Regras da Atração

23/08/2006 | Categoria: Críticas

Retrato do pansexualismo da geração dos anos 1990 peca pelo excesso de firulas na direção

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O cineasta Roger Avary tem, como crédito mais importante, a co-autoria do argumento de “Pulp Fiction” (1994). Ao contrário do que muita gente pensa, contudo, ele não ajudou Quentin Tarantino a escrever o roteiro do filme. Na verdade, Avary e Tarantino trabalharam juntos, no início das respectivas carreiras, como atendentes de uma locadora de vídeo. Foi durante os papos regados a filmes, durante as tardes modorrentas daquele período, que a dupla bolou as histórias entrelaçadas de “Pulp Fiction”. Por isso Tarantino deu um crédito menor ao colega. Essa atitude ajudou a lançar a carreira de Avary como diretor e roteirista, mas desde então ele não conseguiu emplacar nenhum trabalho realmente empolgante.

“Regras da Atração” (Rules of Attraction, EUA, 2003) é tido por muita gente como a melhor produção assinada por Avary. O filme é baseado em um celebrado romance de Brett Easton Ellis, autor de prestígio junto ao público jovem dos Estados Unidos. Easton Ellis possui a fama de cronista implacável da geração vazia dos anos 1990, e tem olho especialmente aguçado para o pansexualismo (ou seja, a compulsão por sexo com gente de qualquer sexo, credo, cor ou faixa etária), característica importante dessa turma. No longa-metragem, porém, o ambicioso objetivo de funcionar como crônica de uma geração acabou dissipado pelos excessos de uma direção que teima em querer ser “jovem”, com aspas.

Aqui, cabe uma observação a respeito da influência do próprio Tarantino – e de “Pulp Fiction” em particular – no estilo de direção desenvolvido por Roger Avary. Talvez deslumbrado pelas brincadeiras metalingüísticas, truques de edição e narrativa fragmentada, que Tarantino soube usar com parcimônia no longa de 1994, Avary leva tudo isso às últimas conseqüências. Em “Regras da Atração”, o cineasta abusa desses recursos, mas o que poderia denotar criatividade acaba virando exagero, porque ele simplesmente não sabe quando parar.

A história, em si, poderia render um trabalho bem mais interessante, dentro de sua simplicidade. Sim, ela é simples: trata-se de uma clássica confusão amorosa, só que com características próprias da geração pansexual que Brett Easton Ellis radiografa. Sean (James Van Der Beek), traficante de drogas na universidade de New Hampshire, é apaixonado pela aluna Lauren (Shannyn Sossamon), mas ela só tem olhos para Victor (Kip Pardue), que por sua vez já namorou Paul (Ian Somerhalder), um gay que só tem olhos para Sean. O filme lança um olhar divertido para as dores de amor de três desses personagens, durante uma semana.

O quarto vértice do triângulo (?), Victor, está em viagem de férias pela Europa, e retorna à universidade perto do final do filme. O retorno, aliás, acontece em seqüência que resume perfeitamente o exagero de estilo aplicado à trama por Roger Avary. O diretor resume a trip européia do rapaz, que passeou de mochila nas costas por boa parte das cidades festeiras do continente (Londres, Paris, Barcelona, Amsterdã), em uma montagem ultra-acelerada de fotografias Polaroid. Detalhe: o pisca-pisca das fotos – nenhuma fica mais de meio segundo na tela – dura quase cinco minutos. O que poderia ser uma cena divertida e criativa vira uma overdose de efeitos visuais que cansa a vista e o espectador. Pessoas que sofrem de epilepsia devem evitar essa cena em particular, e infelizmente esse comentário não é piada.

Além desse truque narrativo, que o longa alemão “Corra Lola Corra” (1998) usou discretamente e muito bem, Avary utiliza muitos outros. A longa seqüência de abertura, por exemplo, “rebobina” um encontro dos três personagens-chave durante uma festa na universidade, também em cena que demora bastante para acabar. O split screen (ou tela dividida, em que ações simultâneas são filmadas por duas câmeras diferentes e mostradas de uma só vez) também aparece em vários momentos. Um deles é a melhor cena de “Regras da Atração”: o encontro entre Sean e Lauren dentro da sala de aula, quando a câmera unifica as duas imagens em um simbólico primeiro beijo. Muito legal. Pena que haja tão pouco sexo num filme sobre sexo, e que os excessos de estilo ajudem a dispersar a força de uma história mais interessante do que o filme que a conta.

O DVD é da Imagem Filmes. Não tem extras, e a qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (widescreen anamórfico) é satisfatória.

– Regras da Atração (Rules of Attraction, EUA, 2003)
Direção: Roger Avary
Elenco: James Van Der Beek, Shannyn Sossamon, Ian Somerhalder, Jessica Biel
Duração: 110 minutos

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