Roda da Fortuna, A

12/02/2006 | Categoria: Críticas

Irmãos Coen homenageiam as “screwball comedies” com história deliciosa sobre redenção pessoal

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Boa parte da carreira dos irmãos Joel e Ethan Coen tem sido dedicada a reformular os gêneros mais populares da era de ouro de Hollywood (anos 1930/40/50). Se em “Gosto de Sangue” (1984) e “O Homem que Não Estava Lá” (2001) a dupla reinventou e ao mesmo tempo subverteu as regras do filme noir, o excelente “A Roda da Fortuna” (The Hudsucker Proxy, EUA/Alemanha/Inglaterra, 1994) fez o mesmo com as chamadas “screwball comedies”, nome dado às comédias alto astral que fizeram de Frank Capra o diretor mais adorado pelas famílias norte-americanas do período.

A abertura do longa-metragem deixa isso evidente ao render uma homenagem explícita ao mais famoso clássico de Capra, “A Felicidade Não se Compra” (1946). O filme começa a poucos segundos do Ano Novo de 1940, no último andar do prédio da megacorporação Hudsucker Proxy. Encarapitado na sacada do edifício e envolvido por flocos de neve que caem do céu como estrelas cadentes, o executivo Norville Barnes (Tim Robbins, muito bom) se prepara para cometer suicídio. Uma narração em off providenciada por um personagem de identidade não revelada – o filme só esclarece isso no final, quando mergulha de vez na sátira – decide retornar para exatamente um ano antes e contar a história extraordinária de como Barnes passou, em apenas doze meses, de caipira desempregado a presidente da empresa.

Através de uma narrativa ágil e repleta de bom-humor, o narrador coloca a platéia em posição de onisciência; sabemos detalhes da história que Barnes nem desconfia. Sabemos, por exemplo, que ele não foi escolhido para presidir as indústrias Hudsucker, logo no primeiro dia de trabalho (como carteiro) dentro da empresa, porque o vice Sidney Mussburger (Paul Newman, excelente como um fanfarrão egoísta que está sempre mastigando um charuto) foi visionário e enxergou nele qualidades de líder nato. A verdade é que Barnes é apenas um peão dentro de um complicado jogo promovido pelos diretores para adquirir o controle acionário da companhia a preço de banana.

Como de hábito, os irmãos Coen (que escrevem, dirigem e produzem em conjunto, apesar de assinarem apenas o roteiro coletivamente) desenvolvem uma galeria impagável de personagens, incluindo a repórter Amy Archer (Jennifer Jason Leigh), uma ambiciosa e amoral garota que não tem vida pessoal e vive em função do próximo furo. Jason Leigh é responsável por alguns dos momentos mais engraçados do longa-metragem, incorporando o estilo “metralhadora verbal” da personagem principal de “Jejum de Amor” (1940), outra comédia familiar de grande sucesso, esta dirigida por Howard Hawks.

Se os personagens são sensacionais, o que dizer dos nomes e sobrenomes escolhidos para eles pelos Coen? A simples menção desses nomes – Sidney Mussburger, Waring Hudsucker, Manhattan Argus, Zebulon Cardoza – já é motivo de gargalhada. Além disso, mesmo com orçamento apertado, o time de responsáveis pelo visual do filme dá um show à parte, recriando a virada dos anos 1930 com perfeição (dos cortes de cabelo aos figurinos, tudo recende um charme delicioso). Não é um visual inteiramente realista, no entanto; possui um toque onírico, absurdo e nostálgico ao mesmo tempo, que confere humor e agilidade à narrativa. O melhor exemplo disso, em termos de cenário, é o relógio da torre Hudsucker, que possui um andar inteiro dedicado ao complicado mecanismo e tem papel importante no desenrolar dos acontecimentos.

A partir da chegada de Barnes à Presidência da firma, “A Roda da Fortuna” segue uma narrativa típica do gênero que emula nostalgicamente, versando – como Frank Capra adorava fazer e realizou brilhantemente no seu maior filme – sobre a redenção de indivíduos que foram, com o passar dos anos, perdendo de vista os valores básicos sobre os quais a sociedade norte-americana tenta se assentar, simbolizados pela importância da família (em “A Roda da Fortuna”, que é uma sátira, pode-se interpretar a cidade-natal de Neville Barnes, Muncie, como mantenedora desses valores básicos). Aqui, o importante não é a mensagem, mas a história deliciosa, contada com perícia por uma dupla de cineastas que imprime suas impressões digitais mesmo nas obras em que tentam homenagear outros autores.

O DVD brasileiro é um lançamento da Universal. Não contém extras, mas traz o filme com ótima qualidade de imagem (mantida no formato original, widescreen 16:9) e som (Dolby Digital 5.1). A nota negativa é a imagem da capa (a mesma da Região 1, por sinal), que estraga a surpresa, para quem nunca viu o filme, sobre a invenção do personagem de Tim Robbins.

– A Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy, EUA/Alemanha/Inglaterra, 1994)
Direção: Joel Coen
Elenco: Tim Robbins, Jennifer Jason Leigh, Paul Newman, Charles Durning
Duração: 111 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


3 comentários
Comente! »