Réquiem Para Um Sonho

28/08/2004 | Categoria: Críticas

Trabalho de Darren Aronofsky deixa espectador atordoado com cenas que ilustram poesia da degradação humana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um soco no queixo ou uma dose de heroína, você decide. A sensação atordoante que sobra depois de assistir a “Réquiem Para Um Sonho” é mais ou menos essa. O filme, uma produção independente que transformou o cineasta novato Darren Aronofsky numa estrela de Hollywood, ganha fácil o rótulo de um dos mais impactantes libelo anti-drogas já produzido no cinema. E isso, ironicamente, no ano dos entorpecentes em Hollywood — afinal, “Traffic” também chegou às telas em 2000. São dois filmes bem diversos, com a diferença de que a obra de Steven Soderbergh ganhou dois Oscar e foi reconhecida pelo establishment, enquanto “Réquiem”, talvez por causa da força bruta de suas imagens, acabou relegado às salas alternativas.

A solidão de casa, porém, até ajuda a dar o clima necessário para compreender todas as nuanças do trabalho. Para encarar o filme, prepare-se – você pode ir a nocaute. Aronofsky aposta num tom visceral e busca estabelecer uma empatia, sempre carregada de angústia, de uma sensação de estranhamento, com o espectador. Fazer essa ligação a partir da violência das imagens é uma aposta atrevida, mas que funciona muito bem. Quem vê a obra desce ao inferno do vício junto com os quatro protagonistas e termina com a sensação de que tomou uma overdose. “Réquiem Para Um Sonho” não é só um filme, é uma experiência sensorial completa.

Na verdade, é possível estabelecer um paralelo interessante, em termos estilísticos, entre o trabalho de Aronofsky e os filmes de David Fincher, o cineasta de “Clube da Luta”. Os dois fazem críticas à degradação social do homem contemporâneo com base em imagens fortes, sempre buscando atingir o espectador no estômago. Ambos trabalham com carga visual intensa, abusam de truques de metalinguagem (pesadelos, delírios esquizofrênicos) e valorizam muito a montagem – de imagem e sons – no processo de direção. “Réquiem Para Um Sonho” poderia muito bem ser assinado por Tyler Durden, o cruzamento de Mike Tyson com Jean Paul Sartre que protagoniza “Clube da Luta” (isso se Tyler Durden fosse um cineasta, e não um projecionista dedicado a inserir imagens pornográficas em desenhos animados).

A edição de “Réquiem” chama especialmente a atenção. O filme tem mais de duas mil tomadas, quando o normal de um filme de duas horas está na faixa de 600 a 700 cortes. Grande parte deles acontece nos momentos em que os três jovens do filme tomam drogas – a montagem delirante e hiper-acelerada traduz fielmente ao espectador a sensação física da viagem, a falta de chão e o sentido de irrealidade que dominam o drogado. Aronofsky abusa de recursos pouco tradicionais: divide a tela em duas, usa imagens granuladas de transmissões de TV. Tudo isso realça a sensação de incômodo que permeia os 102 minutos. A maravilhosa trilha sonora do Kronos Quartet, executada com violoncelos, enfatiza ainda mais a melancolia. Pura poesia da degradação humana.

O melhor de tudo é que, mesmo com toda essa carga estilística, Aronofsky fez um filme de atores. O quarteto protagonista oferece um conjunto de interpretações impressionante. O enredo gira em torno do garoto Harry Goldfarb (Jared Leto, que perdeu doze quilos para o papel e está também em “Clube da Luta”). Ele anda embarcando fundo na heroína, junto com a namorada Marion Silver (Jennifer Connely, numa atuação espetacular, que inclui até uma cena de sexo bizarro) e o amigo negro Tyrone Love (Marlon Wayans). Enquanto os três se afundam cada vez mais, a dona-de-casa Sara Goldfarb, mãe de Harry, começa a tomar pílulas de emagrecer, para realizar o sonho de ir ao programa favorito de TV num vestido vermelho que não lhe cabe mais. A veterana Ellen Burstyn dá um show à parte como a solitária Sara.

Numa leitura mais profunda, são os vícios, e não apenas as drogas, que Aronofsky quer denunciar. TV, pílulas, dinheiro, tudo pode virar um entorpecente, e as pessoas mais suscetíveis a embarcar nesse inferno são as solitárias. Aqui cabe outro paralelo com “Clube da Luta”: a crítica radical à solidão, ao egoísmo, ao narcisismo desenfreado da vida moderna. Sem rédeas auto-impostas, o cineasta acompanha com coragem a trajetória errática dos quatro e conduz o filme a um final assustador, mas alegórico e comovente. Para refletir e demorar a esquecer.

Em DVD nacional, o espectador vai encontrar o filme com imagens cortadas na lateral (o que é lamentável), o famigerado fullscreen, ou tela cheia. Para compensar, porém, o kit eletrônico de imprensa, com cenas de bastidores e algumas entrevistas curtas com o elenco principal e com o diretor, Darren Aronofsky, vem junto com o filme. Preste atenção aos elogios que a veterana Ellen Burstyn dedica ao novato.

– Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream, EUA, 2000)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Jared Leto, Jennifer Connelly, Ellen Burstyn, Marlon Wayans
Duração: 102 minutos

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