Sahara

26/09/2005 | Categoria: Críticas

Candidato a Indiana Jones tem que achar navio no deserto em filme barulhento, despretensioso e irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O posto de principal herói de aventuras arqueológicas de Hollywood, outrora ocupado por Indiana Jones, é sempre muito cobiçado. O candidato mais forte de 2005 é um sujeito bonitão, malhado e familiar aos fãs que acompanham esse tipo de aventura no campo literário: chama-se Dirk Pitt, e é o protagonista de uma série de romances do escritor fast food Clive Cussler. “Sahara” (EUA/Espanha, 2005) deseja abrir uma possível franquia cinematográfica do herói. Trata-se de uma aventura no estilo clássico, com poucos efeitos digitais, muita correria e preocupação quase zero com uma trama bem cuidada. Mesmo assim, proporciona um quinhão de diversão.

“Sahara” é o tipo de filme que chega cercado por uma aura antipática e, por isso, pessoas ligadas nos bastidores da arte cinematográfica tendem a desprezá-lo instantaneamente. O maior responsável por isso é o nome do diretor. Breck Eisner é o filho do presidente da Disney, Michael Eisner, e faz aqui sua estréia no comando de um blockbuster. Acusações de nepotismo contribuem para fazer qualquer um desconfiar da qualidade de “Sahara”, mas Eisner filho realiza a tarefa direitinho, abrindo o longa-metragem com um longo plano-seqüência (após um curto prólogo que se passa no meio do século XIX) que é muito melhor do que 90% dos filmes do gênero. Apenas uma tomada, dois minutos de imagens, e o espectador preconceituoso já está vencido.

Tudo bem, pode-se argumentar que o longo travelling na cabine de trabalho de Dirk Pitt não é original. Alfred Hitchcock fez uma abertura idêntica em “Janela Indiscreta”, 50 anos antes. Ainda assim, a cena foge dos clichês que dominam esse tipo de filme, porque é simples, eficiente e econômica. O plano-seqüência faz a câmera mostrar o cômodo, cheio de roupas de mergulho, recortes de jornais narrando várias aventuras sensacionais do personagem, computadores high tech, fotos do rapaz com os amigos. Quando termina, já conhecemos Dirk Pitt. Sabemos que é uma espécie de caçador de tesouros, que trabalha para uma empresa particular conhecida por realizar muitos trabalhos para o Governo dos EUA, que é um sujeito boa pinta (interpretado pelo ator Matthew McConaughey, também produtor executivo) e também um cara legal e amistoso.

Antes, o prólogo já tratou de apresentar o objeto de desejo de Pitt: um legendário navio encouraçado que desapareceu das águas do Mississipi durante a Guerra Civil norte-americana. O navio jamais foi encontrado. Na seqüência, durante um trabalho simples na África, um contrabandista conhecido de Pitt consegue localizar uma rara moeda cunhada na mesma época que, em teoria, estaria de posse do comandante da embarcação, conhecida como “Navio da Morte”. O raciocínio de Pitt é simples: o barco deve estar perto de onde a moeda foi encontrada, em Mali, país que vive uma guerra civil. Ele ganha do chefe, o almirante James Sandecker (William H. Macy, no piloto automático), um prazo de 72 horas para encontrar o navio, antes de partir para outra missão na Austrália. Leva com ele o amigo de infância e parceiro de trabalho, Al Giordino (Steve Zhan, cheio de energia).

Há uma trama paralela em “Sahara”. Ela é conduzida pela médica da Organização Mundial de Saúde, Eva Rojas (Penelope Cruz), que investiga a epidemia de uma doença mortal na África. Tentando encontrar a origem da epidemia, ela pega uma carona com o aventureiro a Mali – e, em filmes como este, não é difícil de prever que as duas tramas vão convergir para um ponto único, bem como é certo o surgimento de algum tipo de atração física entre os dois bonitões. Nesse ponto, a espanhola Penelope Cruz mostra mais uma vez que é tão bonita quanto péssima atriz: o sotaque arrastado e a absoluta falta de expressão, provavelmente acentuada devido à inexperiência do diretor, fazem o romance entre os dois soar falso e artificial.

A bem da verdade, Breck Eisner não é mau diretor. O rapaz é apenas um trabalhador esforçado, e sua fragilidade fica evidente nas cenas de ação frenéticas, em especial em um momento em que militares a mando de um general corrupto perseguem Dirk Pitt em uma lancha. O final da seqüência é bizarro de tão ridículo, com os protagonistas dentro da água, torcendo e gritando como se estivessem em um jogo de futebol, mesmo sabendo que vão ficar sem comida e sem transporte, no meio de um deserto tórrido, além de serem obrigados a dar um belo mergulho em um rio mais poluído do que o Tietê. Aliás, aqui está um enorme rombo no roteiro. Nossos heróis passam vários minutos nadando no rio onde todos os locais que entram pegam a estranha doença mortal, mas não mencionam o perigo e nem ficam doentes. Estranho, não?

Em outra cena de ação, mais adiante, Pitt enfrenta um clássico vilão árabe, com turbante, máscara preta e tudo, em cima de um heliporto. A edição é tão violentamente picotada que fica quase impossível de acompanhar o que realmente está acontecendo no lugar; vemos apenas borrões de gente passando diante da câmera. Pior ainda é a maneira como os heróis encontram o legendário navio (cuja presença na África jamais é explicada). A maneira como isso acontece corresponde a encontrar uma agulha num palheiro simplesmente escolhendo aleatoriamente um lugar, enfiando a mão e pegando a agulha. Absurdo é pouco.

Por outro lado, em pelo menos um quesito “Sahara” é um filme diferente das dezenas de tramas de ação despejadas todo ano por Hollywood na goela da público: a trilha sonora. Eisner utiliza grande quantidade de clássicos do rock’n’roll feito no sul dos EUA, nos anos 1970, incluindo pérolas de Grand Funk Railroad, Lynyrd Skynyrd e The Faces (essa última inglesa, mas também investindo no estilo). Tudo bem, as canções escolhidas são óbvias demais (“We’re An American Band”, “Sweet Home Alabama” e “Stay With Me”, todas inconfundíveis para qualquer um familiarizado com a música do período), mas não esqueça que os adolescentes, público-alvo de “Sahara”, raramente ouvem alguma música composta antes do nascimento deles.

Por apostar em um gênero musical genial e pouco conhecido, “Sahara” ganha pontos extras. Como é despretensioso, não se leva muito a sério e tem um elenco cheio de energia (excetuando Penelope Cruz, mas incluindo uma ponta de luxo de Delroy Lindo e a canastrice bem-humorada do francês Lambert Wilson ), acaba passando no teste da Sessão da Tarde. “Sahara” não é filme para mudar o mundo, e você já viu essa trama antes muitas vezes, mas se deseja ver de novo, relaxe e embarque no clima de despretensão do filme. Não é proibido ficar de leseira de vez em quando.

O DVD, da Paris Filmes/LK-Tel, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen) e som Dolby Digfital 5.1. Como extra, apenas um curto making of. A edição é bem fraca do que a lançada nos EUA, que tem três documentários.

– Sahara (EUA/Espanha, 2005)
Direção: Breck Eisner
Elenco: Matthew McConaughey, Steve Zahn, Penelope Cruz, William H. Macy
Duração: 124 minutos

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