Reino, O

21/11/2004 | Categoria: Críticas

Lars Von Trier põe estética crua e cruza com habiliddade humor negro e terror puro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Lars Von Trier é o cineasta da polêmica, da provocação. Pode-se amá-lo ou odiá-lo, e geralmente não há meio termo entre os cinéfilos a respeito da obra do cineasta dinamarquês, mas é pouco provável que a platéia fique indiferente ao talento de Von Trier. Quem acredita que o faro do diretor para mexer com os nervos só apareceu mesmo depois do lançamento do famoso manifesto Dogma, em Cannes 1995, não conhece o início da carreira dele. Um ano antes, trabalhando na TV dinamarquesa, Lars Von Trier traçava o esboço de sua estética crua e espontânea em uma minissérie que cruzava humor negro e terror sobrenatural. “O Reino” (Riget, Dinamarca, 1994) é altamente recomendado para fãs do cinema instigante, sempre no limite, que o polêmico cineasta pratica.

Para começar, “O Reino” põe pimenta na discussão que mobiliza os críticos brasileiros: onde termina a estética de televisão e começa a de cinema? Quais as diferenças e semelhanças entre os dois veículos de comunicação? A resposta a essa complexa questão, segundo os mandamentos de Lars Von Trier, parece ser um grande “f#@%$&”, algo como “ora, vão pensar em algo mais útil para discutir!”. “O Reino” é TV, foi feito para a mídia de massa, mas o sucesso o credenciou a ser exibido na tela grande, em festivais de cinema de arte espalhados pelo mundo. Assim foi feito. Sem que ninguém reclamasse limites entre as duas maneiras de exibir o mesmo produto. Limites, definitivamente, não são facilmente encontráveis na obra de Lars Von Trier.

A premissa de “O Reino” é puro horror B. Von Trier imagina que o maior hospital da Dinamarca, chamado na língua local de Riget (em inglês, “The Kingdom”, que dá na tradução literal do título em português), tenha sido erguido sobre um pântano usado como lavanderia e, depois, como cemitério. Uma tomada aérea do complexo hospitalar dá idéia do tamanho do lugar. Von Trier imagina, então, que não existe nenhum lugar mais propício para servir de morada de fantasmas e assombrações. Afinal, ali morre gente todos os dias. A idéia é tão simples e eficiente que o escritor norte-americano Stephen King a aproveitou para criar sua própria minissérie de TV, reformulando a criação de Lars Von Trier, em 2001.

Claro que um produto de Lars Von trier jamais seria algo tão simplista quanto assombrações passeando entre médicos e pacientes. A premissa é somente o ponto de partida para uma cacofonia insana de histórias pessoais, personagens excêntricos e tramas bizarras. A fauna humana do lugar poderia ter sido criada por David Lynch; aliás, a crítica costuma dizer que, se Lynch dirigisse episódios da série “Plantão Médico”, o resultado ficaria bem próximo de “O Reino”. É verdade. Há, no hospital, gente de todo tipo; a série se dedica a acompanhar episódios estranhos, inexplicáveis ou simplesmente absurdos que ocorrem dentro do lugar.

Médicos do hospital praticam um culto bizarro durante as madrugadas solitárias. Um residente arranca a cabeça de um cadáver para impressionar a colega de trabalho que acredita amar. Um médico ambicioso pensa em transplantar um tumor para dentro do próprio corpo. A mãe de um enfermeiro acredita que o fantasma de uma maneira habite o poço do elevador. Uma ambulância fantasma visita o estacionamento sem que os plantonistas consigam jamais ver quem dirige o tal carro. No meio de tudo isso, as agruras do cotidiano: os problemas financeiros do hospital, o sofrimento dos pacientes, o corre-corre dos médicos. Os guias do espectador por essa viagem exótica são, basicamente, dois personagens, que pode-se chamar de protagonistas: o neurocirurgião sueco mau-humorado, Helmer (Ernst-Hugo Järegård), e a paciente hipocondríaca que comanda sessões espíritas, Drusse (Kirsten Rolffes).

A estética de “O Reino” é barata e funciona bem. As seqüências são longas, com poucos cortes, e a câmera quase sempre fica na mão do cinegrafista, o que resulta em imagens toscas e tremidas. A luz utilizada é 100% natural, sem obedecer às regras normais de Hollywood; não há holofotes ou contra-luz, o que dá um curioso aspecto estourado, escuro, às imagens. O visual é tão radical que espectadores incautos podem achar que o DVD está com defeito. Mas o filme é isso mesmo, uma explosão amarelo-avermelhada na cara da platéia. Cores como azul e verde não têm vez no mundo alaranjado de Lars Von Trier. É amador, e funciona.

Para completar o pacote, o próprio diretor aparece, no final de cada episódio, vestido de smoking e grava borboleta, para tecer comentários a respeito do que o espectador acabou de ver e adiantar, em tom de provocação, o que virá nos episódios seguintes. “O Reino” é cinema radical, de vanguarda, nem um pouco parecido com o que você está acostumado a ver. Mas o roteiro costura com perícia as histórias e mexe mesmo com as emoções de quem assiste. Quando a cena é engraçada, provoca gargalhadas; quando quer meter medo, dá calafrios de verdade. E a galeria de personagens é fascinante.

“O Reino” foi exibido na Dinamarca em quatro episódios, em 1994. Fez tanto sucesso que Lars Von Trier remontou o programa em um longa-metragem de quatro horas e meia. Depois, reformulou tudo em cinco episódios de 55 minutos cada, totalizando 280 minutos, e lançou no mercado internacional. Essa terceira configuração é a que foi lançada em DVD nos Estados Unidos, com legendas em inglês, em disco duplo. Um documentário sobre a carreira do cineasta dinamarquês completa o disquinho. Fãs de Lars Von Trier não podem perder isso aqui.

– O Reino (Riget, Dinamarca, 1994)
Direção: Lars Von Trier e Morten Arnfred
Elenco: Ernst-Hugo Järegård, Kirsten Rolffes, Holger Juul Hansen
Duração: 280 minutos

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