Rios Vermelhos

27/09/2003 | Categoria: Críticas

Alpes franceses fornecem cenários deslumbrantes para thriller de trama intrincada e final decepcionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Filmes sobre serial killers são uma obsessão norte-americana. Isso não significa que assassinos em série não existam em outros lugares do mundo, claro, mas nos EUA o assunto chama tanto a atenção que esse tema é um dos favoritos em Hollywood. Dois dos melhores filmes da década passada, “Seven” e “O Silêncio dos Inocentes”, tratam da caçada a dois desses criminosos. Por isso, é curioso que o primeiro bom filme sobre serial killers da nova década tenha nascido na França.

“Rios Vermelhos” tem poucos defeitos, e um deles é justamente não ser americano. A obra foi feita deliberadamente para atingir o mercado internacional e, embora tenha feito enorme sucesso na terra natal, passou em branco no resto do planeta. No Brasil, por exemplo, demorou meses para chegar e sumiu dos cinemas daqui rapidamente. Pior para quem perdeu: “Rios Vermelhos” reúne algumas das cenas mais perturbadoras dos últimos anos e pode ser considerado um legítimo sucessor de “Seven”, embora não chegue ao mesmo nível. O lançamento em DVD dá uma chance aos amantes dos bons policiais de se redimirem do pecado de ter perdido a obra no cinema.

Para começar, se bem analisados, os nomes por trás da produção já garantem a qualidade da projeção. A direção é de de Mathieu Kassovitz, premiado em Cannes e conhecido pelo drama sufocante “O Ódio”. O roteiro foi redigido por ele e pelo escritor Jean-Christophe Grangé, autor do excelente livro homônimo (publicado no Brasil dentro da Coleção Negra, da Editora Record). E o protagonista é Jean Reno ( “O Profissional”), reconhecidamente bom ator e grande astro na França.

Na trama, Reno faz Pierre Neumans, um detetive sorumbático e solitário, verdadeira lenda entre os tiras locais. Ele é destacado para investigar um crime na gelada cidade universitária de Guernon, uma comunidade fechada ao pé das montanhas alpinas, onde os filhos dos professores normalmente casam entre si. Enquanto isso, a 40 quilômetros de distância, o jovem e impetuoso Max Kerkerian (Vincent Cassel, ótimo) investiga um estranho caso de profanação do túmulo de uma criança morta há 20 anos. Eles ainda não sabem, mas as investigações vão se cruzar alguns dias depois.

A abertura da obra já confirma o acerto: uma série de closes fechados de vermes passeando num cadáver em decomposição, numa cena capaz de causar náuseas numa estátua. A partir daí, a primeira hora de projeção vai seguir os dois detetives em suas investigações paralelas. Até o momento do primeiro encontro entre ambos, numa cena muito divertida, o filme vai muito bem: a atmosfera sombria e a trama intrincada capturam a atenção do espectador com um vigor que não se via há tempos. Os cenários majestosamente sinistros dos Alpes franceses conferem a sensação de isolamento necessária para dar credibilidade à história, e a direção classuda monta um quebra-cabeças que parece impenetrável até mesmo ao mais atento dos espectadores.

Infelizmente, nem tudo é perfeito, e o mais grave defeito de “Rios Vermelhos” está na meia hora final. A investigação afunila rapidamente, após uma cena que homenageia de forma sincera as duas obras-primas que influenciaram o thriller (a referência a “O Silêncio dos Inocentes” está no cenário do crime, enquanto o surgimento repentino do assassino remete a “Seven”). É quando o diretor tenta resolver um caleidoscópio de enigmas rapidamente na base da ação initerrupta, o que macula o enredo e torna a trama confusa e inverossímil.

O final, que traz uma reviravolta-clichê, termina por desperdiçar uma bela locação e diminuir um pouco o impacto de uma produção que conquistou mais de três milhões de franceses. Mesmo assim, há muitos méritos nesse bom exemplar de suspense europeu. Quem tem DVD ainda pode conferir uma faixa de comentário com o diretor e os dois protagonistas, além de quatro ótimos documentários de bastidores com 89 minutos de entrevistas, cenas cortadas e bastidores.

– Rios Vermelhos (Les Rivieres Pourpres, França, 2001)
Direção: Mathieu Kassovitz
Elenco: Jean Reno, Vincent Cassel, Dominique Sanda
Duração: 105 minutos

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