Rio Vermelho

10/10/2007 | Categoria: Críticas

Howard Hawks é a habilidade de dar status de grande arte à prosaica imagem de vacas pastando

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Durante as filmagens de “A Última Seção de Cinema” (1971), o diretor e cinéfilo de carteirinha Peter Bogdanovich ganhou uma oportunidade ímpar de demonstrar seu amor pelo cinema. Numa das últimas cenas, os dois personagens principais vão à minúscula sala de projeção da cidade para ver a derradeira exibição de um longa antes de o lugar fechar as portas. Bogdanovich era um conhecido estudioso de cinema, tendo escrito livros sobre John Ford e Orson Welles. Mesmo assim, tendo que homenagear um único filme, não ficou ao lado de nenhum dos dois gigantes. Escolheu a célebre seqüência do estouro da boiada em “Rio Vermelho” (Red River, EUA, 1948).

Quando teve chance de explicar a escolha, Bogdanovich disse que havia pegado a cena porque ela encaixava com perfeição no contexto da história, que era um melancólico adeus a uma época que não voltaria mais. E foi além: para Bogdanovich, um filme como “Rio Vermelho” só mostra à platéia sua verdadeira grandiosidade quando exibido numa tela grande. Ele afirmou que o filme de Howard Hawks era uma daquelas raras obras de arte capazes de encapsular perfeitamente uma idéia que estava além de palavras – o espírito do que significa “ser americano”. Para Bogdanovich, só havia um diretor além de Howard Hawks (o colega John Ford) capaz de dar o status de grande arte à prosaica imagem de vacas pastando.

O comentário de Peter Bogdanovich encerra as duas maiores qualidades do longa-metragem, qualidades que o fizeram ser selecionado para integrar o restritíssimo acervo preservado pelo National Film Registry, do governo dos Estados Unidos. De fato, “Rio Vermelho” narra uma daquelas histórias que reúnem, de forma compacta, todos os elementos que compõem o mito do sonho americano. Há o grande personagem da história do país (o vaqueiro), realizando aquilo que todo norte-americano é doutrinado para fazer desde criança: erguer um império financeiro a partir de suor e trabalho duro. Tudo isso está amarrado em um conto rural que celebra a amizade masculina – grande tema dos filmes de Hawks – e possui farto recheio arquetípico, quase bíblico, com um sensacional acerto de contas entre pai e filho.

Todo o enredo gira em torno de Dunson (John Wayne) e Matthew (Montgomery Clift, estreando no cinema). O prólogo mostra o encontro dos dois, um vaqueiro veterano que tenta montar uma fazenda de gado no Texas e um órfão que conseguiu escapar do ataque letal de índios. Um deles tem uma vaca, o outro tem um boi. Após uma longa elipse, localizamos a dupla 14 anos depois. A partir do gado esquálido, os dois fizeram riqueza, mas o negócio está ameaçado por causa da Guerra Civil norte-americana. Para driblar o problema, Dunson precisa começar a vender carne no outro lado do país, onde a economia não está em ruínas. Isso significa abrir uma trilha em território selvagem, dominado por índios. A viagem, duríssima, vai ser de provação não apenas para o negócio, mas também para a amizade entre o jovem e o pai adotivo.

Para dotar a encenação de realismo, Hawks recusou filmagens em estúdio. Montou uma base móvel de filmagens no deserto do Texas e manteve a equipe por lá durante 85 dias. Graças a este procedimento, bem raro naqueles dias, ganhou a possibilidade de explorar, em longas tomadas panorâmicas, a extraordinária paisagem do local. Narrada com firmeza e fluidez, a história passa como um furacão. Além disso, John Wayne empresta o carisma imbatível a mais um personagem honesto e turrão, bem do jeito que gostava, e Clift demonstra ser bem mais do que um mero rosto bonito na constelação de astros de Hollywood. O final meio bobo e a notória falta de jeito de Hawks para personagens femininos são problemas menores, que não conseguem arranhar a qualidade dos diálogos. E a já citada cena do estouro da boiada não é só clássica, mas uma verdadeira lição de como driblar o imponderável (como filmar animais correndo, sem saber que direção eles tomarão?) com disciplina e graça.

O DVD brasileiro é da Playarte. O disco é simples, sem extras, e tem boa qualidade de imagem (tela cheia, formato original 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Rio Vermelho (Red River, EUA, 1948)
Direção: Howard Hawks
Elenco: John Wayne, Montgomery Clift, Walter Brennan, Joanne Dru
Duração: 133 minutos

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