Rock’n’Rolla

26/02/2009 | Categoria: Críticas

Após seguidos fracassos, Guy Ritchie tenta recuperar terreno perdido decalcando o enredo e o estilo dos dois primeiros filmes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Antes de ficar famoso por casar com a cantora Madonna, o cineasta inglês Guy Ritchie era reconhecido como um promissor aprendiz de Quentin Tarantino, com dois bons títulos no currículo. Ritchie tinha talento óbvio para criar enredos pop ambientados no submundo criminal de Londres e encharcados de violência bem-humorada. O casamento de uma década com a diva da música pop, porém, não lhe fez nada bem, pelo menos no aspecto profissional. Dali em diante, Ritchie experimentou um tombo feio atrás do outro, a ponto de ter quase sido obrigado a decretar aposentadoria precoce. Em “Rock’n’Rolla – A Grande Roubada” (Reino Unido, 2008), o inglês tenta recuperar o terreno perdido. E faz isso criando uma nova variação da mesma trama criminal-engraçadinha que fez e refez, nos dois primeiros filmes da carreira.

O título original do longa-metragem não tem a conotação sexualmente vulgar que ganha em português. Na verdade, trata-se apenas da forma coloquial para a expressão “rock’n’roller”, da maneira que é falada com o forte sotaque do bairro suburbano de East End, em Londres, onde a trama ganha vida. O significado da expressão é o estilo de vida despojado de quem vive na balada, sem se preocupar com nada além da próxima festa. É o estilo de vida que todos os (muitos) personagens de “Rock’n’Rolla” gostariam de adotar. Para isso, porém, eles precisam de grana. Muita grana. É o dinheiro, na verdade, que movimenta toda a intrincada ação dramática vista no filme, cujo roteiro também leva a assinatura de Guy Ritchie.

A grande quantidade de personagens e tramas paralelas é uma das características mais importantes de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998) e “Snatch” (2000). Outro recurso narrativo que Ritchie repete sem nenhuma cerimônia é o uso de McGuffins (objetos que têm muita importância dentro do mundo ficcional em que a história se passa, mas nada significam para o espectador) perseguidos por todos os personagens. No primeiro filme, eram dois rifles antigos; no segundo, uma coleção de diamantes. “Rock’n’Rolla” tem dois McGuffins: uma pintura que nunca é mostrada de frente, e uma sacola contendo a bolada milionária de US$ 7 milhões. Via de regra, duas dúzias de personagens correm atrás de um desses dois objetos, ou de ambos. O trabalho de Guy Ritchie consiste basicamente em administrar a correria dessa turma, de um lado para outro de Londres, e amarrar tudo em uma trama minimamente inteligível.

A galeria de personagens é liderada por Lenny (Tom Wilkinson), gângster poderoso que chefia um esquema de suborno para permitir construções em áreas proibidas. Ele fecha parceria com um mafioso russo (Karel Roden), personagem claramente inspirado em magnatas como Boris Berezovski, que usam clubes de futebol ingleses para lavar dinheiro ilegal nas barbas das autoridades (o “contrato” entre ambos é fechado num estádio vazio). Como garantia do negócio, leva para casa um quadro do colega, que desaparece no dia seguinte. Membros das duas quadrilhas passam a varrer Londres em busca da pintura, bem como da sacola com os US$ 7 milhões pertencentes ao russo, também roubada. Uma contadora gostosa (Thandie Newton) e um roqueiro drogado supostamente defunto (Toby Kebbell) também integram a inusitada fauna criminosa que freqüenta bares e boates londrinos.

Embora saiba imprimir ritmo intensamente acelerado ao material filmado, Guy Ritchie deixa evidente que é um cineasta de uma fórmula só, o equivalente cinematográfico de um disco dos Ramones ou de uma dona-de-casa que faz uma feijoada deliciosa, mas não consegue acertar nenhuma outra receita. Tecnicamente, Ritchie sabe o que faz. Ele dosa bem o humor pop com a violência caricata, abusa dos cortes rápidos e das ações curtas montadas em paralelo, e criva toda a trama com canções que traduzem no espaço sonoro do filme tanto o ritmo intenso quanto o estilo de vida perseguido pelos personagens. O ritmo é tão veloz, e há tantos personagens, que o espectador nunca compreende completamente o que se passa na tela. Por isso, relaxe. É intencional.

Por outro lado, observadores atentos irão notar que “Rock’n’rolla” não passa de uma versão atualizada de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (aliás, “Snatch” também já era uma cópia mal-disfarçada daquele filme). A narrativa apenas substitui os nomes dos personagens e troca os rifles raros da produção de 1998 pela pintura do mafioso russo. Os personagens também incluem, como no primeiro filme, gângsteres de diversos escalões (e o roteiro também mostra mais simpatia para com aqueles mais engraçados e menos ricos) e algumas figuras exóticas, aqui na pele do roqueiro muito doido e do motorista bandido com desejos homossexuais. Já a trilha musical dispensa orquestrações e se concentra em canções pop musculosas de bandas como The Hives. Ou seja, por baixo das caras novas, a mesmíssima estrutura narrativa.

Como se não bastasse a falta de originalidade, a obsessão de Guy Ritchie com “Pulp Fiction” continua a todo vapor, e não apenas no conceito de violência engraçada, utilizada durante cada um dos 114 minutos de projeção. Preste atenção, por exemplo, na seqüência de sedução entre a contadora e o assaltante bacana (Gerard Butler), que está no meio do filme. A cena de dança, que tem grande parte filmada em um plano único, com a câmera situada a média distância, inclui uma série de motivos gráficos semelhantes a balões com palavras, como a narração extra-campo de uma revista em quadrinhos. Tarantino já havia utilizado as duas coisas – a dança sensual e os grafismos metalingüísticos – na obra de 1994, só que com muito mais discrição e elegância. Ademais, de lá para cá, o cineasta norte-americano já percorreu um longo caminho de amadurecimento, algo que faz muita falta a Guy Ritchie.

O DVD da Warner é simples, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico), tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) e três extras dignos de nota: comentário em áudio com Ritchie e o ator Mark Strong, uma cena cortada e um featurette sobre a visão que o diretor tem sobre Londres.

– Rock’n’Rolla – A Grande Roubada (Reino Unido, 2008)
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Tom Wilkinson, Thandie Newton, Gerard Butler, Mark Strong
Duração: 114 minutos

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