Ricky

21/07/2011 | Categoria: Críticas

Filme de François Ozon une cinema naturalista francês de cunho social ao gênero fantástico, num registro inclassificável e repleto de lirismo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

À primeira vista, o filme de François Ozon parece um exemplar típico do cinema naturalista francês contemporâneo. Em “Ricky” (França/Itália, 2009), de François Ozon, uma operária de classe média baixa (Alexandra Lamy) se vê às voltas com uma gravidez indesejada, fruto de um romance meio instável com um trabalhador espanhol (Sergi López). A moça mora num apartamento apertado, tem uma filha de mais velha de um casamento anterior, e a relação afetiva entre os dois colegas de fábrica não demora a sofrer com a situação. Drama social a respeito dos problemas de imigração em tempos de união européia? Estudo sobre a siutuação das mães solteiras nos tempos atuais? Registro cinematográfico que debate o tema dos afetos familiares? “Ricky” é tudo isso, e também uma espécie de fábula fantástica e lírica, que desnorteia e inquieta o espectador.

De certo modo, não é surpresa que um filme inclassificável como “Ricky” tenha a assinatura de François Ozon. Cineasta jovem (nasceu em 1967), inquieto e extremamente produtivo, ele tem na versatilidade um padrão recorrente dentro de uma das mais interessantes e frutíferas obras do cinema francês contemporâneo. Ozon é capaz de realizar com competência filmes tão díspares quanto “À Beira da Piscina” (2003), um thriller a la Agatha Christie realizado de um ponto de vista misteriosamente subjetivo, e “Amor em Cinco Tempos” (2004), crônica naturalista-poética do início, do meio e do fim de um casamento. Sobressai, em sua obra, um olhar sempre crítico, inquisidor, embriagado de uma vontade evidente de compreender as idiossincrasias de uma época em que nem sempre as pessoas se permitem entender coisa alguma – o que vale é sentir, sabe-se lá a que custo.

Esse mesmo olhar inquieto reaperece, soberano, em “Ricky”. O primeiro ato do filme, na verdade, é de uma normalidade que até mesmo surpreende os desavisados. Somos apresentados a Katie (Lamy), a operária, mulher absolutamente comum, dividida entre o ceticismo e o lisonjeiro quanto percebe os olhares de Paco (López), cujo personagem é desenhado com perfeita ambigüidade. Essa ambigüidade é crucial para plantar o primeiro ponto de interrogação (e de interesse) no espectador: que tipo de abalo afetivo esse homem será capaz de provocar na vida monótona de Katie e de sua filha, em particular depois que ambos descobrirem sobre a gravidez da operária?

No entanto, dando uma guinada radical no rumo da trama, Ozon opera uma virada sensacional nas espectativas da platéia ao deslocar o centro definidor dos rumos da trama não no nascimento do bebê em si ( o adorável Ricky do título), mas no desenvolvimento um tanto peculiar de habilidades físico-motoras extraordinárias, por parte do pequeno. Aí o filme alça vôo, descola (embora não completamente, pois afinal o debate sócio-cultural sobre imigrantes, família e gravidez certamente interessa ao diretor!) do rótulo de cinema naturalista e mergulha definitivamente no território do fantástico, mas sem deixar de lado as preocupações sociais. Estas, por sua vez, jamais se tornam centro nevrálgico do filme – a trama permanece firmemente no controle das ações do enredo –, mas são desenvolvidas inteligentemente às margens dele, num triunfo do diretor.

Embora tente unir gêneros e estilos de filme que muitas vezes atraem parcelas muito diferentes da platéia (o filme realista de cunho social e o filme fantástico de tom fabular), “Ricky” possui qualidades nas duas vertentes. De quebra, apresenta um epílogo emocionante, elevando talvez a personagem de Alexandra Lamy ao posto de uma das grandes mães do cinema contemporâneo, mas sem abandonar a chave fantástica e sem nunca cair na previsibilidade – esta, aliás, talvez seja uma das grandes forças do cinema de Ozon, sempre interessado em levar seu público aonde ele não espera chegar, o que é sem dúvida uma qualidade dos cineastas mais sensíveis.

– Ricky (França/Itália, 2009)
Direção: François Ozon
Elenco: Alexandra Lamy, Sergi López, Mélusine Mayance, Arthur Peyret
Duração: 90 minutos

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