Robôs

19/09/2005 | Categoria: Críticas

Animadores constróem mundo de robôs deslumbrante, mas contam história fraca

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma insólita mistura do clássico “O Mágico de Oz” com a ficção científica “A.I. – Inteligência Artificial”, e visual inspirado naquelas pastilhas coloridas de chocolate estilo M&Ms. Essa é a descrição mais aproximada para explicar o que é “Robôs” (Robots, EUA, 2004), o interessante longa-metragem do estúdio novaiorquino Blue Sky. A película comprova que a Blue Sky já tem condições de ombrear, em termos de qualidade, com os dois mais fortes concorrentes no setor, a Pixar (“Procurando Nemo”) e a PDI (“Shrek”). De quebra, confirma a boa fase por que passam as animações nos Estados Unidos, com grandes bilheterias (“Robôs” estreou em primeiro lugar) e críticas positivas.

Para os brasileiros, há ainda uma razão especial para conferir “Robôs”. É que o carioca Carlos Saldanha, segundo nome em importância da equipe do Blue Sky, co-dirige a animação. Saldanha já esteve entre os candidatos ao Oscar de melhor animação em 2003, pelo divertido “A Era do Gelo”, que também fez ao lado do norte-americano Chris Wedge. Sozinho na direção da seqüência da animação ambientada na pré-história, Carlos Saldanha já é um dos mais respeitados animadores do mundo, e o trabalho coordenado por ele em “Robôs” – ele é o homem responsável pela qualidade da animação – o coloca em um patamar de excelência alcançado por poucos profissionais do setor.

A animação de “Robôs” é o maior destaque do longa-metragem. Optando por utilizar uma paleta de cores básicas de aspecto lavado, meio gasto, apesar de multicolorido, Carlos Saldanha e o escritor/desenhista de produção William Joyce souberam criar um mundo inteiramente fictício habitados por robôs com hábitos humanos: eles freqüentam lanchonetes, comem, têm bebês e soltam gases. Todos os seres têm aspectos particulares e são muito bem trabalhados visualmente.

A divisão social é traduzida visualmente de maneira impecável. Os mais pobres, que vivem no nível da rua, possuem arranhões na lataria, pedaços de ferrugem, largos amassões, articulações gastas cobertas por massa, parafusos soltos e todo o tipo de lixo mecânico, bem à semelhança dos seres vistos da “feira de usados” de “A.I.”. Já a parte reluzente da sociedade dos robôs, por outro lado, é feita de aço cromado reluzente, com peças brilhando de novas que são sempre trocadas, e linhas elegantes. Elas moram em prédios luxuosos e inacessíveis. As duas fatias da sociedade quase não se cruzam.

É aí, na alta sociedade dos robôs, que o trabalho da equipe de Carlos Saldanha fica mais evidente. Utilizando um programa confeccionado especialmente para o filme, Saldanha criou uma iluminação absolutamente perfeita, fascinante, de modo a utilizar, e não evitar, as superfícies espelhadas. Como quase 100% dos cenários, figurinos e personagens são de metal, e portante possuem reflexos, a animação de aproveita disso para utilizar diversas fontes de luz dentro de um mesmo plano. Isso é inédito. A animação, de tirar o fôlego, emula à perfeição o comportamento da luz em um ambiente real. Trabalhar com luz, em animação, é uma das tarefas mais complicadas, e “Robôs” é o longa-metragem que conseguiu fazê-lo com maior nível de detalhes até 2005. Isso não é pouca coisa.

Apesar dessa simulação quase perfeita da realidade, os animadores do Blue Sky ainda tiveram o bom senso de não tentar criar um mundo robótico inteiramente verossímil, pois se fosse assim, esse mundo pouco teria de semelhança com uma sociedade humana. Em uma hipotética sociedade de andróides, os seres jamais tomariam óleo quente em xícaras, como se fosse café, e não haveria espaço para um lavador de pratos. Além disso, não se trata apenas de comportamento. Características físicas dos humanos são reproduzidas nos robôs, que quase sempre andam em cima de duas pernas, possuem olhos, narizes e até gênero (alguns são homens, outros mulheres) e idade (há desde bebês até velhotes).

O modo como o sexo é tratado, em “Robôs”, demonstra como os criadores do filme tinham perfeita consciência do que estavam fazendo. A seqüência de abertura, uma das mais criativas de toda a película, é um ótimo exemplo. Ela ilustra o nascimento do bebê-robô Rodney Lataria, filho de uma dona-de-casa com um lavador de pratos. Ele não nasce no sentido humano, é claro; chega pelo Correio em uma grande caixa. O “trabalho de parto”, que é a montagem das peças, dura doze horas e deixa os pais exaustos. No final, sobra um parafuso. É uma piada, uma das melhores do filme.

