Rosa Púrpura do Cairo, A

03/07/2004 | Categoria: Críticas

Woody Allen transforma amor pelo cinema em comédia romântica adorável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A imagem pública de Woody Allen se encaixa direitinho no refrão da famosa canção dos Paralamas do Sucesso: “Por trás desses óculos também bate um coração”. O personagem-síntese da carreira do cineasta novaiorquino é neurótico, hipocondríaco, cínico, falastrão, incapaz de tomar decisões sem pensar algo por vários minutos. Acima de tudo isso, porém, é um romântico de carteirinha. Portanto, é irônico que no mais romântico de todos os filmes que fez, “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo, EUA, 1985), Woody Allen não apareça como ator.

O filme, indicado ao Oscar de melhor roteiro em 1986, caiu rapidamente nas graças dos cinéfilos porque tematiza, com uma metáfora original e impagável, a relação complexa e difícil de definir entre os fãs de cinema e as películas projetadas na tela gigante. Um acontecimento extraordinário fornece a base sobre a qual o longa-metragem se desenvolve: o protagonista de um filme se apaixona por uma espectadora, abandona o papel e sai da tela para conhecê-la pessoalmente.

É uma premissa simples que Woody Allen desenvolve com a eficiência habitual. Há uma diferença crucial, contudo, entre “A Rosa Púrpura do Cairo” e todos os projetos anteriores do diretor: o filme de 1985 tem o ponto de vista de uma personagem feminina – e Allen faz isso muito bem. Cecilia (Mia Farrow) trabalha como garçonete em Nova Jersey, no início dos anos 1930, durante a Grande Depressão. É uma mulher sonhadora, casada com o brutamonte Monk (Danny Aiello). Monk passa ao dias bebendo, jogando pôquer com os amigos e saindo com outras garotas. Para completar, bate em Cecilia. A válvula de escape dela é o cinema. Cecilia é apaixonada por filmes românticos, e vai ao cinema quase todas as noites, muitas vezes para ver o mesmo longa.

Mia Farrow compõe a protagonista com perfeição. Cecilia tem o ar frágil e sonhador (ela quebra pratos e esquece de servir os clientes da lanchonete) que a personagem exige. “A Rosa Púrpura do Cairo” só soa crível porque a conjunção Allen + Farrow (então casados) funciona como uma máquina bem lubrificada. Ele, embora não esteja no longa-metragem, coloca no filme todos os elementos que se espera de um Woody Allen legítimo: a fotografia elegante de Gordon Willis (parte em cores de tons pastéis, parte em preto-e-branco esfuziante), a trilha sonora repleta de gemas do jazz, bons personagens secundários e um texto leve e engraçado.

“A Rosa Púrpura do Cairo”, claro, funciona melhor para amantes do bom cinema, cuja relação com a tela grande ultrapassa em muito o mero rótulo do entretenimento fácil. Muita gente respira a Sétima Arte. Essa minoria estabelece com os filmes uma relação orgânica, viva, quase como se as películas fossem seres humanos – algo que o filme transforma em verdade. A temática transforma o longa de Woody Allen em um produto extremamente atual; afinal, milhões de pessoas no mundo inteiro têm, em seus pensamentos, relacionamentos com as imagens eletrônicas dos seus ídolos parecidos com a relação que Cecilia cria com o explorador Tom Baxter (Jeff Daniels).

Quem preferir deixar de lado esse tipo de filosofia não perde muita coisa, e assiste a uma comédia muito bem realizada. Muitas das situações geradas como conseqüência da fuga do personagem da tela de cinema são engraçadíssimas. Algumas das melhores seqüências de “A Rosa Púrpura do Cairo” surgem dos momentos de tédio que os outros atores do filme dentro do filme experimentam, enquanto aguardam que Baxter interrompa sua aventura na vida real e volte para atuar até o fim.

Dizer que “A Rosa Púrpura do Cairo” é um filme diferente, baseado em um argumento original e criativo, não é mais do que mera obrigação. Bons argumentos, no entanto, nem sempre dão grandes roteiros. Mas Woody Allen foge da armadilha de intelectualizar demais a trama e mantém o foco básico no romântico que carrega dentro dele. Isso faz com que o filme seja um presente para cinéfilos e um passatempo agradável para qualquer um que goste de comédias românticas. Em DVD, o filme tem som Dolby Digital 1.0 e vem sem extras.

- A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, EUA, 1985)
Direção: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Diane Wiest
Duração: 82 minutos

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2 comentários
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  1. Gosto muito deste filme, dou cinco estrelas para ele, mas eu jamais diria que é um passatempo agradável para quem gosta de comédias românticas. Na verdade, acho o filme bem amargo, por causa do final triste, que é um soco no estômago, um “eye opener” para quem, através do cinema, gosta de fugir da realidade.

  2. Curiosa a sua leitura, Humberto. Entendo perfeitamente seu ponto de vista, embora não compartilhe de jeito nenhum com esse sabor de travo amargo que você o vê. Não, eu vejo exatamente o contrário. Não é uma comédia romântica comum, não é escapista, mas ainda assim celebra o cinema como fuga da realidade (ainda que nos lembre que a realidade sempre retorna quando a gente sai da escura).

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