Rififi

13/06/2005 | Categoria: Críticas

Avô dos filmes mostrando roubos impossíveis, clássico francês é verdadeira aula de montagem e narrativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A falta de memória da comunidade cinematográfica é um grande problema. Por alguma razão misteriosa, cinéfilos do mundo inteiro parecem desconhecer tudo o que foi produzido em celulóide antes dos anos 1960, especialmente se essas produções não têm o inglês como língua-mãe. Só isso pode explicar a avassaladora falta de referência ao clássico “Rififi” (Du Rififi Chez Les Hommes, França, 1955) quando críticos do mundo inteiro resenham obras como “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Soderbergh, ou “O Assalto”, de David Mamet. Até parece que o clássico incontestável do cineasta norte-americano expatriado Jules Dassin nunca existiu, o que é uma tremenda injustiça.

Devo dizer que me incluo no rol daqueles ignorantes que jamais haviam tido consciência da importância do noir de Dassin. Em grande parte por preconceito devido ao título, que infelizmente não envelheceu tão bem como o filme em si. “Rififi” era uma gíria dos anos 1950, na França, para confusão envolvendo luta corporal. O tempo encarregou de valorizar o sentido pejorativo da palavra e, em pleno século XXI, a menção de “Rififi” traz à mente um musical cheio de plumas e paetês. Nada poderia ser mais distante da realidade. O filme de Jules Dassin, avô dos filmes que mostram roubos impossíveis, é ágil, de admirável concisão estética, uma verdadeira aula de montagem e narrativa. François Truffaut, o magistral crítico/cineasta que não sabia mentir, chamou-o de “o melhor dos filmes noir”. Não se ganha um elogio desses por acaso.

A rigor, “Rififi” narra o engenhoso e imaginativo roubo de uma joalheria localizada numa das maiores avenidas de Paris. A peça central do longa-metragem é a seqüência do roubo, que é simplesmente sensacional: 32 minutos de imagens, sem música, sem diálogos e com uma edição soberba, que condensam a longa madrugada necessária para invadir o local, burlar o sofisticado sistema de alarme e arrombar o cofre de um dos lugares mais seguros da França. A cena, vista por estudiosos como exemplo de montagem e timing perfeito, é citada por Steven Soderbergh em “Onze Homens e Um Segredo” e foi tão bem elaborada que a polícia do México chegou a proibir a exibição do filme, em 1955, devido à onda de arrombamentos no país que utilizavam técnicas semelhantes. Isso é que é cinema-realidade!

A seqüência do roubo, evidentemente, é o recheio do sanduíche. A abertura trata de apresentar os personagens e mostrar a preparação meticulosa da quadrilha para o roubo. O chefe é o mafioso Tony (Jean Servais), recém-saído de uma temporada na prisão. Ele tem a ajuda de Mario (Robert Manuel) e Jo (Carl Möhner), comparsas dedicados que obedecem sem discutir às ordens do cérebro da quadrilha. O italiano Cesar (o próprio Dassin) completa o time, com o fino bigodinho e o terno de um bom vivant. Ele é o arrombador que usa sapatilhas de balé para não ser ouvido em pleno ato criminoso. Um personagem inesquecível.

Para fazer jus ao título, há muita confusão, especialmente após o roubo, quando os criminosos tentam escapar ao cerco policial e vender as jóias. Tony tem uma motivação pessoal para realizar o assalto, que é reconquistar (ou melhor, provar que é imbatível) a mulher amada, Mado (Marie Sabouret), que o largou para ficar com o dono de uma boate de prostituição local durante o período no xadrez. A gangue do rival também tem um bom motivo – além de se livrar das investidas policiais, o próprio produto do roubo – para investigar quem está por trás do assalto.

Nesse ponto, há influência evidente de outro clássico, o alemão “M – O Vampiro de Düsseldorf”, já que são os bandidos que mais se esforçam para capturar os criminosos, como acontecia no filme de Fritz Lang. Além disso, há uma seqüência envolvendo o seqüestro de uma criança que segura um balão, uma óbvia referência ao longa-metragem expressionista, que usara uma tomada idêntica – o balão flutuando sozinho sob um céu opressor – como metáfora para a atuação do criminoso.

Dassin fez sua obra-prima em um momento delicado da carreira. Norte-americano, ele foi obrigado a sair do país durante o período dos anos 1950, devido às denúncias de que era simpatizante do comunismo. Isso lhe atirou na lista negra de Hollywood e o fez ficar desempregado. Na França, com orçamento ridículo e elenco desconhecido, teve a idéia de adaptar o romance de Auguste Le Breton e ousou fazer um dos noir mais autênticos já filmados.

“Rififi” tem tudo o que um grande filme noir precisa ter: fotografia esplêndida com farto uso de contrastes entre preto e branco, mulheres fatais e homens vivendo no fio da navalha, desesperados, sem nada a perder. A edição magistral, os enquadramentos precisos e os diálogos econômicos são um bônus que o transformaram, de bom filme, em uma experiência cinematográfica inesquecível.

A mais caprichada edição de “Rififi”existente no mercado foi lançada no Exterior pela Criterion. O disco contém, além do filme remasterizado, uma longa (30 minutos) entrevista em vídeo com o diretor do filme, além de galerias de fotos e desenhos de produção. Esse material suplementar não está presente na edição brasileira, da Aurora DVD, embora o filme compareça com imagem restaurada no corte original (fullscreen, na proporção 4:3) e trilha de áudio em francês no formato Dolby Digital 1.0. Há ainda biografias e trechos de críticas em telas de texto.

– Rififi (Du Rififi Chez Les Hommes, França, 1955)
Direção: Jules Dassin
Elenco: Jean Servais, Carl Möhner, Robert Manuel, Jules Dassin
Duração: 118 minutos

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