Rota da Morte

15/11/2004 | Categoria: Críticas

Direção equivocada prejudica idéia interessante que manipula estereótipos do filme de terror

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O escritor Stephen King tem um conto, publicado no livro “Tripulação de Esqueletos”, sobre uma mulher fanática por atalhos que acaba se perdendo em um deles. Ela entra numa estrada que não existe nos mapas e acaba desembocando, ao que parece, em uma espécie de realidade alternativa. O enredo é muito parecido com a história básica de “Rota da Morte” (Dead End, França/EUA, 2003), um filme que daria um ótimo episódio da série televisiva “Além da Imaginação”, se não apelasse tanto para estereótipos manjados das narrativas de terror.

“Rota da Morte” saiu da cabeça de uma dupla de cineastas franceses, e portanto é uma produção basicamente européia. No afã de conseguir distribuição internacional, entretanto, Jean-Baptiste Andrea e Fabrice Canepa escalaram um elenco de atores do terceiro escalão de Hollywood. Como eles interpretam uma família de gente chata, isso prejudica bastante o filme, que acaba ficando longo demais.

Nenhum membro do elenco merece uma menção honrosa, a começar pelo veterano Ray Wise, protagonista do filme e possível detentor do prêmio de pior interpretação dos últimos anos. Seu Frank Harrington é tão chato, irritante e detestável que quase torcemos para que ele seja assassinado pelo misterioso assassino que age durante o filme.

O filme é ambientado na noite de Natal. Frank dirige o carro com a família para passar a noite festival na casa de parentes. Com sono, entre entra num atalho que corta um bosque para tentar chegar mais rápido ao destino. O esquisitíssimo atalho, porém, parece nunca acabar. Todas as placas apontam para uma cidade, Marcott, que não está no mapa e nunca chega, apesar de a família passar a noite inteira dirigindo. Mas isso não é nem o começo dos problemas de Frank, do filho caçula (um aborrecente típico), da filha estudiosa (enjoada e sem graça), da esposa (meio pirada) e do namorado da filha (um bobão).

Logo no início do atalho, a visão de uma mulher vestida de branco, carregando um bebê, faz Frank parar o carro. A esta visão, soma-se outra: um luxuoso carro negro sem motorista, que parece ser o único veículo a trafegar por aquela estrada e que sempre aparece antes que algum dos membros da família seja assassinado.

Até aí, ponto para o roteiro. Afinal, essas duas imagens fazem parte do inconsciente coletivo da humanidade; são arquétipos da narrativa de terror. Qual a criança que nunca ouviu uma história de assombração em que apareçam imagens parecidas? Elas são universais. Que o diga, por exemplo, o cineasta italiano Dario Argento, que usou com maestria a visão de uma mulher de branco correndo na floresta para criar uma das seqüências mais assustadoras e sublimes do clássico “Suspiria”.

Aí começam os problemas. E o maior deles vem da direção, não do roteiro: Andrea e Canepa simplesmente não sabem como introduzir na história, de forma coerente e impactante, essas imagens de medo infantil. A mulher de branco, por exemplo, aparece pela primeira vez como um personagem comum; entra no carro e pega uma carona normalmente, o que retira totalmente o medo que uma personagem tão enigmática poderia causar na platéia.

O desenvolvimento do enredo, na verdade, lembra bastante o recente thriller “Identidade”, incluindo um final-surpresa muito parecido com os minutos finais do longa-metragem de James Mangold. Ocorre que Mangold é um cineasta de qualidade muito mais apurada, e por isso fez, com uma idéia bem parecida, um filme correto. Já a dupla francesa deixou muito a desejar no desenvolvimento dos personagens – todos são chatinhos e superficiais – e na apresentação visual das boas idéias do roteiro. Por isso, o filme nunca decola. Para completar, é longo demais. Se fosse apenas um episódio de série de TV, estaria bom demais.

O DVD de “Rota da Morte” foi lançado no Brasil pela Europa Filmes, e não tem nenhum material extra.

– Rota da Morte (Dead End, França/EUA, 2003)
Direção: Jean-Baptiste Andrea e Fabrice Canepa
Elenco: Ray Wise, Lin Shaye, Mick Cain, Alexandra Holden
Duração: 85 minutos

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