Da mesma forma, há uma personagem feminina, a asquerosa Madame Junta, que é dublada (no original) por um homem, o ótimo ator Jim Broadbent. Por que? Ora, porque homens e mulheres, na sociedade dos robôs, não têm funções sexuais, mas apenas estéticas. E a estética masculina cai melhor no papel de vilão.

O diretor Chris Wedge e o ilustrador William Joyce dizem que gostariam de criar um mundo inédito, artificial, para “Robôs”. Essa tarefa foi desempenhada muito bem. O universo do filme é uma simulação quase perfeita de uma sociedade humana. Lembra, do ponto de vista social, o mundo futurista-retrô de “Blade Runner”, um mundo colorido, em que os ricos vivem em arranha-céus quase à altura das nuvens, e os pobres se amontoam à altura do chão, em ambientes escuros e decadentes. “Robôs” possui até mesmo sua própria versão do inferno, um gigantesco ferro-velho, comandado pela já citada Madame Junta.

Construído o universo artificial, faltava criar uma história que pudesse dar sentido a esse mundo. E esse é o ponto fraco de “Robôs”: o enredo é fraco, previsível, esquemático demais. Rodney é uma criança inteligente que vira um jovem inventor sem recursos. Ele assiste a um programa na TV que o ensina a ter admiração por um mítico inventor, o Grande Soldador, um robô redondo de aço cromado que vive na capital, Robópolis. Quando completa a maioridade, Rodney, que vive em um subúrbio, vai para a cidade grande, na esperança de conseguir um encontro com o ídolo e ser contratado pela gigantesca empresa construtora de robôs que ele dirige.

Lá, porém, fica sabendo que o Grande Soldador não é visto em público há muito tempo (assim como um certo mágico que vivia numa cidade de esmeralda chamada Oz). Rodney acaba se juntando a um grupo de robôs-mendigos, que vive na rua e luta para escapar do ferro-velho, conhecido como os Enferrujados. Enquanto isso, o novo executivo da fábrica de inventos, Dom Aço, bola um plano para obrigar os robôs a gastar mais dinheiro fazendo upgrades completos e parando de vender peças avulsas. O plano condena à “morte” todo o enorme grupo de robôs esfarrapados que vive à margem do sistema. E Rodney pode ser o pai da reação.

A trama, não se engane, é simplista ao extremo. Não há, em “Robôs”, as sutilezas narrativas de “Os Incríveis”, que fazem o filme da Pixar ser acessível e atraente para idades mais avançadas. Existem poucas referências a outros filmes, como em “Shrek”, o que ajudaria o público adulto a entrar no clima (o Homem de Lata de “O Mágico de Oz” aparece duas vezes, há uma brincadeira com Darth Vader, mas não vai mais longe do que isso). Existe uma grande quantidade de cenas de ação, das quais a melhor ocorre logo no princípio, uma viagem alucinada pelo “parque de diversões” quando Rodney chega a Robópolis. Essas seqüências são interligadas por números musicais inteligentes, mas em número tão excessivo que acabam cansando. Elas cobrem uma grande extensão de estilos musicais, de Britney Spears a Tom Waits, quase sempre em seqüência cômicas.

Tudo isso funciona a favor – ou contra, dependendo do ponto de vista – de uma trama rasa, sobre sacrifício e redenção. O subtexto insosso explora o já batido clichê que funciona como moto-contínuo do sistema capitalista nos EUA: qualquer pessoa pode ter a chance de subir na vida e ser alguém, basta ser honesto e perseverante. É interessante notar que, no final, a divisão social entre robôs ricos e pobres continua a mesma, e apenas um ou outro personagem muda de condição financeira. Talvez seja um aviso à platéia: sim, há espaço para ascender. Mas esse benefício não pode atingir a todos.

No Brasil, “Robôs” possui uma desvantagem a mais, que é a dublagem em português. Reynaldo Gianecchini (Rodney) e a VJ Marina Person, no papel de Cappy (executiva da fábrica de robôs e interesse romântico do protagonista) não fazem um bom trabalho. Ela, principalmente, quase não possui inflexão na voz, o que prejudica bastante a compreensão das dúvidas e motivações da personagem. Nesse sentido, embora sejam desconhecidos da platéia, os dubladores profissionais que falam em “Os Incríveis” ou “Procurando Nemo” são bem mais expressivos.

O DVD do filme, lançado pela Fox, é duplo e carregado de extras, como convém a uma animação. No disco 1, o filme (widescreen 1.85:1) tem trilhas em português e inglês (Dolby Digital 5.1). Dois comentários em áudio (um com Chris Wedge e William Joyce, outro com sete animadores do estúdio) fecham o disco. O segundo CD tem um curta inédito (5 minutos), cenas deletadas (8 minutos), dois documentários (24 minutos), perfis interativos de onze personagens, três jogos e algumas surpresinhas extras.

– Robôs (Robots, EUA, 2005)
Direção: Chris Wedge e Carlos Saldanha
Animação
Duração: 90 minutos

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