Samurai, O

02/07/2008 | Categoria: Críticas

Silencioso e com sutil senso de humor, filme de Jean-Pierre Melville traz a iconografia noir para o terreno do existencialismo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O homem está deitado na cama, vestido com um terno novo e limpo, no quarto escuro. O apartamento é antigo e de poucos móveis. No centro, uma gaiola com um pardal, que gorjeia em intervalos regulares. Durante longos minutos, o homem sopra rolos de fumaça para o alto. De repente, levanta-se. É alto, elegante, de postura imponente. Põe chapéu panamá e sobretudo, antes de sair do velho apartamento, quase sem mobília. Na entrada do prédio, olha para os dois lados enquanto observa, com o canto dos olhos, um anônimo estacionar o carro chique. O homem alto aguarda um instante e entra no mesmo veículo sem dificuldade. Saca um chaveiro contendo dezenas de chaves. Metodicamente, experimenta uma a uma na ignição, até que o automóvel dê partida. É assim, através de ações triviais e sem palavras, que Jean-Pierre Melville introduz o protagonista de “O Samurai” (Le Samuraï, França, 1967), um dos maiores filmes franceses de todos os tempos.

Uma das principais influências dos jovens diretores da nouvelle vague, Melville era apaixonado por filmes de gângsteres e noir norte-americanos dos anos 1930 e 40, e fanático por literatura pulp – aqueles romances baratos, impressos em papel amarelado e vagabundo, vendidos em bancas de revista e esquecidos pelos leitores em vagões do metrô. Ele mimetizou o estilo e a iconografia daqueles gêneros estrangeiros, mas não simplesmente copiou o que viu nos EUA; trouxe aquele estilo para território pessoal, dotando-o de uma qualidade existencialista muito apropriada para personagens que sempre transitavam no limite da ilegalidade, mas mantendo um profundo senso moral. Se Albert Camus fosse diretor de cinema, teria se orgulhado de assinar uma obra como “O Samurai”.

O longa-metragem funciona como uma aula completa de direção. Uma análise minuciosa revela o completo domínio do diretor (e também roteirista) sobre o material que tinha em mãos. Para começo de conversa, quase não há diálogos. O herói, Jef Costello (Alain Delon), é impassível. Seu belo rosto, de rigidez bressoniana, não transparece qualquer emoção, nem mesmo quando ele coloca uma luva de enfermeiro e empunha um revólver. Jef é um assassino profissional. O melhor do ramo. O filme não nos revela quase nada sobre o passado dele, mas compreendemos que ele nunca foi preso, e não tem ficha na polícia, porque toma todos os cuidados possíveis para não ser reconhecido. Ainda no primeiro ato, Jef mata o dono de uma boate, e é notado na saída pela pianista do lugar (Caty Rosier). Ele é detido. Tem um álibi, que não convence o esperto inspetor encarregado do caso (François Pérrier). Talvez seja o início do fim.

“O Samurai” impressiona pela clareza narrativa que Melville imprime ao enredo. O filme é tão silencioso e impassível quanto seu protagonista – nos primeiros dez minutos, nenhuma palavra é pronunciada por qualquer personagem. Toda a narrativa é contada através de ações. Não ações no sentido hollywoodiano do termo, mas ações simples, cotidianas, como aquelas contidas na inesquecível seqüência de apresentação do personagem, descrita na abertura deste texto. Cada palavra, cada cor, cada pequeno elemento narrativo tem uma razão para estar ali. Tome o pássaro no apartamento de Jef como exemplo. Pode-se pensar que o animal não passa de um toque humorístico no enredo, mas o animal possui, sim, uma função na história – aguarde para percebê-la perto da metade do longa-metragem, depois da cena em que os policiais plantam uma escuta dentro do quarto de Jef.

Inicialmente simples, a trama vai se complicando aos poucos. Perto do fim, Jef é caçado duplamente pelas ruas de Paris, o que gera uma sensacional perseguição dentro do metrô de Paris. O vai-e-vem do assassino por plataformas, estações e vagões de trem é magnificamente filmada por Melville, de forma que o espectador jamais perde o fio da meada. Alguns anos depois, o diretor norte-americano William Friedkin prestaria uma homenagem à seqüência no premiado thriller “Operação França” (1971). Ele foi apenas um dos diversos cineastas que buscaram inspiração na obra-prima de Melville. John Woo dirigiu uma adaptação livre (“O Assassino”), e Quentin Tarantino roubou muitos elementos visuais para sua estréia cinematográfica, em “Cães de Aluguel” (1992).

Apesar do silêncio que perpassa todo o longa-metragem, Melville também encontra espaço para injetar humor sutil, quase imperceptível, na história. Ele abre o filme com uma citação (“Não há solidão maior do que a de um samurai, exceto talvez a de um tigre na selva”) atribuída ao Bushido, milenar livro japonês, mas que na verdade foi escrita por ele mesmo, Melville. O crítico Roger Ebert também observa que uma olhada atenta nas cenas localizadas dentro do apartamento do matador revela que ele não mantém nada dentro dos móveis – nenhuma peça de roupa, toalhas, papel higiênico, comida. Há, entretanto, inúmeras garrafas de água mineral e pacotes de cigarro – como se fossem “piscadelas” (expressão de Ebert) que o diretor nos dá, avisando que os espectadores atentos não estão vendo nada além daquilo que ele, Melville, deseja que vejamos. Nada mais, nada menos. Algo que apenas os melhores cineastas são capazes de fazer.

O DVD nacional leva o selo da Silver Screen Collection. É simples e não traz qualquer extra, ao contrário da excelente edição norte-americana da Criterion (que tem duas longas entrevistas com críticos especialistas em Melville, depoimentos antigos dos atores e do diretor e um libreto com 29 páginas contendo artigos, inclusive um assinado por John Woo). A cópia restaurada do filme garante a qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– O Samurai (Le Samuraï, França, 1967)
Direção: Jean-Pierre Melville
Elenco: Alain Delon, Nathalie Delon, Caty Rosier, François Périer
Duração: 105 minutos

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