Sangue Negro

29/09/2008 | Categoria: Críticas

Paul Thomas Anderson mistura empreendendorismo e religião num épico ambicioso que realiza um magnífico estudo de personagem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Os livros de História chamam de Corrida do Ouro o período histórico em que milhares de aventureiros cruzavam o território empoeirado do oeste dos Estados Unidos, na segunda metade do século XIX, em busca da fortuna escondida no subsolo da parte mais selvagem do país. O minerador Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) fazia parte desta multidão de maltrapilhos quando chegou ao Texas, em 1898, e escavou uma mina de prata num pequeno lote de terras. Nos anos seguintes, ele desviaria seu foco para outro produto milionário. Enquanto se tornava um dos maiores magnatas do petróleo dos EUA, Plainview caía progressivamente num isolamento de proporções colossais. A saga de ascensão e queda deste empreendedor obsessivo é o fio condutor de “Sangue Negro” (There Will Be Blood, EUA, 2007), quinto filme do talentoso diretor Paul Thomas Anderson.

Desde a estréia, no thriller independente “Jogada de Risco” (1992), Anderson vem cultivando um respeitado status autoral dentro de um mercado cinematográfico dominado por interesses comerciais. Seus dois trabalhos mais conhecidos – “Boogie Nights” (1997) e “Magnólia” (1999) – lhe deram a fama de ser um forte candidato a sucessor de Robert Altman, dada a evidente habilidade do diretor em construir filmes multiprotagonistas, em que inúmeros personagens vivem diferentes histórias que colidem e se cruzam indistintamente. Com “Sangue Negro”, PT Anderson não apenas se afasta das narrativas apinhadas de gente, mas também muda radicalmente de tom. O longa-metragem assume a grandiloqüência e a ambição de um épico, que cruza o estilo operístico de Francis Ford Coppola com a precisão matemática de Stanley Kubrick.

O hiato de quase seis anos que separa “Sangue Negro” do filme anterior de Anderson, “Embriagado de Amor” (2002), é apenas um dos indicativos que aproximam a obra dele dos filmes de Kubrick. Perfeccionista e meticuloso, o jovem cineasta decidiu dar uma guinada na carreira antes de mergulhar na produção do quinto filme. A decisão de adaptar livremente o romance “Oil!”, escrito nos anos 1920 por Upton Sinclair, veio bem a calhar. O roteiro de “Sangue Negro”, escrito pelo próprio PT Anderson, altera os nomes dos personagens e se apóia apenas na primeira parte do livro, transformando uma história simples, um afresco panorâmico da corrida pelo petróleo na Califórnia do começo do século XX, em um impressionante estudo de personagem.

Interpretado de forma agressiva e visceral pelo camaleão Daniel Day-Lewis, Plainview é uma esfinge, um enigma. Ele encapsula com perfeição uma característica fundamental da cultura americana: a capacidade empreendedora extraordinária, que chega às raias da obsessão. Homem de tenacidade inabalável e energia inesgotável, o magnata é o tipo de sujeito que vê mais longe do que os demais. Daniel adota o bebê órfão de um empregado porque gosta da idéia de ter um futuro menos solitário, mas sobretudo porque sabe que uma criança pode ser útil para os negócios, dando-lhe um aspecto amistoso e familiar perante as pessoas humildes com quem negocia terras. Seu humor oscila terrivelmente; parece charmoso e afável num minuto, se torna rude e cínico no seguinte. Ele tem uma personalidade volátil e misteriosa. Para Plainview (o sobrenome, cuja tradução livre seria algo como “visão simplista”, é de ironia feroz), o mundo gira em torno da riqueza pessoal.

Em tese, o fascinante magnata do petróleo teria tudo para se tornar um daqueles milionários trágicos que o cinema épico norte-americano tanto gosta de retratar, a exemplo de Michael Corleone (“O Poderoso Chefão”) ou Charles Foster Kane (“Cidadão Kane”). Um detalhe essencial diferencia o protagonista de “Sangue Negro” desses dois exemplos: Daniel Plainview não tem um passado nostálgico ou uma família a que se apegar. Plainview é um absoluto misantropo (“Eu odeio os homens. Meu sonho é ganhar dinheiro suficiente para me afastar de todos”, revela ele, num dos raros instantes de franqueza, em que se mostra vulnerável). Tanto ódio não tem qualquer motivo freudiano, nenhum trauma do passado ou coisa parecida. Daniel Plainviwe é uma força da natureza – e é assim, com a energia de um furacão e a convicção de uma freira virgem, que Daniel Day-Lewis se entrega ao personagem.

A trajetória ascendente de um homem tão orgulhoso e obsessivo não poderia ser interrompida por ninguém que não ele mesmo. Embora enfrente obstáculos duros – adversários mais ricos na luta pelo petróleo, rancheiros teimosos que não querem vender terras valiosas, o aparecimento inesperado de um irmão bastardo e, acima de todos os anteriores, a rivalidade acirrada com o jovem e carismático pastor Eli Sunday (Paul Dano) – Daniel Plainview não é um homem que se dobra a algo ou alguém. É por isso que o terceiro ato do longa-metragem, que apresenta alguma semelhança com o de “O Aviador” (2004) e foi duramente questionado pelos críticos norte-americanos, faz todo o sentido do mundo para quem não vive naquele país.

Trata-se, afinal, de um clímax cuidadosamente orquestrado pelo diretor, que filmou de modo sabiamente discreto, nas duas horas anteriores de projeção, o próprio magnata armando sem querer os mecanismos que o levariam à autodestruição. Paul Thomas Anderson conta a saga de 30 anos deste enigma humano explorando, de forma magnífica, todos os recursos visuais e sonoros de que dispõe: a fotografia de Robert Elswit (“Boa Noite e Boa Sorte”), recheada de longas tomadas em que Day-Lewis e Paul Dano travam embates verbais eletrizantes, oscila entre ensolarados panoramas exteriores e escuras cenas de interiores, capturando visualmente a personalidade volátil do personagem; as melodias atonais e requintadas de Jonny Greenwood (guitarrista do Radiohead) subvertem tudo o que se espera de uma trilha sonora normal; a montagem precisa valoriza as texturas empoeiradas criadas pela precisa direção de arte de Jack Fisk (observe a clareza da narrativa dos primeiros 15 minutos, que não contêm um único diálogo!).

Paul Thomas Anderson é reconhecido desde sempre como um cineasta ambicioso, e “Sangue Negro” faz jus a esta ambição. Ao misturar empreendedorismo com religião, família com obsessão, corrupção com apego à terra (a primeira aparição de Plainview, convenientemente alegórica, o mostra erguendo-se de um buraco no solo), o diretor deixa evidente a tentativa de criar, como bem observou a crítica Isabela Boscov, o equivalente cinematográfico do “grande romance americano”, como são chamadas as narrativas literárias que buscam encapsular os valores essenciais do país. Tamanha ambição, aliás, é outro elemento que aproxima o trabalho de Anderson ao de Coppola e Kubrick. Talvez ele não tenha conseguido alcançar o objetivo plenamente, mas chegou bem perto disso.

O DVD da Buena Vista, simples, contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Um pequeno featurette com imagens históricas completa o disco.

– Sangue Negro (There Will Be Blood, EUA, 2007)
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Dillon Freasier, Kevin J. O’Connor
Duração: 158 minutos

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