Rei da Comédia, O

05/06/2007 | Categoria: Críticas

Sátira ácida à cultura das celebridades é ótimo filme injustiçado de Martin Scorsese

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Todo mundo conhece alguém “sem noção”. A expressão se refere às pessoas que se comportam de maneira freqüentemente inadequada sem fazer idéia disso. São pessoas que parecem viver mergulhadas em um mundo particular, e enfrentam muitas dificuldades para viver em sociedade. Indivíduos assim costumam deixar a gente desnorteado, sem saber direito com agir, apenas desejando que sumam da nossa frente o mais rápido possível – o que quase sempre não acontece. Chatos e desagradáveis, esses personagens são bem raros no cinema. Um deles é o protagonista de “O Rei da Comédia” (The King of Comedy, EUA, 1983), comédia injustiçada de Martin Scorsese.

Embora tenha diálogos afiados e algumas seqüências antológicas – todas as cenas passadas no surreal quarto do protagonista, decorado com figuras de papelão em tamanho real com quem ele “conversa” na maior intimidade, são brilhantes – o filme foi um fracasso retumbante de bilheteria, causando considerável dano à mais famosa parceria entre ator e diretor da época das filmagens (Scorsese + Robert De Niro). É difícil apontar os motivos de tamanho fracasso, mas este é provavelmente o clássico caso do filme à frente de seu tempo. Com base em um roteiro de Paul Zimmermann, Scorsese construiu uma perfeita fábula urbana de humor negro, uma sátira ácida e inteligente à cultura das celebridades, cheia de interpretações de alto nível e um estilo de humor negro bem peculiar.

Como de hábito na carreira de Scorsese, “O Rei da Comédia” não começou como projeto autoral. O cineasta de Nova York recebeu o roteiro do amigo Robert De Niro em 1974, antes mesmo que a parceria entre ambos tivesse engrenado vez. Foram necessários mais sete anos antes que De Niro conseguisse convencer o amigo a dirigir o filme, o que só ocorreu em 1981, um ano depois de “Touro Indomável”, talvez o mais memorável trabalho da dupla. A expectativa do público deve ter sido prejudicial ao projeto, pois depois de duas gemas como a cinebiografia do boxeador Jake La Motta e “Taxi Driver” (1976), era natural esperar mais um épico mundano sobre homens obsessivos. Mas Scorsese e De Niro preferiram dar uma guinada radical e mergulharam numa comédia de humor negro, gênero mais sutil e problemático, com o qual nenhum dos dois estava habituado.

A história gira em torno de Rupert Pupkin (De Niro), comediante amador que sonha em se tornar astro nacional. Para conseguir mostrar seu talento, ele imagina que só precisa de uma chance, aparecendo no programa de TV do famoso cômico Jerry Langford (Jerry Lewis). O problema é que Pupkin, que só se apresenta no quarto da própria casa para uma platéia fictícia, não tem a mínima experiência, o que obviamente o desqualifica para participar de um programa líder de audiência. Como legítimo “sem noção”, porém, Pupkin vive em meio a delírios de grandeza, em que se imagina o novo “rei da comédia”. Não demora para que ele se sinta o mais novo amigo de Langford, embora o astro não lhe queira ver pela frente nem pintado de ouro. Se livrar de Pupkin, porém, vai se mostrar algo bem complicado.

Com a ajuda de De Niro, autor de um desempenho sensacional, Scorsese traça um retrato implacável dos dois homens. Ambos são, cada um a seu modo, sujeitos desagradáveis. Pupkin vive mergulhado em devaneios, sem contato com o mundo real. Somente uma idéia obsessiva habita a mente dele: virar uma celebridade. Já Jerry Langford, em interpretação crua e contida de Lewis, é um astro enfadado. Está de saco cheio do mundo, não dá atenção a ninguém e vive amuado, caminhando pelas ruas de Nova York como se carregasse uma tonelada nas costas. Embora seja um comediante profissional, longe das câmeras é a própria imagem do mau-humor. Entre os dois, há ainda a figura excêntrica de Marsha (Sandra Bernhard), uma caçadora de celebridades sexualmente atraída pelo apresentador de TV.

Com personagens tão consistentes, Scorsese não tem muito trabalho em construir uma sátira brilhante, expondo sem retoques os meandros da cultura descartável das celebridades. Há momentos de puro gênio cinematográfico, como a sensacional tomada em zoom reverso que mostra Pupkin interpretando um número cômico em frente a uma platéia de papelão (que solta gargalhadas como se fosse composta por pessoas reais). Isso sem falar no final, desconcertante e absolutamente adequado ao tema, que encerra com chave de ouro – e uma nota irônica infalível – a reflexão caprichada sobre o conceito de celebridade instantânea.

O DVD da Fox, simples, tem qualidade boa de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica), áudio OK (Dolby Digital 2.0) e alguns extras, incluindo um documentário curto (18 minutos), duas cenas cortadas e galeria de fotos. O material extra tem legendas em português.

– O Rei da Comédia (The King of Comedy, EUA, 1983)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Sandra Bernhard, Diahnne Abbott
Duração: 109 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »