Rolling Stones – Shine a Light

16/08/2008 | Categoria: Críticas

Não é um documentário, mas um show filmado com carinho que documenta comunhão incomum entre artista e público

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Existe algum filme de Martin Scorsese em que “Gimme Shelter”, canção de 1969 dos Rolling Stones, não esteja na trilha sonora? A pergunta, feita em tom irreverente, foi feita pelo guitarrista Keith Richards a um grupo de críticos de cinema, durante entrevista coletiva que sucedeu a primeira apresentação pública de “Rolling Stones – Shine a Light” (EUA, 2008), no Festival de Berlim, em janeiro de 2008. É um exagero, claro. Scorsese só usou a música em três filmes (“Os Bons Companheiros”, “Cassino” e “Os Infiltrados”). Curiosamente, quando o cineasta se debruçou sobre a banda inglesa para transformá-la em protagonista de um longa-metragem, “Gimme Shelter” ficou de fora. Uma prova inconteste do senso de humor sutil do diretor de alguns dos melhores filmes norte-americanos já realizados.

“Shine a Light” não pode ser chamado de documentário. Embora intercale pequenos trechos de reportagens televisivas feitas com integrantes da banda inglesa no decorrer da longa carreira, o longa-metragem é basicamente o registro de um espetáculo musical. De início, os Stones propuseram que Scorsese filmasse o gigantesco show gratuito feito nas areias da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 2006, diante de um milhão de pessoas. O cineasta preferiu um registro mais intimista, e optou por filmar os espetáculos realizados durante duas noites de 2006, em que os Stones tocaram para uma pequena platéia no histórico Beacon Theatre, em Nova York. Eram concertos beneficentes, com renda dirigida a uma organização não-governamental.

O quarteto deu a Scorsese total liberdade criativa para capturar e editar o material dos shows. Esta liberdade fica evidente para quem assistir aos 122 minutos de “Shine a Light” com atenção. Profissionais especializados em filmar shows de rock usariam um planejamento de câmeras bem diferente do que fez Scorsese. Privilegiando a arquitetura compacta do teatro, o cineasta optou por uma abordagem simples e calorosa. Organizou as 16 câmeras de forma que elas ficassem bem próximas dos músicos, registrando a comunicação silenciosa entre eles e a comunhão com entre artistas e público. Exibido num cinema, o resultado literalmente põe a platéia em cima do palco, junto com os quatro Stones (e com o enorme séqüito de músicos que os acompanha).

São muitos – e raros – os momentos de empatia entre os ídolos e a platéia. Em certo momento, uma câmera localizada na primeira fila mostra Mick Jagger fazendo pose para uma fã clicá-lo com a câmera do telefone celular. Noutro instante, o guitarrista Keith Richards se ajoelha durante um solo e troca um rápido olhar com um espectador que está diante dele. Percebendo a devoção do fã, Keith interrompe brevemente o solo, entrega a palheta na mão do sortudo, apanha outra (todo guitarrista mantém um monte de palhetas grudadas à guitarra com fita adesiva) e segue tocando. Ambos duram fragmentos de segundos, e passariam despercebidos em um filme normal. Além disso, são dois exemplos perfeitos de cenas de comunhão total entre artistas e fã, algo que não se vê com muita freqüência no mundo cada vez mais alienado (e alienante) do rock’n’roll.

Para registrar os dois shows, Scorsese contou com muitos colaboradores ilustres. Nove dos operadores de câmera são diretores de fotografia indicados ou premiados com o Oscar, inclindo Robert Elswit (“Sangue Negro”), Andrew Lesnie (“O Senhor dos Anéis”) e Emanuel Lubezki (“Filhos da Esperança”). Essa turma foi coordenada por Robert Richardson (dois Oscar, por “JFK” e “O Aviador”), que criou a iluminação discreta, mais propícia para um filme do que para um show de rock. O cineasta Albert Maysles, autor de um documentário seminal sobre os Stones (“Gimme Shelter”,de 1970), também operou uma câmera.

Os convidados de honra também estavam nos bastidores (o ex-presidente dos EUA Bill Clinton, que apresenta o espetáculo) e em cima do palco. O incensado guitarrista Jack White participa de uma displicente versão da obscura “Loving Cup”. O veterano Buddy Guy é só sorrisos na versão sacana de um blues de Muddy Waters, destilando carisma por todos os poros. A cantora Cristina Aguilera, na melhor tradição das terríveis divas gritalhonas que riscam a palavra sutileza do vocabulário, consegue estragar as nuances safadas da fantástica (e pouco executada) “Live With Me”.

É importante observar que, como sempre faz em shows mais intimistas, os Stones optaram por um repertório recheado de canções antigas e pouco conhecidas. Os fãs de longa data não vão sentir falta dos clássicos (“Jumping Jack Flash”, “Satisfaction”, Brown Sugar” e “Start Me Up” estão lá), mas irão perceber que alguns dos melhores momentos da apresentação estão entre as canções que pouca gente conhece. É o caso da balada “As Tears Go By”, que Jagger fez para a namorada Marianne Faithfull (cujo nome é convenientemente esquecido pelo vocalista), e do country anti-religioso “Far Away Eyes”, ponto alto do show, com uma interpretação teatral que flagra um raro momento de carinho entre Jagger e Richards. Aqui e acolá, Scorsese apimenta o filme colocando trechos bem-humorados de entrevistas que pontuam a carreira dos Stones – em certo momento, um Jagger com dois anos de estrada imagina, com franqueza, que poderá ter talvez mais um ano de rock’n’roll antes de cair na real. Hilário.

A ligação entre Scorsese e o rock’n’roll é antiga. O cineasta trabalhou como co-editor do lendário registro sobre o Festival de Woodstock (1969), filmou “O Último Concerto de Rock” (1978) com o pouco conhecido quarteto The Band, fez um belo documentário sobre as raízes do blues em 2003, dirigiu videoclipe para Michael Jackson (“Bad”, em 1987) e editou uma retrospectiva da carreira de Bob Dylan (2005), o elogiado “No Direction Home”. O registro do concerto sobre os Rolling Stones fecha o ciclo de maneira triunfal. Pode parecer o mero registro burocrático de um espetáculo musical, mas vai bem além – captura o carisma que faz dos Rolling Stones um das duas maiores bandas de rock de todos os tempos.

O DVD, lançado pela Imagem Filmes, não contém extras. O espetáculo aparace com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Rolling Stones – Shine a Light (EUA, 2008)
Direção: Martin Scorsese
Documentário/Show
Duração: 122 minutos

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