Sabrina

23/08/2006 | Categoria: Críticas

Adaptação livre da história de Cinderela nas altas rodas tem ótimos diálogos by Billy Wilder

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O austríaco Billy Wilder já era um nome tremendamente respeitado em Hollywood quando escreveu e dirigiu “Sabrina” (EUA, 1954). De fato, vivia a fase áurea da carreira, com trabalhos consistentes em diversas gêneros, como o drama satírico “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e o melodrama jornalístico “A Montanha dos Sete Abutres” (1951). Para o longa-metragem que o reuniu à atriz predileta, Audrey Hepburn, Wilder partiu de uma idéia simples: realizar uma versão moderna da fábula de Cinderela, adaptando-a ao universo que mais conhecia – o frívolo mundo dos milionários.

A ambientação do longa-metragem, um dos maiores sucessos de público da carreira de Wilder, remete diretamente ao trabalho anterior dele, como roteirista de seu maior ídolo no cinema, Ernst Lubitsch. O conterrâneo vienense havia se especializado, duas décadas antes, em criar comédias românticas sofisticadas, sempre ambientadas no mundo dos ricos. Agora, famoso e cheio da grana, Wilder freqüentava o jet-set internacional e conhecia de perto aquele ambiente. Não foi difícil escrever e dirigir uma história que brincasse com tudo aquilo. Era até uma dívida que ele tinha com o universo da alta roda, depois de desancá-lo sem pena no maravilhoso “Crepúsculo dos Deuses”.

O cineasta escreveu o papel de Sabrina para Audrey Hepburn, de quem era grande amigo. A atriz belga começava a ficar famosa em Hollywood e já construía a persona de mulher forte e sofisticada. Sabrina interpreta a Cinderela moderna: filha do chofer de uma família de industriais riquíssimos, ela retorna transformada de uma temporada em Paris. Os figurinos chiques, as sobrancelhas perfeitas e as boas maneiras acendem a imaginação dos dois irmãos milionários com quem ela foi criada, e que até então jamais a haviam notado: o responsável Linus (Humphrey Bogart), mais velho, presidente da empresa e atolado até o pescoço em trabalho, e o playboy David (William Holden), garotão loiro conquistador por quem Sabrina sempre foi apaixonada. Ela quer ficar com David, mas as coisas não são tão simples assim.

Wilder cometeu aqui uma comédia romântica clássica, redondinha, que poderia tranqüilamente ser assinada por Lubitsch. É um filme sofisticado e tem o ponto forte justamente nos diálogos, repletos de um humor delicioso (embora não tão cínicos quanto os melhores filmes do diretor, como “Se Meu Apartamento Falasse”, de 1960). Além disso, a química entre Hepburn e William Holden, um dos grandes atores incompreendidos do cinema, é incandescente – na época, segundo consta, os dois tiveram um caso ardente que terminou junto com as filmagens.

O filme, porém, não envelheceu bem. Como sempre, para evitar a tesoura da censura implacável da época, Wilder teve que suprimir toda e qualquer referência mais forte a atividades sexuais, e dessa forma a história perde a verossimilhança. Você sabe a cada minuto que está vendo um filme, e que nada daquilo que aparece na tela poderia se passar fora dela, nem em 1954 e nem em qualquer outra época. E Humphrey Bogart, outro ator espetacular, não conseguiu se entender com Billy Wilder e terminou as filmagens detestando ter que participar delas; a má vontade dele é perceptível e o ator parece claramente deslocado no filme. Mesmo assim, trata-se de um legítimo Billy Wilder – e isso não é pouco.

O DVD da Paramount é bastante básico. O filme está na proporção correta (1.33:1, fullscreen) e tem som OK (Dolby Digital 2.0). O único extra é um pequeno documentário de 11 minutos, legendado, com comentários triviais sobre as gravações.

- Sabrina (EUA, 1954)
Direção: Billy Wilder
Elenco: Audrey Hepburn, Humphrey Bogart, William Holden, Walter Hampden
Duração: 113 minutos

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