Reino de Fogo

21/02/2005 | Categoria: Críticas

Aventura misógina cheia de homens sem camisa vale pelas ótimas cenas de ação

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Londres, dias de hoje. Um garoto de 12 anos arrasta a bolsa da escola rumo aos subterrâneos de uma escavação. Está indo encontrar a mãe, uma operária que trabalha nos túneis dos esgotos centenários da capital inglesa. O menino esbarra num dragão adormecido, acorda a fera adormecida há milênios e dá o pontapé inicial no fim do mundo como nós o conhecemos. Essa é a abertura de “Reino de Fogo” (Reign of Fire, EUA, 2002), a aventura mais misógina a ganhar lançamento mundial de destaque em muito, muito tempo.

Dirigido pelo mesmo Rob Bowman que foi revelado nos episódios mais legais de “Arquivo X” (e faria depois, entre outras coisas, a bomba “Elektra”), “Reino de Fogo” segue uma linha de filmes juvenis que evitam a todo custo qualquer tipo de desvio desnecessário à ação curta e grossa. Sabe aquele beque de usina que não tem medo de dar chutão para o alto quando o time está ganhando? Esse é o espírito. De orçamento razoavelmente magro, o filme fez boa bilheteria nos EUA, explorando uma convergência de temáticas exaustivamente exploradas pelo cinema de Hollywood: basicamente, futuro pós-apocalíptico e mitologia medieval. Pense em “Mad Max” com dragões e sem conteúdo social, e terá uma boa idéia do filme.

Após os rápidos minutos iniciais, a ação pula para o ano de 2020. O mundo descobriu rápido que os dinossauros não foram exterminados por um meteoro, mas pelo bicho mitológico. Após devastar o planeta, os dragões haviam ficado sem alimento e acabaram virando raça extinta (pelo menos se pensava assim). Agora, revividos, repetem a dose. Gigantescos e praticamente impossíveis de matar, os dragões rapidamente se reproduziram pelo planeta, dominaram os céus e dizimaram quase todos os seres vivos. Os poucos homens que conseguiram escapar da fúria homicida vivem em pequenas colônias. A ação de “Reino de Fogo” concentra-se numa delas, estabelecida num castelo medieval no norte da Inglaterra e liderada pelo mesmo Quinn (Christian Bale) do começo do filme.

Quinn é um líder musculoso e decidido a esperar. Na teoria dele, dentro de mais alguns anos os dragões vão acabar morrendo de fome, por ficar sem alimento, e aí o planeta será herdado pelos homens que conseguirem se salvar. Em meio a tentativas de suprimir rebeliões internas, porém, aparece uma esperança insólita: o militar norte-americano Denton Van Zant (Matthew McConaughey), comandante de um tropa de elite, que aparece do nada no deserto inglês, dizendo que sabe caçar dragões e, melhor ainda, descobriu um meio de dizimar toda a espécie. Como exemplar tradicional de filme de estúdio, “Reino de Fogo” deixa antever a partir daqui o rumo que o desenvolvimento do roteiro tomará. Não que isso importe, claro. Afinal, no cinema comercial, é possível adivinhar o final em 90% dos filmes.

Fazendo jus ao passado de cineasta vindo a TV, Bowman esquece a preocupação com tudo que não seja concentrado em ação bruta. Por um lado, é uma decisão acertada: o roteiro torna-se econômico, repleto de frases curtas que parecem slogans publicitários, que em nível de entretenimento funcionam por serem eficientes, apesar dos furos de arromba no roteiro (não se perde tempo explicando, por exemplo, como seria possível para um dragão dormir durante séculos no centro da barulhenta Londres; espera-se que o espectador simplesmente aceite a idéia, sem questioná-la, atitude razoavelmente normal para as platéias atuais). Em compensação, o enredo acaba herdando outros problemas, a começar pela inexistente caracterização dos personagens: todas as falas parecem sair da boca de uma só pessoa.

Já o design dos dragões, que tomou nove meses de trabalho duro da equipe responsável pelos efeitos especiais, é um ponto forte do filme. Os bichos realmente são bem feitos e, ajudados pelo áudio violentamente alto, assustam mesmo. Nesse sentido, a caracterização da Terra do futuro como um planeta medieval, feito de cinzas e barro, está impecável. Há uma seqüência de caça a dragão, utilizando-se um helicóptero e homens de pára-quedas, ainda no primeiro terço de filme, que é sensacional.

“Reino de Fogo” escorrega mesmo é na misoginia grotesca, mais um problema trazido pelo roteiro. O texto parece ter sido escrito por um menino de 12 anos, do tipo que ainda odeia meninas e só quer saber de jogar bola. Christian Bale (um bom ator) e Matthew McConaughey, bombados, aparecem quase o tempo todo nus da cintura para cima e sujos de terra, numa estética quase pornográfica. A todo momento a gente espera que um deles tire as calças e balance aquilo para a platéia. A imagem, aliás, é de uma justiça poética incrível, pois é de um desses brucutus que se espera ter saído roteiro tão viril e tão pouco inteligente.

A única personagem feminina com falas, a piloto de helicóptero Alex, não tem um pingo de sensualidade, e é interpretada por uma masculinizada Izabella Scorupco. Fica evidente que a personagem foi talhada para protagonizar um romance com Quinn, mas a misoginia é tão forte que o cineasta não ousa mostrá-los em contato mais íntimo do que um aperto de mãos. Há até um evidente flerte homoerótico entre o protagonista e o garotão que ele prepara para ser seu sucessor. A verdade: “Reino de Fogo” é uma aventura eficiente, apesar de machista e levemente burra, mas os dragões (de longe o melhor personagem da película) e as boas cenas de ação salvam o filme.

O DVD brasileiro é interessante. Há trilhas de áudio Dolby Digital 5.1 (o som é ponto forte do filme) em inglês e português, imagens widescreen e extras legendados em português. Eles se distribuem em três seções: documentário de bastidores (17 minutos), featurette (melhor e mais denso, com 30 minutos) e conversa com o diretor (Bowman fala em entrevista editada, por 12 minutos).

– Reino de Fogo (Reign of Fire, EUA, 2002)
Direção: Rob Bowman
Elenco: Christian Bale, Matthew McConaughey, Izabella Scorupco, Gerard Butler
Duração: 108 minutos

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