Reino, O

19/03/2008 | Categoria: Críticas

Definição simplificada para o filme de Peter Berg: “C.S.I.” vai ao Oriente Médio e encontra “Syriana”

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“C.S.I.” vai ao Oriente Médio. A definição cabe como uma luva em “O Reino” (The Kingdom, EUA/Alemanha, 2007), filme de Peter Berg que realiza o equivalente cinematográfico a uma versão ampliada de episódio da famosa série de TV, adicionando ainda um cenário que agrega elementos de política internacional. Curiosamente, o roteiro de Matthew Michael Carnahan (“Leões e Cordeiros”) apresenta alto nível de cuidado na construção do pano de fundo político, que versa sobre a relação ambivalente entre Estados Unidos e Arábia Saudista. O acerto na visão macro, porém, se transforma em erro bisonho na escala íntima, já que a construção das relações entre personagens deixa no ar um indisfarçável cheiro colonialista, já que os profissionais norte-americanos sempre têm algo a ensinar – e os sauditas, a aprender.

“O Reino” faz parte da enxurrada de produções cinematográficas da safra 2007 que criticam a política internacional dos EUA para os países do Oriente Médio. É uma atitude louvável: pela primeira vez na história de Hollywood, os cineastas estão batendo forte em um conflito bélico ainda em andamento (a Guerra do Iraque). Longas-metragens como o citado “Leões e Cordeiros”, “No Vale das Sombras” (Paul Haggis) e “Redacted” (Brian De Palma) não hesitam em condenar as posições políticas assumidas pelo governo de George W. Bush, mostrando a invasão norte-americana ao Iraque como um erro estratégico e um crime humanitário. “O Reino” é a única de todas estas obras que reproduz, talvez inconscientemente, a relação de poder colonialista que se estabelece entre os personagens.

A história é bastante simples. Trata da viagem de uma equipe de peritos do FBI, liderada por Ronald Fleury (Jamie Foxx), para investigar um atentado de grandes proporções na Arábia Saudita – uma série de explosões que vitimou mais de 100 vítimas civis, a maioria funcionários americanos de uma refinaria de petróleo. Após chantagear sutilmente autoridades saudistas, o chefe da equipe ganha permissão para acompanhar as investigações no local durante cinco dias. Inicialmente recebidos com desconfiança, os agentes federais conquistam a simpatia dos saudistas provando que sabem investigar atentados melhor do que eles. Acabam, assim, assumindo os rumos da investigação.

A melhor parte do filme de Peter Berg está no segundo ato, que se concentra na investigação propriamente dita realizada no cenário do atentado. É o trecho “C.S.I” do longa-metragem, absolutamente melodramático (cada um dos agentes envolvidos nas buscas encontra uma pista importante, algo bastante inverossímil), mas ainda assim eficiente. Há, ainda, um prólogo editado como uma espécie de aula multimídia sobre as relações políticas complexas e ambivalentes, de amor e ódio, entre EUA e Arábia Saudista – o segmento poderia ser descrito como “Syriana” para adolescentes, mas é montado com ritmo ágil e criatividade visual. Já o terceiro e último ato se entrega aos clichês dos filmes de ação, com perseguições de carro, explosões e tiroteios em alta voltagem, e um epílogo amargo.

À parte a direção correta, o que se pode perceber claramente é que o painel ideológico do longa-metragem resulta inconsistente. Embora critique de forma clara e direta as posições políticas assumidas pelos Estados Unidos no Oriente Médio (esta crítica é especialmente evidente no personagem do assessor da embaixada americana na Arábia Saudista, um puxa-saco arrogante), o roteiro de Carnahan reproduz inconscientemente a relação colonialista de poder que se estabelece entre os personagens dos dois países, criando uma cascata de estereótipos – na tela, os norte-americanos funcionam como uma máquina bem azeitada de investigar, extremamente profissional, enquanto os sauditas são individualistas, indecisos (nos melhores casos) ou incompetentes (nos piores). Sem querer, o filme acaba mostrando como a manipulação inconsciente de estereótipos podem deixar vazar uma ideologia prepotente para dentro de produções de origem bem-intencionada.

O DVD da Universal não contém extras. A imagem é boa (widescreen anamórfica) e o áudio OK (Dolby Digital 5.1).

– O Reino (The Kingdom, EUA/Alemanha, 2007)
Direção: Peter Berg
Elenco: Jamie Foxx, Chris Cooper, Jennifer Garner, Jason Bateman
Duração: 110 minutos

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