Rei Leão, O

12/01/2004 | Categoria: Críticas

Maior trunfo do filme é a discussão de temas como traição, amor e morte, amparada em animação de traços fortes e simples

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Animações infantis permaneceram no limbo de Hollywood durante muitos anos, após os anos 1960. Durante aproximadamente 30 anos, apenas a Disney ousava realizar longas em desenhos animados para crianças. Em 1994, um projeto concebido como uma espécie de “filme B” da empresa acabou mudando esse cenário. “O Rei Leão” (The Lion King, EUA, 1994) fez tanto sucesso que deu o pontapé inicial na onda de filmes infantis produzidos com tecnologia digital, um mercado que vem se revelando não apenas promissor do ponto de vista financeiro. As novas animações fazem muito dinheiro e também apresentam produtos de qualidade cinematográfica muito boa.

A rigor, o lançamento do filme em DVD duplo desmente, em parte, o raciocínio que atribui a “O Rei Leão” a renovação do gênero, pelo menos se essa renovação tem âncora na computação gráfica. Revisto com espírito crítico, o longa apresenta uma raiz muito diferente do tipo de filmes infantis que vingou a partir dele (como “Procurando Nemo” ou “A Fuga das Galinhas”). “O Rei Leão” é um texto clássico, que recria livremente a história de Hamlet (Shakespeare), utilizando animais como protagonistas e ambientado nas savanas africanas. A base do filme, portanto, está no texto, no roteiro, e não na técnica utilizada para criar os desenhos. Isso condiz com a fama de conservadorismo que a Disney ainda ostenta.

Essa constatação tem um lado bom e outro ruim. Visto por uma nova geração de crianças, “O Rei Leão” vai parecer, talvez, pouco ágil; o ritmo e a narrativa emprestam todos os elementos das clássicas histórias de Walt Disney, incluindo as longas seqüências musicais. A película, na verdade, é tanto animação quanto musical, uma opção narrativa que anda em decadência nos desenhos mais atuais. É verdade que as músicas cantadas pelos bichos são essenciais à história, mas elas estão mal distribuídas no longa, concentrando-se excessivamente no segundo ato do enredo, o que torna esse segmento mais cansativo do que os outros dois.

Por outro lado, esse é o único defeito aparente do filme. As canções, em si, fazem parte do charme do longa, já que renderam ao cantor inglês Elton John um Oscar (a película também faturou outro, pela trilha instrumental de Hans Zimmer). São músicas de estrutura simples, com refrões marcantes e levadas ao piano, bem no estilo que John consagrou – vale destacar a canção “Hakuna Matata”, que ficou bem conhecida na época do filme e é a mais divertida do repertório.

Mas a grande vantagem de “O Rei Leão” é a história, muito simples de acompanhar e, ao mesmo tempo, cheia de nuanças. O espectador acompanha o processo de amadurecimento de Simba, bebê no início e adulto no final da trama. O garoto precisa enfrentar os traumas causados pela morte do pai (aparentemente provocada por ele, num acidente) e uma espécie de “golpe de estado” tramado pelo tio, Scar. Nessa trajetória, Simba (e o espectador, convidado a acompanhá-lo durante todo o tempo) reflete sobre vários aspectos da condição humana, numa tradução perfeita do texto de Shakespeare para o universo infantil: coragem, traição, honra, lealdade, amizade, amor, família, maturidade e, acima de tudo, a inevitabilidade da morte. O filme apresenta o conceito de ‘ciclo da vida’ de forma criativa e muito educativa.

Se isso parece complicado, saiba que não é. De fato, os roteiristas conseguiram realizar uma abordagem muito rica dos assuntos, inserindo-os numa trama simples e fácil de acompanhar. Já a animação, tão decantada pelo uso inédito do computador, é destacada muito mais pelo uso criativo e ousado das cores (básicas e fortes, com muito uso de laranja, verde, vermelho e azul). Essa opção casa muito bem com a simplicidade do enredo. Quase todas as cenas foram feitas a mão, e a riqueza da fauna e da flora africanas acaba ressaltada pelo traço forte e estilizado que dá o tom visual do filme. O computador só foi utilizado mesmo na seqüência do estouro dos gnus, que levou dois anos para ficar pronta e faz a transição entre os dois primeiros atos – ela continua impressionante.

O DVD duplo apresenta um cardápio saboroso de opções. No disco 1, o espectador ganha a versão original do filme e uma alternativa, acrescida de uma nova canção. O próprio disco tem um curto documentário que explica o processo de inserção da música, além de apresentar rascunhos de duas cenas abandonadas. Já o disco 2 possui um grande documentário, com duas horas, que deve ser assistido por tópicos. Nele, toda a equipe envolvida dá depoimentos sobre o processo de criação. Os dois discos apresentam jogos para crianças. Todo esse material vem legendado em português. O maior destaque, de ponto de vista técnico, fica com a trilha sonora em DTS, de qualidade espetacular.

– O Rei Leão (The Lion King, EUA, 1994)
Direção: Roger Allers e Rob Minkoff
Elenco: Matthew Broderick, James Earl Jones, Jeremy Irons (vozes)
Duração: 88 minutos

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