Retorno do Rei, O (Edição Estendida)

31/10/2010 | Categoria: Críticas

Caixa de quatro disco contém filme com 50 minutos extras e quase oito horas de documentários

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Confiante após os onze Oscar recebidos em uma vitória esmagadora no maior prêmio do cinema, o diretor Peter Jackson voltou para a sala de edição com cartão verde para caprichar na versão longa do premiado “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” (Lord of the Ring: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003). O produto final excede todas as espectativas dos fãs mais radicais. Jackson incluiu nada menos do que 48 minutos de cenas novas, esticando o terceiro longa-metragem da trilogia para quatro horas e dez minutos de projeção.

Na falta de um clichê mais original, vai esse mesmo: o pacote com os quatro discos da edição estendida fecha com chave de ouro um dos projetos cinematográficos mais arrojados que Hollywood viveu em muito, muito tempo. Os americanos têm uma expressão para descrever produtos como a trilogia: “State of the Art”. Se os três filmes já haviam levado os efeitos especiais a um patamar totalmente inédito, entre 2001 e 2003, as três caixas que compõem o pacote completo de edições estendidas alcançam um nível de excelência que o mercado de DVDs ainda não conhecia.

Praticamente sob todo e qualquer aspecto que se olhe, a trilogia de DVDs é imbatível. As caixinhas (cujo design simula livros antigos com encadernação de couro) são belíssimas; há encartes didáticos para o espectador não se perder quando navegar pelos discos; as imagens dos filmes ganham transferências digitais impecáveis, de altíssima qualidade; as trilhas de áudio em formato DTS 5.1 fazem os efeitos sonoros pipocarem como trovões por todos os lados da sala; as cenas extras encaixadas dentro dos filmes transmformam a trilogia num todo ainda mais coeso e profundo; e a quantidade fenomenal de documentários obriga o fã a tomar um banho de imersão e ficar por dentro dos mínimos detalhes sobre os bastidores da empreitada gigantesca que foram as filmagens na Nova Zelândia.

Fãs radicais de “O Senhor dos Anéis” não podem perder a edição especial de “O Retorno do Rei”. O filme mais emocionante da trilogia só tem um pequeno defeito: o excessivo apego do cineasta à cria que marcará seu nome na história do cinema. Se em “As Duas Torres” Peter Jackson usou de bom senso para cortar cenas que julgou excessivas, em “O Retorno do Rei” ele passa a sensação de ter ficado com pena de usar a tesoura. Ao enfiar todas as seqüências que filmou, algumas dispensáveis, ele criou um monstro. Belíssimo, mas um monstro. São nada menos do que 14 cenas inteiramente novas, além de outras tantas aumentadas.

Desse total, somente quatro são realmente importantes. A primeira mostra o destino de Saruman (Christopher Lee), que é no filme bem diferente do que ocorreu no livro de J.R.R. Tolkien. A segunda, talvez a mais surpreendente, põe o mago Gandalf (Ian McKellen) em briga direta com o Rei Bruxo de Angmar, algo que não existe no livro. A terceira, também criada por Jackson, promove o encontro de Aragorn (Viggo Mortensen) e Sauron, que conversam através de pedras encantadas chamadas palantír. A última acontece à sombra do Portão Negro e traz um novo personagem à trilogia, o temido Boca de Sauron, comandante-em-chefe do Exército inimigo e porta-voz do Olho de Fogo. Sua aparição dá uma nova perspectiva ao ataque suicida empreendido por Aragorn e o resto da turma, na derradeira parte do longa-metragem.

De alguma forma, contudo, os enxertos foram tão fartos que acabaram por tornar o filme longo demais. Em uma projeção com mais de quatro horas, fica ainda mais evidente o quanto Peter Jackson relutou em encerrar o filme de uma vez, enchendo lingüiça por mais de meia hora antes de pôr os créditos para subir na tela. Esse é um pecado, no entanto, que os fãs de carteirinha vão perdoar com facilidade. E o público das edições especiais é formado justamente por esse pessoal. Não custa nada lembrar, mais uma vez: não compre a caixa quádrupla se você não for fã batizado da trilogia. Para espectadores normais, a versão que passou nos cinemas é perfeitamente suficiente.

Em termos de material extra, a caixinha possui nada menos do que 28 horas. Esse total inclui quatro comentários em áudio (elenco, roteiristas, técnicos em efeitos especiais e designers) com mais de 40 pessoas que trabalharam duro para fazer dos filmes o sucesso que eles foram – só os atores são 17! Tanta gente faz dos comentários um produto mais dinâmico e mais rico do que o habitual. Legendas em inglês acompanham tudo e ajudam o fã a entender o que está sendo dito.

Nos discos 3 e 4, o esquema segue o formato das duas edições especiais anteriores. O disco 3 contém seis documentários que enfocam a pré-produção, antes de as câmeras serem ligadas, com ênfase na cuidadosa construção do roteiro e no visual elaborado do filme. Já o disco 4 põe foco nas filmagens em si, presenteando o espectador com detalhes e curiosidades, distribuídos em sete documentários. Ao todo, featurettes e documentários somam oito horas de duração, duas galerias gigantescas com mais de 3 mil fotos e desenhos de produção (uma em cada disco), dois mapas interativos (um dos lugares na Nova Zelândia onde foram filmadas as cenas, outro mostrando a jornada dos heróis pela fictícia Terra-Média) e vários petiscos menores. Um deles mostra a cena em que Legolas derruba um olifante mostrada em vários estágios de construção digital.

Um extra particularmente interessante é um conceito abandonado, mostrado através de edição de storyboards, animatics e cenas sem efeitos especiais. Nele, Aragorn enfrenta Sauron, em pessoa, numa luta de espadas, em pleno Portão Negro. Todos sabem que Sauron jamais aparece fisicamente nos livros.Mas Peter Jackson explica, num dos documentários, que a decisão de respeitar o livro só foi tomada depois das filmagens terem sido completadas. Por isso, a figura de Sauron foi apagada do negativo e substituída digitalmente por um troll. Dá para imaginar a histeria dos fãs do livro se a cena original tivesse aparecido nos cinema.

A caixinha com quatro discos aportou no Brasil apenas em outubro de 2010, seis anos após o lançamento nos Estados Unidos.

– O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (Lord of the Ring: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003)
Direção: Peter Jackson
Elenco: Elijah Wood, Viggo Mortensen, Ian McKellen, Sean Astin
Duração: 250 minutos

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