Romance

03/04/2009 | Categoria: Críticas

Guel Arraes propõe releitura contemporânea irregular, apesar de bem bolada, da história de Tristão e Isolda, organizada em pelo menos três camadas diferentes de significados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A produção de “Romance” (Brasil, 2008) nasceu da vontade que o pernambucano Guel Arraes sentia de dar uma guinada na própria carreira. Embora exerça pouco o ofício de diretor de cinema (quatro longas no intervalo de oito anos), Arraes vem trabalhando com narrativas audiovisuais desde o começo da década de 1980, especialmente em televisão. Durante todo esse tempo ele praticamente só fez comédia. Ao iniciar os preparativos para “Romance”, Guel decidiu que estava na hora de tentar algo diferente. Consultou o parceiro de escrita Jorge Furtado e, juntos, decidiram enfiar dose generosa de metalinguagem no escopo básico da lenda de Tristão e Isolda, supostamente o primeiro drama romântico da história da arte ocidental, datado do século XII. O resultado? Uma releitura contemporânea irregular, apesar de bem bolada, daquela história, organizada em pelo menos três camadas diferentes de significados. Algo como uma torta alemã de celulóide.

O herói da história, cujo ponto de vista o filme segue, é Pedro (Wagner Moura, em papel aparentemente inspirado por diretores teatrais alternativos, como Antunes Filho). Ator e diretor de teatro, ele se apaixona por Ana (Letícia Sabatella), atriz com quem contracena numa montagem alternativa da já citada “Tristão e Isolda”. Os dois vivem juntos uma paixão incandescente, interrompida quando ela se transforma em estrela de TV, depois que um influente produtor televisivo (José Wilker) vê a peça e a chama para protagonizar uma novela. Anos depois do rompimento, o casal ganha uma nova chance quando Ana, incentivada pela produtora Fernanda (Andréa Beltrão, em emulação eficiente de Paula Lavigne, produtora dos filmes de Guel), convence a emissora a convidar Pedro para dirigir um especial de TV. A ciranda amorosa conta ainda com a participação de Orlando (Vladimir Brichta), ator iniciante disposto a usar a boa aparência para crescer rápido na profissão.

Como se vê, há duas camadas distintas de metalinguagem que o roteiro, assinado por Arraes e Furtado, justapõem. A primeira, abordada com mais ênfase na primeira metade, explora as relações nem sempre dóceis entre o teatro e a televisão no Brasil. A outra problematiza a dualidade entre independência autoral e necessidade comercial que guia a produção televisiva. Em paralelo, uma terceira história se desenrola – o inevitável triângulo amoroso que une Pedro, Ana e Orlando. Na prática, O filme trabalha com três diferentes versões de “Tristão e Isolda” se entrecruzando na tela: a encenação teatral, a encenação televisiva e a encenação (sim, porque na vida a gente também representa papéis, certo?) real. É uma estrutura narrativa arrojada, bem diferente. Infelizmente, Guel demonstra dificuldade para dar conta de tantas nuances, criando uma narrativa meio irregular, truncada, especialmente no primeiro ato.

É curioso perceber que a metalinguagem já fazia parte do repertório de Arraes, pois “Lisbela e o Prisioneiro” (2003) tinha várias cenas em que a mocinha apaixonada por cinema desvendava o destino de alguns personagens a partir de filmes assistidos anteriormente. Da mesma forma, o longa-metragem anterior de Jorge Furtado – “Saneamento Básico” (2007), que trazia o mesmo Wagner Moura no elenco – também brincava com metalinguagem, pondo um pessoal humilde do interior do Rio Grande do Sul para fazer um filme, quando o verdadeiro objetivo deles era simplesmente cavar uma fossa para a comunidade. Nenhum dos dois era neófito no assunto, e a pesquisa iconográfica apresentada no primeiro ato reafirma que eles fizeram direitinho o dever de casa, pesquisando o tema com profundidade e lhe dando um tratamento visual sofisticado.

Apesar disso, os dois não conseguiram escapar de uma armadilha que já prendeu muita gente boa. Para evitar que o publico se perca no meio das sucessivas camadas de ficção e realidade que se sobrepõem, Arraes e Furtado explicam tudo nos mínimos detalhes, tintim por tintim, mais de uma vez. Esse excesso de exposição, quase sempre feita através de diálogos, abre enormes clarões narrativos na história, emperrando a ação dramática e fazendo o filme parecer mais longo, lento e arrastado do que realmente é. A maior parte dos problemas reside no primeiro ato, que passa a impressão de ser um gigantesco prólogo que nunca termina. Arraes até que disfarça bem, criando uma decupagem (escolha dos ângulos de câmera) criativa e caprichando na coreografia dos personagens, mas este trecho acaba soando realmente cansativo.

O diretor pernambucano usa até mesmo efeitos gráficos interessantes, incluindo vitrais animados inspirados em antigos desenhos animados da Disney (“Branca de Neve”, “A Bela e a Fera”) que se misturam com ilustrações de cordel. É tudo muito bonito e bem feito, mas claramente inserido no filme para distrair o público e mascarar o fato de que a história simplesmente não anda. Quando Pedro e Ana finalmente saem do palco (e das coxias) do teatro onde encenam a peça e se apaixonam, em São Paulo, boa parte do público respira aliviado (“agora sim, finalmente vai começar de verdade”, suspirou uma moça sentada ao meu lado, no cinema em que assisti ao filme). De fato, a partir daí as coisas melhoram bastante, e “Romance” se transforma num exercício bem interessante de diálogo entre ficções e realidades (assim mesmo, no plural).

O elenco, ainda bem, trabalha a favor do filme, embora não deixe de ser irônico que os atores coadjuvantes se destaquem num nível acima do par principal. Wagner Moura e Letícia Sabatella estão corretos, mas a naturalidade de Andréa Beltrão e o potencial cômico de Vladimir Brichta faz com que o filme cresça bastante quando os dois estão em cena. Não é por acaso que o terceiro ato, que se passa no interior da Paraíba e focaliza as gravações de um especial de TV, seja disparado o momento mais divertido e também emocionante do longa-metragem, já que é exatamente nesse ponto da história que os dois personagens secundários ganham mais importância dramática. Até seria possível atribuir o crescimento do filme ao fato de que Guel Arraes está em território conhecido, literal (locações sertanejas) e figurativamente (comédia) falando, mas é fato que Fernanda e Orlando apimentam bastante o enredo e fazem a ação dramática avançar com mais desenvoltura. Há ainda uma curta e impagável participação de Marco Nanini, e José Wilker parece interpretar um híbrido de Daniel Filho com o próprio Guel.

O DVD é da Buena Vista. Tem proporção original (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mais making of (14 minutos) e um featurette mostrando o especial “Tristão e Isolda” gravado dentro do filme (10 minutos).

– Romance (Brasil, 2008)
Direção: Guel Arraes
Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta
Duração: 105 minutos

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