Saneamento Básico – O Filme

13/12/2007 | Categoria: Críticas

Jorge Furtado insere questões sociais importantes numa comédia leve, brinca com metalinguagem e dá aula básica de cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O gaúcho Jorge Furtado é um dos cineastas mais prolíficos do Brasil. Para alcançar tal posto, em um país conhecido por impor grandes dificuldades aos diretores menos conhecidos, Furtado usa uma receita simples: histórias leves e bem-humoradas, atores conhecidos e um produtor de renome (Guel Arraes). “Saneamento Básico – O Filme” (Brasil, 2007) segue a linha dos anteriores “O Homem que Copiava” e “Meu Tio Matou um Cara”, e tem um trunfo extra: a metalinguagem utilizada de forma acessível. Desta forma, Furtado providencia um curso básico de cinema para amadores e ressalta a dificuldade de fazer filmes sem recursos. Ao mesmo tempo, ainda corta na própria carne, ao levantar uma questão incômoda: faz sentido investir dinheiro público em cinema, num país em que a maior parte da população não possui nem mesmo esgotos decentes?

Para preparar “Saneamento Básico”, Furtado seguiu fielmente a cartilha do mentor, Guel Arraes, para quem escreve textos (no cinema e na televisão) há vários anos – ou seja, planejar o roteiro de forma extremamente elaborada, de forma a reduzir a fase de filmagens e, desta forma, economizar dinheiro. O gaúcho levou dois anos para finalizar o texto do longa-metragem, cuja história é bastante simples mas também muito rica, cheia de camadas extras de significado (para quem quiser descobrir). As filmagens duraram menos de um mês e, desta forma, Furtado conseguiu atrair para o filme um elenco respeitável: Fernanda Torres, Lázaro Ramos, Paulo José, Bruno Garcia, Tonico Pereira, Wagner Moura e Camila Pitanga. Com os dois últimos, ainda ganhou um bônus, já que o filme foi lançado num momento em que ambos estão em evidência, devido ao enorme sucesso alcançado pelo par romântico na novela “Paraíso Tropical”, da TV Globo.

O ponto de partida de “Saneamento Básico” levanta várias questões relacionadas ao uso de dinheiro público na atividade artística. O filme começa com a eleição de uma comissão de moradores, numa pequena cidade gaúcha, para exigir da Prefeitura a construção de uma fossa. Sem dinheiro para a obra, avaliada em R$ 10 mil, os gestores públicos fazem uma proposta ousada. É que uma verba federal do mesmo montante consta do orçamento municipal, mas só pode ser liberada para a filmagem de um curta-metragem. A secretária municipal sugere uma forma de burlar a lei – se os moradores conseguirem fazer, sem custo, um filmeco vagabundo de 10 minutos, poderão pegar o dinheiro e construir a fossa. Marina (Fernanda Torres) e Joaquim (Wagner Moura), com a ajuda de Silene (Camila Pitanga) e Fabrício (Bruno Garcia), prometem fazer o tal filme, com a câmera amadora do último.

Com a reconhecida habilidade de roteirista, Jorge Furtado insere sinopse aparentemente simples críticas importantes ao funcionamento das leis de incentivo à cultura no Brasil. O filme em si não trava a discussão, mas a levanta com firmeza – é o tipo de debate que pode se estender entre os espectadores, após o filme, e tem potencial para muita polêmica. Já a história utiliza inúmeras referências sofisticadas ao cinema trash, de Ed Wood a John Waters, para dar à platéia uma aula básica de cinema. A maioria dos espectadores, que não tem idéia do trabalho de traduzir uma história em imagens, vão se espantar ao descobrir as complicações de mostrar sem dizer (“como se filma isso?” é a pergunta mais repetida pelos candidatos a cineastas). Questões sobre continuidade, figurino, patrocínio, direção de atores e até mesmo custos de produção são abordadas de maneira leve e muito divertida.

Numa das melhores cenas, a equipe descobre que precisa encontrar uma solução para rasgar o caro vestido da musa Silene e mostrá-la pelada, mas sem estourar o orçamento. A solução encontrada, apesar de criativa, poderia tranqüilamente estar em “Ed Wood”, a homenagem carinhosa de Tim Burton ao mundo do cinema trash. Espertamente, Jorge Furtado não exagera nas citações ao gênero, o que poderia transformar o longa-metragem numa paródia desconectada do mundo exterior. Com mão firme, o diretor gaúcho assume corajosamente a grande questão do filme: a culpa dos cineastas socialmente responsáveis por gastar dinheiro, fazendo arte para poucos, ao invés de investir na solução de alguns dos muitos problemas do país. E Furtado ainda faz isso sem perder o bom humor.

Um detalhe a lamentar é a direção irregular de atores, que entregam performances com estilos bem distintos. Enquanto Wagner Moura, Lázaro Ramos e o veterano Paulo José buscam um registro cômico, mas com um pé no realismo, Fernanda Torres e Bruno Garcia caem de cabeça na comédia histriônica, teatral, exagerada. A disparidade de estilos incomoda, especialmente nas seqüências mais agitadas – Camila Pitanga é um caso a parte, porque além de engolir os colegas com sua beleza esfuziante, o status de musa (tanto no filme quanto no filme dentro do filme) lhe dá o aval para subir nas tamancas. Além disso, o clímax é fraco e não amarra bem as duas camadas principais de conteúdo (a comédia leve e as questões sociais nas entrelinhas). Mesmo assim, é cinema popular de qualidade.

O DVD da Sony traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, um making of, cenas cortadas, erros de gravação e uma pequena animação.

– Saneamento Básico – O Filme (Brasil, 2007)
Direção: Jorge Furtado
Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia
Duração: 112 minutos

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