Resgate do Soldado Ryan, O

27/10/2004 | Categoria: Críticas

Filme tem abertura espantosa de puro terror e só peca pelos personagens rasos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Steven Spielberg sempre teve uma obsessão particular a respeito da II Guerra Mundial. Essa obsessão é algo relativamente simples de explicar, já que o cineasta é judeu e, além disso, possui um pai que lutou no conflito. A temática começou a entrar nos trabalhos que dirigiu de maneira indireta, com a comédia “1942 – Uma Guerra Muito Louco” e o drama infantil “Império do Sol”. Foi apenas nos anos 1990, porém, que Spielberg se sentiu seguro para abordar a II Guerra diretamente, de peito aberto. O diretor mais famoso do mundo começou a exorcizar seus demônios com o tocante “A Lista de Schindler”, em 1993. Cinco anos depois, soltou outra obra-prima sobre o conflito: “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, EUA, 1998).

A produção já era muito comentada antes mesmo de estrear. Afinal de contas, a incursão anterior de Spielberg já era amplamente percebida como o melhor filme do criador de “Tubarão”. Dessa vez, Spielberg enfoca o conflito mais letal do século XX de uma perspectiva bem diferente. No filme anterior ele postava-se, com um olhar documental, dentro da máquina de matar nazista, acompanhando um caso verídico, mas pouco conhecido. Dessa vez, Spielberg põe a câmera do outro lado da guerra, e acompanha um grupo de soldados norte-americanos em um dos episódios históricos mais famosos da batalha: o Dia D, como ficou conhecida a data em que as tropas aliadas desembarcaram nas praias da Normandia e iniciaram a invasão que iria, finalmente, derrotar a Alemanha.

A produção de “O Resgate do Soldado Ryan” foi cercada de cuidados técnicos para que o filme resultasse impecável. Primeiro, Spielberg cuidou de escalar um elenco de desconhecidos, liderados por um ator com reconhecida capacidade de mergulhar em personagens contidos. O escolhido foi Tom Hanks. O grupo passou semanas em treinamento militar verdadeiro. Enquanto isso, a produtora Kathleen Kennedy negociava a participação de soldados do Exército da Irlanda nas filmagens, e o diretor de fotografia Janusz Kaminski desenvolvia um método revolucionário de tratamento de cores para dar à película o tom documental que a narrativa de Spielberg pedia.

O resultado desse esforço foi um filme de impacto atordoante, graças a uma das seqüências de abertura mais intensas, violentas e chocantes que o cinema já viu. “O Resgate do Soldado Ryan” tem um pequeno prólogo, com um homem visitando o túmulo de um certo capitão John Miller, antes de atirar o espectador diretamente na batalha. Isso é literal: o espectador é brutalmente jogado no olho de um furacão, pois Spielberg filma a chegada na Normandia como um documentário, como se sua câmera fosse um dos soldados que descem dos barcos, entre os milhares de soldados aliados obrigados a desembarcar sem proteção na praia, sob o fogo cerrado dos alemães.

São, talvez, as cenas de guerra mais selvagens já mostradas em um filme de ficção. Toda a brutalidade e a insanidade da guerra estão lá; lama, água e sangue respingam na câmera sem cerimônia, enquanto algumas centenas de soldados são sacrificadas para que outro tanto consiga furar o fogo inimigo.

A abertura de “O Resgate do Soldado Ryan” é um prodígio técnico, uma verdadeira tour-de-force de maquiagem (preste atenção na tomada em que um dos soldados tenta, desesperadamente, impedir que suas vísceras sejam tragadas pelas ondas do mar), fotografia (perceba que a câmera está sempre à altura da cintura dos soldados, o que gera no espectador a sensação de que ele próprio é um soldado à espera de uma bala), som (os tiros pipocam de todos os lados da tela, e isso amplifica a sensação de estar no meio do conflito) e direção (Spielberg jamais perde o foco narrativo e mostra, lentamente, como o massacre inicial é lentamente transformado em vitória).

A técnica do filme é realmente espantosa. A fotografia de Kaminski, premiada justamente com o Oscar, mostra a guerra em um pálido tom de verde oliva, que só foi conseguido à custa de manipulação digital. O fotógrafo retirou 60% da cor em laboratório, o que dá às imagens um tom esmaecido, como se elas fossem velhas. Essa estética deixou uma marca tão profunda em Hollywood que os filmes de guerra vindos a seguir passaram, automaticamente, a ser filmados da mesma maneira (posições de câmera, uso de cores, direção de arte e figurino). “O Resgate do Soldado Ryan” virou um paradigma do longa-metragem que retrata conflitos bélicos.

Diante de uma abertura tão forte, a narrativa do restante do filme acaba soando gélida, simplista até. O filme é uma espécie de road movie de guerra. O protagonista é o capitão John Miller (Hanks), encarregado de liderar um grupo de soldados para uma arriscada posição atrás das linhas inimigas, a fim de resgatar um único soldado, James Ryan (Matt Damon). O recruta precisa ser encontrado vivo a todo custo, pois três irmãos dele já foram mortos na guerra, em um único dia. A jornada de Miller é repleta de encontros violentos, surpresas desagradáveis, desconforto e brigas internas. O filme termina em outra batalha de proporções épicas.

“O Resgate do Soldado Ryan” é um filme excepcional, cujo único pecado é ter uma narrativa que lembra demais a obra-prima “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola. No filme de 1979, um oficial (também um capitão) recebia a missão de encontrar um militar no coração do território em guerra, e o filme documentava essa jornada. A mesma história? Não; há diferenças de estilo e de objetivo entre os dois filmes. Coppola tem uma narrativa mais poética e metafórica; Spielberg é direto, cru, pouco sutil. Seus personagens são o ponto fraco de “O Resgate do Soldado Ryan”. Eles funcionam dentro da ação dramática narrada, mas não vão além dela. Não encontram o abismo interior, como o Kurtz de Coppola.

O DVD de “O Resgate do Soldado Ryan” é um excelente artigo para colecionadores, e um disco perfeito para testar o som digital de um home theater. Ele é duplo, e o segundo DVD possui um documentário com cerca de 30 minutos, que detalha um pouco das filmagens e explica os motivos de Spielberg para investir na história. O primeiro disco, porém, é que tem o filé: o filme com o corte original (imagen widescreen) e uma trilha de áudio em formato DTS, com o melhor som que a tecnologia atual permite. Mas preste atenção, pois a primeira tiragem do DVD no Brasil apareceu nas lojas sem essa opção de DTS.

– O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, EUA, 1998)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Tom Hanks, Matt Damon, Edward Burns, Vin Diesel
Duração: 170 minutos

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