Saída de Mestre, Uma

17/03/2004 | Categoria: Críticas

Ladrões chiques, bem-educados e honestos? Você já viu isso antes, mas “Uma Saída de Mestre” reutiliza bem os clichês

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Filmes sobre ladrões chiques, sofisticados e geniais costumam render aventuras muito movimentadas, mas discutíveis do ponto de vista ético. Afinal, esses longas sempre colocam como protagonistas pessoas que burlam a lei, e glamourizar esse tipo de atividade criminosa não seria exatamente uma idéia interessante. Nos EUA, por sinal, a sociedade conservadora costuma desprezar, pelo menos em teoria, esse tipo de filme. “Pulp Fiction”, só para citar um exemplo clássico, ganhou fama nos círculos de cinéfilos, mas não fez bilheterias astronômicas e em nem ganhou Oscar. Paradoxalmente, esse tipo de película sempre gera filhotes. “Uma Saída de Mestre” (The Italian Job, EUA, 2003) é o caso mais recente.

A explicação por essa atração dos cineastas e estúdios de Hollyood por mostrar, em minúcias, golpes milimetricamente calculados e executados por bandidões espertos pode ser encontrada, de certa forma, na associação que o cinema tem com a mágica desde sua origem, há pouco mais de 100 anos. Não devemos nos esquecer que George Mèliés, o francês que inventou a montagem, dirigia um circo, e fazia curtas para exibir no picadeiro, a fim de deixar o público perguntando: “mas como ele fez isso?”. Bem, “Uma Saída de Mestre” não chega a tanto, porque não mostra nenhum truque novo. O longa do cinesta F. Gary Gray limita-se a repetir os truques tradicionais que conhecemos bem. Cumpre a tarefa de entreter o espectador, tem humor, mas só isso.

A rigor, é possível detectar uma influência óbvia dos filmes mais recentes produzidos com essa temática dos ladrões de luxo; “Armadilha” (com Catherine Zeta-Jones) e “Thomas Crown – A Arte do Crime” (com Pierce Brosnan) são bons exemplos. Mas o filme ao qual “Uma Saída de Mestre” deve a alma é mesmo “Onze Homens e Um Segredo”. Tudo na película de F. Gary Gray lembra o longa de Steven Soderbergh, a começar pela narrativa, fincada num sentimento traiçoeiro: vingança. Se em “Onze Homens e Um Segredo” era o desejo de recuperar a noiva perdida para um dono de cassino que impulsionava o protagonista a roubá-lo, em “Uma Saída de Mestre” a vingança é ainda mais explícita, e envolve não apenas o líder da quadrilha em questão, mas todo o bando.

Logo no começo do filme, ficamos conhecendo a quadrinha de Charlie Croker (Mark Whalberg), um bandido tímido, honesto (?) e simpático. Charlie bola um plano impossível para roubar uma fortuna de US$ 35 milhões em barras de ouro de um palácio em Veneza, na Itália. O roubo é bem sucedido, mas um dos integrantes da gangue, Steve (Edward Norton), trai o resto do grupo, mata o mentor de Charlie (interpretado por Donald Sutherland) e desaparece de vista, com a grana. No restante do filme, Charlie vai dedicar tempo e dinheiro para descobrir não apenas o paradeiro de Steve, mas também uma maneira de recuperar o ouro roubado. Para isso, vai contar com uma ajudinha extra da filha do parceiro morto, Stella Bridger (Charlize Theron).

Se a vingança é o mote dos dois filmes, as semelhanças estéticas são ainda maiores. F. Gary Gray opta por usar uma trilha sonora moderna, eletrônica e repleta de funks instrumentais, mais ou menos no estilo que Soderbergh usou em “Onze Homens e Um Segredo”. Os ladrões de “Uma Saída de Mestre” também são bem vestidos, charmosos e educados – enfim, trapaceiros profissionais, sérios e sinceros. Essa caracterização facilita muita a aproximação entre o público e os personagens, pois fica muito mais fácil torcer por um bandido ‘sangue bom’ que deseja roubar um canalha assassino (um artifício que Soderbergh também usou) do que por um meliante que tira pirulito da boca de criança. Isso tudo torna “Uma Saída de Mestre” um filme menor.

Os atores, inegavelmente competentes, acabam passando a sensação de trabalho burocrático. Wahlberg, por sinal, é o ponto fraco do elenco; sua interpretação no estilo “sou-apenas-um-rapaz-malhado-que-precisa-de-carinho” soa pouco convincente para um líder de quadrilha internacional que precisa de jogo de cintura para lidar com bandos rivais. Charlize Theron até que se esforça um pouco mais, enquanto Edward Norton mancha uma carreira impecável ao oferecer, pela primeira vez, uma interpretação canastrona e apagada. Dizem que ele foi obrigado pela Paramount (com quem tinha contrato para mais um filme) a aparecer no longa; eu não ficaria surpreso se isso fosse verdade.

Mesmo com essas falhas, “Uma Saída de Mestre” ainda ganha pontos por enfocar 100% da trama no ato da vingança, sem abrir espaço para linhas paralelas narrativas que insistem em aparecer no roteiro, como o possível (e previsível) romance entre Charlie e Stella. Além disso, o diretor consegue filmar dois roubos literalmente impossíveis, apesar de acreditáveis, para abrir e fechar o filme com o pé no acelerador. Em resumo, uma boa opção para quem procura duas horas de diversão e não é exigente.

– “Uma Saída de Mestre” (The Italian Job, EUA, 2003)
Direção: F. Gary Gray
Elenco: Mark Wahlberg, Edward Norton, Charlize Theron, Seth Green, Jason Statham, Donald Sutherland
Duração: 104 minutos

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