Reencarnação

04/03/2005 | Categoria: Críticas

Idéia central do longa-metragem inverte a regra da narrativa clássica: finais têm que ser mais tensos do que inícios

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Algumas vezes, as premissas em torno das quais um filme é desenvolvido resultam muito mais interessantes do que o filme em si. Este é o caso de “Reencarnação” (Birth, EUA, 2004), o estranho thriller/suspense/drama romântico que traz Nicole Kidman num dos papéis mais desafiadores da carreira. A idéia central que move o longa-metragem, apresentada durante o primeiro ato, é tão forte e sedutora que proporciona uma inversão da regra básica da narrativa clássica: o começo do filme tem muito mais tensão do que o final. É inevitável, pois, que “Reencarnação” deixe um gosto de decepção quando termina.

O filme de Jonathan Glazer foi construído em torno de uma das premissas dramáticas mais interessantes dos últimos tempos, e que trata – como o título em português deixa claro desde o início – da reencarnação. A protagonista é Anna (Kidman), uma jovem viúva que perdeu o marido dez anos antes, em um ataque cardíaco em pleno Central Park, em Nova York. Anna está prestes a casar novamente. Ela é uma mulher amargurada e triste, que jamais conseguiu superar o trauma da morte do marido.

Durante uma festa em família, no sofisticado apartamento em Manhattan em que mora, um garoto de 10 anos entra no apartamento e se apresenta. “Eu sou Sean”, afirma. O menino não está apenas se apresentando; ele está afirmando que é o marido morto de Anna, reencarnado, e que possui todas as lembranças da vida anterior. Ele garante que ainda ama Anna e pede que ela não case com Joseph (Danny Huston), o pretendente que lhe cortejou durante muitos anos (como ele deixa claro no discurso que faz durante a festa de noivado) até vencê-la pelo cansaço.

“Reencarnação” não é um filme de terror sobrenatural, embora a direção de arte do longa-metragem aponte para isso. Há semelhanças óbvias entre o filme de Jonathan Glazer e duas obras clássicas do tema, que são “O Bebê de Rosemary” e “O Sexto Sentido”. No primeiro caso, é a ambientação: os prédios chiques e decadentes de Manhattan, a neve, o corte de cabelo da traumatizada e confusa personagem feminina central e o papel de parede verde, evocando melancolia, que cobre as paredes de sua casa. No segundo caso, é a participação fundamental de uma criança que pensa e age como adulto.

Sean (Cameron Bright) é o melhor personagem de “Reencarnação”. O pequeno ator o interpreta com um toque levemente sinistro. Ele jamais sorri. Caminha pelas ruas se esgueirando, sem chamar a atenção, com sua pequena bolsa atada às costas. Fala com uma franqueza desconcertante e enfrenta conversas de peito aberto, com os adultos, como se não tivesse nada a temer. Seu personagem permanece envolto em mistério. De certa maneira, o filme mantém essa aura misteriosa mesmo após o epílogo.

Na outra ponta do arco dramático, há Anna, uma mulher emocionalmente em frangalhos. Nicole Kidman confirma sua boa fase como atriz com uma grande cena, uma das melhores do filme: um plano de fechado de aproximadamente três minutos do seu rosto. Ela está assistindo a um concerto de música clássica com o noivo, e não move um único músculo da face em toda a cena, mas passa à platéia com clareza o turbilhão emocional que a aparição de Sean lhe provoca. Em outra cena, que se tornou polêmica mas é na verdade honesta e sutil, ela divide uma banheira com a criança. Anna é o retrato da confusão mental.

Em “Reencarnação”, a rigor, não existe uma trama. O filme se concentra em observar e registrar as reações dos personagens ao dilema apresentado por Sean. Primeiro, ele é recebido com risadas. O garoto se submete a uma sessão de perguntas e respostas, e revela coisas que somente o falecido marido de Anna poderia saber. À medida que é levado a sério, Sean provoca um abalo naquele círculo de relações. Joseph, afável e irônico no princípio, sofre um furioso ataque de ciúmes que é a cena mais perturbadora do filme.

Por outro lado, “Reencarnação” sofre de um problema que não é pequeno: falta de ritmo. A lentidão quase exasperante da edição, em que as cenas custam a passar, é acentuada pela quase ausência de trilha sonora. Como o filme se passa quase todo em interiores, com poucas pessoas conversando, há longas cenas que se desenrolam em completo silêncio. Essa lentidão causa enorme desconforto a uma platéia que se sente enganada, de certa forma, pela equivocada campanha de marketing, tanto quanto pela atmosfera pesada do filme. As duas coisas prometem, e não cumprem, uma trama cheia de sustos e reviravoltas.

Sim, o final de “Reencarnação” é inteligente. Mas a cena que resolve o conflito dramático da história não tem a mesma força da cena que inicia o mesmo conflito. Esse desequilíbrio compromete a obra e dá a certeza que o longa-metragem é todo sobre Anna, e que a aparição do pequeno Sean funciona apenas como estratégia do cineasta para fazer a platéia a examinar a condição emocional alquebrada de uma mulher frágil e dependente. Esse laboratório da mente é algo que o filme faz bem, mas de maneira desonesta, porque promete outra coisa ao espectador.

A lamentar, ainda, a falta de desenvolvimento da tensa Clara (Anne Heche), personagem que poderia ser rica e interessante, mas não passa de outro artifício do roteiro para ajudar a dar um fim redondo ao longa-metragem. Tantos truques comprometem a fluidez do longa-metragem e, talvez, também seus méritos cinematográficos.

A PlayArte lançou o fikme em DVD com duas trilhas de áudio Dolby Digital 5.1 (português e inglês), formato de tela fullscreen (com cortes laterais) e nenhum extra. Fraco.

– Reencarnação (Birth, EUA, 2004)
Direção: Jonathan Glazer
Elenco: Nicole Kidman, Cameron Bright, Danny Huston, Lauren Bacall
Duração: 100 minutos

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