Retratos de Uma Obsessão

01/03/2004 | Categoria: Críticas

Thriller apresenta um estudo singular sobre a solidão e os jogos de aparência que ditam as regras de convívio social

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Se fosse possível reunir os álbuns de fotografias de família do mundo inteiro, daria para extrair deles uma único elemento em comum? Aparentemente não. São tantas culturas, tantas individualidades, tantas histórias de vida. Porém, se pensarmos como o laboratorista fotográfico Sy Parrish, o protagonista de “Retratos de uma Obsessão” (One Hour Photo, EUA, 2002) há, sim, uma característica presente em todos os álbuns de família: a felicidade. Ou pelo menos uma aparência de felicidade. Porque, segundo a teoria de Sy, só fotografamos momentos felizes. “Ninguém tira fotos de algo que quer esquecer”, diz.

Todo o enredo de “Retratos de uma Obsessão” está baseado nessa afirmação-chave, feita meio disciplicentemente pelo protagonista, no decorrer do filme. A estréia do diretor e roteirista Mark Romanek, bancada pela Fox Searchlights (o braço da toda-poderosa Fox destinado a financiar filmes menores e mais arrojados), compõe uma obra muito interessante. Trata-se de um filme um tanto fora de foco (sem trocadilhos) para os padrões da filmografia norte-americana atual. É um estudo singular sobre a solidão e os jogos de aparência que ditam as regras de convívio social nas grandes cidades do mundo.

Desde o princípio, o roteiro conduz o espectador a observar de perto o relacionamento todo especial que Parrish (Robin Williams, numa atuação excelente, bem mais contida do que o habitual) estabelece com a família Yorkin — o casal Nina (Connie Nielsen) e Will (Michael Vartan) e o filho Jakob (Dylan Smith). O problema é que esse relacionamento só é especial mesmo para Parrish, um homem solitário, sem amigos nem familiares. Os outros três nem parecem notá-lo. Semanalmente, deixam rolos de filme na loja em que ele trabalha, num pequeno shopping center, pegam as fotos uma hora depois e vão embora. O contato é pouco mais do que “boa tarde” e “obrigado”.

Parrish, porém, coleciona centenas de fotos da família. Viu o pequeno Jakob nascer, acompanhou seu crescimento, descobre o que ele ganhou em cada aniversário, sabe como e onde foram as férias e festas organizadas pela família, conhece cada cômodo da ampla casa do trio. Aos olhos de Sy, aquela é uma família perfeita. Nos devaneios mais íntimos, ele sempre se imagina como um tio querido, totalmente integrado à explosão de sorrisos e abraços que está acostumado a ver, nas fotos.

O grande trunfo de Romanek é exibir a família Yorkin para o espectador, na primeira hora de filme, exatamenta da mesma forma que Sy a vê. Enquanto isso, assistimos ao esforço algo patético do laboratorista para se aproximar dos Yorkin, enquanto exibe claros sinais de obsessão maníaco-compulsiva nas atitudes cotidianas. Sy é um homem muito solitário, sofre de uma solidão tão intensa que se tornou patológica. A descoberta do lado escuro da família Yorkin vai se tornar o gatilho emocional de um psicopata. Romaken prepara com cuidado o terreno para o que vem a seguir.

De repente, Sy descobre que as coisas, na família Yorkin, não são exatamente como ele imagina. Por baixo da aparente felicidade estampada nas fotos, existem solidão, tristeza, ressentimentos. Essa é uma descoberta perigosa para um maníaco-obsessivo. A partir daí – e ajudado pelo prólogo da obra, em que Sy já está preso e começa a narrar a história em flashback – o espectador acha que já sabe como o filme vai acabar. Na verdade, pensa que sabe. Porque o final, acredite, é surpreendente e original.

No final das contas, o que sobra de “Retratos de uma Obsessão” não é o thriller em si, muito competente e bem feito. O que fica na cabeça é mesmo a temática do jogo de aparências que configura as relações humanas na contemporaneidade. O álbum de fotografias sorridentes, se encarado como metáfora das máscaras sociais que adotamos do cotidiano, rende uma reflexão poderosa sobre o tema. De quebra, o filme realiza uma crônica interessante sobre os efeitos emocionais devastadores da solidão. 

O DVD nacional, da Warner, contém o filme com enquadramento original correto (widescreen ananórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Retratos de uma Obsessão (One Hour Photo, EUA, 2002)
Direção: Mark Romanek
Elenco: Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan, Dylan Smith
Duração: 98 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »