Repulsa ao Sexo

31/01/2004 | Categoria: Críticas

Manicure catatônica fica trancada em apartamento minúsculo e escuro junto com a platéia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O legendário produtor Robert Evans (“O Poderoso Chefão”, “Love Story”) afirma, para quem quiser ouvir e sem o menor constrangimento, que o cineasta mais talentoso com quem já trabalhou é o polonês Roman Polanski. Nada mais justo para com um cineasta capaz de passear com desenvoltura por gêneros absurdamente distintos, como o policial noir (“Chinatown”), a comédia mórbida (“A Dança dos Vampiros”), o suspense sobrenatural (“O Bebê de Rosemary”) e outros tantos.

Um dos primeiros e mais celebrados filmes de Polanski, contudo, surge como obra tão árida e difícil de definir quanto premonitória (explico essa última palavra a seguir). Trata-se do alucinante “Repulsa ao Sexo” (Repulsion, Inglaterra, 1965), uma experiência estética originalíssima. Esse é um dos filmes mais claustrofóbicos, enervantes e bem construídos a que já tive chance de assistir.

O enredo é convenientemente simples, e nem importa muito. A manicure Carol Ledoux (Catherine Deneuve) vive com a irmã liberal, Hélène, (Yvonne Furneaux) num pequeno, escuro e bagunçado apartamento em Londres. A primeiríssima seqüência do longa-metragem já define o filme com perfeição e, melhor ainda, sem palavras (uma especialidade de Polanski): um close do olhão esbugalhado de Deneuve. Quando a câmera vai abrindo, descobrimos que a garota está em pleno trabalho. A conclusão é óbvia: tem algo de errado com essa moça. O filme, basicamente, se encarrega de mostrar o quanto.

Carol vive num estado quase catatônico, como se estivesse sonhando acordada. Logo vamos descobrir que essa descrição é quase literal. Quando a irmã viaja para uma temporada na Itália com o amante, Carol fica sozinha e seus evidentes sinais de desequilíbrio se aprofundam. Enfiado dentro do apartamento com a bela mulher, o espectador se torna voyeur de uma esquisita galeria de seqüências oníricas, que parecem saídas diretamente de um pesadelo. Isso inclui fortes imagens de sexo e morte.

Tudo em “Repulsa ao Sexo” tem algum significado, faz alguma contribuição ao estado de desconforto da platéia. A música minimalista e nervosa acentua o estado de nervos da protagonista. A edição faz com que várias cenas assustadoras (algumas delas envolvem um coelho) passem rapidamente, o que parece ser obviamente intencional. Além disso, a direção de arte deixa o apartamento mergulhado em trevas, e nas longas seqüências silenciosas (Carol praticamente não fala durante todo o filme) deixam o espectador sem ter certeza do que está vendo.

Para completar, como toque de mestre, Polanski filma em preto-e-branco, retirando todo e qualquer traço de glamour do apartamento de Carol. Dessa maneira, tudo no filme funciona no sentido de plantar dúvidas na mente do espectador: será que vi o que penso que vi? Será que essa cena está acontecendo de verdade ou não passa de imaginação de Carol? Estou dentro de uma mente perturbada ou o apartamento virou mesmo um chiqueiro, palco de atrocidades inomináveis? Essas são questões que Polanski admiravelmente se recusa a responder. E o final do longa-metragem é antológico.

Em resumo, o filme é desconfortável, lento e bastante violento – e é exatamente isso o que Polanski quis construir. Além disso, é premonitório porque se trata de uma das primeiras obras a enfocar um tema que viraria recorrente nos anos seguintes: a confusão entre sonho e realidade (de “Matrix” a “Vidas em Jogo”, uma porção considerável das películas atuais fala sobre isso). De alguma forma, “Repulsa ao Sexo” parece um antepassado excêntrico do excepcional “Spider – Desafie Sua Mente”, de David Cronenberg. E isso é uma ótima referência.

Vale lembrar que “Repulsa ao Sexo” está disponível no Brasil em um DVD paupérrimo lançado pela Cinemagia. As imagens estão em tela cheia (com cortes laterais) e bastante arranhadas. O som vem em Dolby Digital 2.0, repleto de chiados. Além disso, está com uma única opção de áudio em francês, algo esquisitíssimo, já que o som original está em inglês. Não há extras. Em se tratando de um filme tão bom e tão raro, contudo, talvez valha a pena dar uma conferida.

– Repulsa ao Sexo (Repulsion, Inglaterra, 1965)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Catherine Deneuve, Ian Hendry, John Fraser, Yvonne Furneaux
Duração: 104 minutos

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