Scott Pilgrim Contra o Mundo

06/04/2011 | Categoria: Críticas

Geeks dominam o mundo nessa comédia juvenil hiperativa que mistura cinema, games e quadrinhos com muitas interferências gráficas na película e narrativa romântica bobinha

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O Santo Graal da geração de cineastas que emergiu no cenário cinéfilo internacional na primeira década do século XXI parece ser a criação de uma experiência audiovisual que reúna cinema, jogos eletrônicos e quadrinhos em uma mesma narrativa. Diversos diretores têm trabalhado nessa interseção. Alguns investem em enredos intrincados que se desdobram em várias plataformas midiáticas (“Matrix”). Outros apenas tentam trazer para o cinema técnicas criadas ou aperfeiçoadas nas outras mídias (“Sin City”, “300”). Uma das tentativas mais interessantes desse segundo grupo de diretores tomou a forma de “Scott Pilgrim Contra o Mundo” (Scott Pilgrim Vs. The World, EUA/Inglaterra, 2010).

Inspirada nos quadrinhos pop criados por Bryan Lee O’Malley, o longa-metragem do inglês Edgar Wright mergulha fundo na estratégia de importar – através de técnicas de montagem, edição de som, efeitos especiais e música – certas ferramentas narrativas utilizadas nos quadrinhos e nos jogos eletrônicos para uma estrutura narrativa cinematográfica tradicional: três atos, um protagonista, um vilão, uma mocinha e alguns obstáculos pelo caminho. “Scott Pilgrim” é a história mais velha do universo depois de tomar um banho de loja pop-juvenil do século XXI. Nada de errado com isso, que fique claro. Apenas não faz sentido falar do filme como se ele tivesse reinventado a roda, como querem alguns fãs de primeira hora por aí.

O enredo focaliza Scott Pilgrim (Michael Cera), baixista de uma bandinha alternativa, cuja caracterização talvez seja o elemento mais curioso de “Scott Pilgrim”, algo como “a vingança tardia dos geeks”. Ele é bobo, feio e magricela, mais ou menos o tipo que se esperaria de um saco de pancadas dos garotões malvados de alguma escola secundária nos cafundós dos Estados Unidos, se essa fosse uma comédia de John Hughes feita nos anos 1980. Mas não é, e os tempos são outros, de forma que nosso adorável cara-de-nerd que usa um chapéu do Chaves agora é o herói teen de sua cidadezinha, e usa essa pseudo-fama para namorar Knives Chau (Ellen Wong), adolescente de 17 anos bobinha e absolutamente encantada com o fato de um semi-ídolo olhar para ela.

Ocorre que Scott não está realmente interessado em Chau, e basta aparecer uma moça de cabelos coloridos e personalidade (Mary Elizabeth Winstead) para que seu interesse romântico seja realinhado instantaneamente. Mas há obstáculos para que ele possa curtir a nova paixão, uma garota mais velha, mais experiente e que vem da cidade grande, ora pois – de onde mais ela viria? E esses obstáculos são muito concretos: uma galeria bizarra de ex-namorados, a quem Scott precisa vencer em lutas que parecem saídas de uma partida de Mortal Kombat, para poder namorar sua nova gata em paz. Uma trama, como se vê, simples e básica.

Eliminar toda e qualquer idéia ousada da trama para poder inventar até não poder mais na forma é uma estratégia estilística seguida por praticamente todos os diretores mais formalistas (Baz Luhrmann que o diga). Edgar Wright segue essa estratégia, e se sai bem. Seu filme acerta no tom estridente e juvenil (quem tem mais de 30 anos provavelmente vai achar o filme bobo e pensar que tudo ficará datado rapidinho, e com razão), em praticamente todos os departamentos: a direção de arte meticulosamente desarrumada, os figurinos e cabelos coloridos que ajudam na identificação emocional entre platéia e personagens, a montagem e os efeitos visuais simples que abusam das interferências gráficas na película (são muitas as técnicas inspiradas nos videogames, especialmente nas divertidíssimas cenas de luta entre Pilgrim e os ex-namorados de sua amada), música e efeitos sonoros (basta checar a genial abertura com o logo da Universal em 8 bits).

Evidentemente, “Scott Pilgrim” não é um filme para todo mundo. Quem não tem muita paciência com cinema hiperativo para adolescentes deve passar longe desse filme. De modo geral, não dá para dizer que o filme de Edgar Wright inova ou avança muito em alguma direção, no que toca aos produtos híbridos entre cinema, games e quadrinhos. Mas o diretor inglês explora aspectos estilísticos das três mídias com criatividade e humor, cria diálogos divertidos, escolhe direitinho as canções e entrega um filme que esbanja energia despretensiosa, o que é sempre um aspecto positivo. Isso sem falar de Michael Cera, consolidando cada vez mais sua persona de ídolo geek de sua geração.

– Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim Vs. The World, EUA/Inglaterra, 2010)
Direção: Edgar Wright
Elenco: Michael Cera, Jason Schwartzman, Mary Wlizabeth Winstead, Ellen Wong
Duração: 112 minutos

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