Sacrifício, O

25/04/2007 | Categoria: Críticas

Refilmagem de obscuro longa-metragem inglês aposta em clima de mistério e em sustos gratuitos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Em meio à crise enfrentada pelo cinema desde 2004, com crescentes quedas de faturamento nas principais bilheterias do mercado em todo o mundo, apenas dois gêneros continuam dando lucro certo: comédias e filmes de horror direcionados a adolescentes. Assim, é natural que os grandes estúdios de Hollywood estejam apostando cada vez mais em projetos de médio porte, já previamente testados com sucesso, que se encaixem nesses dois filões. É dentro deste contexto que deve ser compreendido o apenas razoável “O Sacrifício” (Wicker Man, EUA/Alemanha, 2006), mais burocrático longa-metragem dirigido pelo canadense Neil LaBute (“Enfermeira Betty”).

“O Sacrifício” é a refilmagem de um obscuro título de horror britânico de 1973. O filme original, lançado no Brasil como “O Homem de Palha”, é um dos filmes prediletos do legendário Christopher Lee, e permanece muito cultuado entre platéias de fanáticos pelo gênero, embora seja relativamente desconhecido do grande público. Esta característica explica porque executivos da produtora independente Lions Gate botaram US$ 40 milhões no projeto, um orçamento caprichado, ainda que modesto para os padrões das superproduções habituais. O resultado final pouco altera os rumos da história original, mas são justamente as mudanças – feitas para incluir mais sustos e suavizar o pesado conteúdo sexual do filme de 1973 – as responsáveis pelo fracasso artístico e comercial da produção.

O roteiro, escrito pelo próprio LaBute, não hesita em transferir a ação da costa gelada da Escócia para o igualmente gelado e longínquo estado norte-americano do Maine. É uma mudança comum em quase todos os remakes conduzidos nos EUA, já que o povo do país não costuma mostrar interesse por outras culturas. O perfil do protagonista e a linha-base da história são mantidos: Edward Manus (Nicolas Cage) é um solitário policial levado a investigar o desaparecimento de uma criança, em uma ilha quase deserta, onde habita uma comunidade de extravagantes hábitos religiosos, bastante avessa à presença de estranhos.

Manus descobre esse último detalhe ao perceber a fria recepção dos ilhéus, quando chega ao povoado local. Eles não escondem o desconforto com a presença do policial. E negam sem rodeios a existência da criança desaparecida. O detetive, contudo, não demora a desconfiar que todos estão escondendo algo. No decorrer da investigação, vai tomar contato com os exóticos rituais religiosos praticados no povoado, onde praticamente só vivem mulheres, sob a liderança da misteriosa Irmã Summerisle (Ellen Burstyn). A investigação rapidamente aponta para um possível envolvimento entre o culto e o sumiço da pequena Rowan (Erika Shaye-Gaye).

O prólogo que abre “O Sacrifício” serve como bom exemplo para ilustrar como as modificações feitas por LaBute são desnecessárias, inócuas, sem acrescentar nenhuma informação relevante à trama. A seqüência mostra Edward Manus presenciando um horrível acidente, envolvendo uma criança, que o deixa traumatizado. A cena vai introduzir à narrativa um dos piores e mais repetidos clichês de filmes de horror, sendo repetida abruptamente em duas ou três ocasiões – que descobriremos serem pesadelos ou imaginação do protagonista – apenas para provocar sustos gratuitos na platéia.

Além disso, na tentativa de conseguir uma censura baixa (e, conseqüentemente, atrair mais adolescentes para a platéia), Neil LaBute eliminou quase por completo o caráter dionisíaco dos rituais levados a cabo na ilha. O filme de 1971 aproveitava todas as chances que podia para mostrar cerimônias pagãs onde mulheres peladas apareciam dançando ao som de canções medievais. Já o conteúdo de “O Sacrifício” é bem mais familiar. Não há referências sexuais, e o enredo até mesmo providencia uma ligação afetiva entre o detetive e a vítima, já que na refilmagem a mãe da menina desaparecida (Kate Beahan) é uma ex-noiva de Edward Manus.

Para completar a coleção de equívocos, os marqueteiros responsáveis pela promoção do longa-metragem erraram feio ao criar o pôster principal da campanha publicitária. Nele, aparece a imagem de uma menina de olhos brancos, sem pupilas, como se estivesse possuída por um demônio. No entanto, a natureza do mistério de “O Sacrifício” não tem absolutamente nada de sobrenatural, como o tal pôster indica, e isso pode ser uma grande decepção para parte do público. Talvez por causa disso, o filme bombou nas bilheterias norte-americanas, amealhando apenas US$ 22 milhões, pouco mais da metade do orçamento do projeto.

É bom deixar claro, porém, que apesar de perder na comparação com o original de 1971, a produção de Neil LaBute tem pontos positivos. O diretor soube manter a atmosfera desolada, utilizando belas imagens da natureza e tingindo a fotografia principal com uma coloração dourada que cai muito bem na atmosfera mística da história. O andamento lento mantém o clima de mistério durante toda a duração do filme, liberando informações a conta-gotas e mantendo o público sob tensão. Por fim, é salutar perceber que LaBute manteve intacto o final audacioso do filme anterior. Entre prós e contras, “O Sacrifício” consegue se salvar como diversão despretensiosa para quem curte filmes de horror.

O DVD é um lançamento da Califórnia Filmes. O disco é simples e sem extras, contendo o filme com qualidade boa de imagem (widescreen letterboxed) e som (Dolby Digital 5.1).

– O Sacrifício (Wicker Man, EUA/Alemanha, 2006)
Direção: Neil LaBute
Elenco: Nicolas Cage, Kate Beahan, Frances Conroy, Ellen Burstyn
Duração: 102 minutos

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