certeiras e de colaboradores tradicionais, como o desenhista de som Ren Klyce, que faz um trabalho discreto e eficiente. Para completar, o final melancólico e devastador encerra a trama com uma nota surda de delicadeza. Filmaço.

– A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010)
Direção: David Fincher
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Rooney Mara
Duração: 121 minutos

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