Retratos de Família

26/07/2006 | Categoria: Críticas

Drama de Phil Morrison deixa espaço para que a platéia interprete uma reunião familiar do jeito que desejar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A esmagadora maioria dos filmes contemporâneos, especialmente os mais comerciais, que lotam os cinemas do Brasil, é construída a partir de um olhar ditatorial. O que isso significa? Que os cineastas dirigem os sentimentos do público, utilizando os componentes do filme – enquadramento, foco, movimento de câmera, música – para apontar aonde olhar, e o que sentir, a cada segundo de projeção. A lição de Hitchcock, maior mestre nesse tipo de cinema, foi devidamente aprendida. Quando todo mundo faz igual, porém, a exceção ganha destaque. Por isso, é revigorante quando, de tempos em tempos, surge um filme como “Retrato de Família” (Junebug, EUA, 2005).

A estréia em longa-metragem do diretor Phil Morrison é um filme etéreo, plácido e aconchegante. Apresenta um painel de personagens e deixa-os convivendo enquanto observa tudo sem se intrometer. Recusa-se a mostrar à platéia para onde olhar, como olhar, e o que sentir. Não tem um tema claramente delineado, e nem deseja ter. Em resumo, deixa bastante espaço para que a mente se perca em devaneios, para que o espectador fique mastigando aos poucos o que vai rolando na tela, de forma bem espontânea e nem um pouco forçada.

A bem da verdade, essas características não são completamente inexistentes na cinematografia mundial –a obra do iraniano Abbas Kiarostami e o pernambucano “Cinema, Aspirinas e Urubus” são bons exemplos de que um olhar mais livre e reflexivo ainda é possível – mas, dentro da cinematografia norte-americana, responsável por 90% da programação a que temos acesso, são quase impossíveis de encontrar. Daí a grata surpresa que é este pequeno panorama da vida em cidades pequenas. Sim, é um filme que se passa numa comunidade minúscula do interior dos Estados Unidos, mas poderia ser no Brasil ou em qualquer outro lugar. É um filme universal.

A história em si é muito simples, e parte de uma premissa amplamente comum: habitante de grande metrópole retorna à cidade natal por motivo de trabalho, reencontra família e amigos que não via há muitos anos. O sujeito é George (Alessandro Nivola), empresário de Chicago que perdeu quase completamente o contato com os pais (Scott Wilson e Célia Weston) e com o irmão Johnny (Bem McKenzie). Ele programa uma visita de alguns dias à família, num pequeno vilarejo na Carolina do Norte, por sugestão da esposa, Madeleine (Embeth Davidtz). Ela, um marchand de médio porte, precisa ir à cidade para contratar um promissor artista local (Frank Hoyt Taylor). Madeleine vê na viagem uma boa chance de conhecer os parentes de George, que não puderam ir ao casamento, seis meses antes.

O roteirista, Angus MacLachlan, gasta poucos minutos explicando esse cenário à platéia. Depois vai direto ao que interessa, que é o reencontro, e o choque de culturas que dele resulta. Na realidade, “Retrato de Família” pertence à tradição do filme indie norte-americano, que discute a instituição da família, mas o faz de modo bem particular. O tom não é de crítica mordaz (“Beleza Americana”, de Sam Mendes), alfinetada poética (“Magnólia”, de Paul Thomas Anderson) ou paulada explícita (“Felicidade”, de Todd Solondz). Phil Morrison, o diretor, apenas reúne os personagens e os deixa conviver. Há um carinho palpável por todos eles, pintados como seres humanos imperfeitos e repletos de idiossincrasias. Como todos nós.

Pegue Johnny, por exemplo. À primeira vista, parece um idiota preconceituoso. Está sempre sozinho, vendo TV, e fica desconfortável quando obrigado a ser interagir com qualquer um. Mal conversa com os pais, e trata muito mal a esposa Ashley (Amy Adams, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante). Em um filme normal, seria logo rotulado de caipira grosso. Mas olhe mais de perto. Veja especialmente a cena em que ele tenta desesperadamente achar um fita de vídeo para gravar um documentário sobre doninhas. Johnny sabe que Ashley adora doninhas. No processo de tentar fazer a gravação, ele acaba sendo, de novo, grosseiro com Amy. Mas aquela é a maneira dele – desajeitada, imperfeita – de dizer à esposa que a ama.

Agora tome o exemplo de George. Ele não é mais íntimo daquela comunidade, pois saiu dali há anos e adquiriu nova cultura. É um homem da cidade grande, com hábitos completamente diferentes. No entanto, ainda se sente em casa com aquelas pessoas. Isso fica claro na seqüência da reunião comunitária em que, solicitado a cantar um hino religioso (a maioria dos habitantes das pequenas cidades de interior nos EUA é formada por protestantes), não recusa; canta timidamente, mas com visível nostalgia e algum prazer, mesmo não sendo um homem religioso. Surpreende a esposa e toda a comunidade, que o havia recebido com desconfiança.

O filme não sublinha nada disso. Não tenta dar lição de moral e não julga nenhum dos personagens; apenas deixa o tempo correr, olhando sem interferir. O espectador precisa assistir às cenas e refletir sobre elas para chegar a conclusões como essas. Pode inclusive discordar das observações acima. “Retrato de Família” permite que cada um de nós, na platéia, projete nas cenas aquilo que acontece na vida. Permite que a gente faça associações livres com as experiências dos personagens e as nossas. Enfim, eu posso tirar conclusões diferentes de você, sem que um de nós esteja obrigatoriamente certo ou um errado. Essa característica é bem rara de ver num filme norte-americano.

Eu, por exemplo, lembrei de uma linda canção do Pearl Jam, “Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town”, e das visitas ocasionais que faço à cidade onde minha mãe nasceu, chamada Orobó. É um lugarzinho quente, minúsculo e pobre, que fica a uns 120 quilômetros do Recife, onde moro. O personagem de George me tocou especialmente pela associação que pude fazer entre a postura dele, diante dos antigos amigos de infância, e a minha, ante os moradores do lugar, gente que conheço há 30 e poucos anos, e na verdade nunca conheci. Esse é o tipo de experiência íntima que somente os melhores filmes te oferecem.

Para completar, “Retrato de Família” não sofre do mal da verborragia, que tanto acomete cineastas novatos egressos do cinema independente. O longa-metragem praticamente dispensa os diálogos explicativos. Quando conversam, os personagens dificilmente dizem aquilo que estão pensando (se é que qualquer um deles seria capaz de transformar em palavras a complexa gama de sensações que o filme abraça – poucos de nós conseguiriam). Preferem tergiversar, pegar atalhos, ou simplesmente não dizer nada. É um filme repleto de longos silêncios. A trilha sonora, que é esparsa e delicada, também ajuda a criar diversos momentos propícios à reflexão. Enfim, trata-se de um filme raro.

O DVD da LK-Tel é fraco. O enquadramento apresenta cortes laterais (fullscreen 4:3), e há trilha de áudio em apenas dois canais (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

- Retratos de Família (Junebug, EUA, 2005)
Direção: Phil Morrison
Elenco: Embeth Davidtz, Amy Adams, Alessandro Nivola, Ben McKenzie
Duração: 107 minutos

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2 comentários
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  1. Nossa, muito obrigado por ter escrito sobre esse filme. Maravilhosa essa crítica.

  2. Alguém o nome da música tema de George e Madeleine, o grupo é Yo la Tengo.

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