Revelações

13/06/2004 | Categoria: Críticas

Ótimo elenco encontra texto glacial e elegante, produzindo um filme maduro e mordaz

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um romance de um autor do quilate de Philip Roth transformado em filme é artigo raro nos dias de hoje. Esse é o tipo de fato que dá margem para reflexão. Num mundo em que películas adaptadas de romances de Stephen King são saldadas como peças de análise psicológica impecáveis, o que pode ser dito de obras refinadas como os de Roth, talvez o maior autor norte-americano vivo?

Assim, “Revelações” (The Human Stain, EUA, 2003) é o tipo de filme que deve ser encarado com reserva. Afinal, não é nada fácil transpor para as telas um romance complicado, cujos personagens não estão envolvidos em nenhuma ação física e, pior ainda, que salta entre passado e presente de forma aparentemente desconexa, sem sentido. Por outro lado, vários dos nomes envolvidos garantem qualidade. Olha só o elenco: Anthony Hopkins, Nicole Kidman, Gary Sinise e Ed Harris! Isso sem falar de Robert Benton, dono de três Oscar (dois de roteiro e um de direção, por “Kramer Vs. Kramer”) no currículo.

Com tudo isso em mente, ressalte-se o fracasso financeiro monumental do longa-metragem, que arrecadou míseros US$ 5 milhões nos EUA. A receptividade da crítica norte-americana também foi bastante gelada – o que, de certa forma, condiz com o filme, literal e figurativamente. Trata-se de um drama baseado geograficamente numa paisagem gelada, e que flagra a interação entre os personagens de forma glacial, madura.

Coleman Silk (Hopkins) é professor de Literatura numa universidade chique. Após um desentendimento bobo na sala de aula, ele é acusado de racismo e expulso da instituição. Para completar, o choque com a notícia mata a esposa dele com um enfarto. Em desgraça, Silk inicia uma amizade sincera com o romancista Nathan Zuckerman (Sinise). Logo depois, conhece a depressiva Faunia Farley (Kidman) e inicia um tórrido romance, para escândalo da cidade.

Ao mesmo tempo em que vemos a relação entre Silk e Farley se consolidar, aos trancos e barrancos, acompanhamos também longos flashes da juventude do professor. Assim, o espectador parece ter a impressão de que está vendo dois filmes aparentemente sem nenhuma relação. Isso contribui decisivamente para manter a platéia afastada do centro emocional do filme, que permanece impávido, à distância.

Se algo atrai desde o início é a elegância dos diálogos, a direção de arte madura, a fotografia correta. Tecnicamente, o filme é perfeito – e o respeito demonstrado para com o texto de Roth é impecável. Ao mesmo tempo, a transposição do livro para a tela encontra um obstáculo instransponível: embora tenha um narrador, Zuckerman, o longa “entra” na cabeça de vários persoagens durante a projeção. Essa é uma estratégia bastante problemática, capaz de entediar espectadores menos pacientes, que não compreendem os constantes saltos entre histórias que parecem são se cruzar.

De qualquer forma, a narrativa é coesa e fica bem distante do caótico “21 Gramas”. Robert Benton conduz o elenco com segurança e sem traços de exibicionismo, rumo a um final surpreendentemente sólido, em que as histórias do jovem boxeador e do decano professor Coleman Silk (que obviamente calham de ser a mesma pessoa) finalmente se encaixam, de maneira convincente e mordaz, sem ser cínica. Filmes assim, que lidam com sinceridade e delicadeza com temas como violência, traumas de infância e aparências sociais, são muito raros. Ainda que “Sobre Meninos e Lobos” tenha tratado do mesmo assunto com mais eficiência em 2003, “Revelações” merece ser visto com atenção.

– Revelações (The Human Stain, EUA, 2003)
Direção: Robert Benton
Elenco: Anthony Hopkins, Nicole Kidman, Gary Sinise, Ed Harris
Duração: 106 minutos

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