Se Beber, Não Case

14/01/2010 | Categoria: Críticas

Exemplar típico da nova comédia masculina americana, filme de Todd Philips é povoado por personagens fetichistas que tentam provar o tempo todo como são machos e engraçados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A comédia romântica é o mais feminino dos gêneros clássicos do cinema. De fato, talvez seja o único que tem como público-alvo potencial as mulheres. Enquanto os homens (historicamente a audiência mais abundante) sempre consumiram o horror, o thriller e o western, as garotas ficavam com as comédias românticas e, ocasionalmente, o melodrama. A partir da década de 1980, contudo, as comédias de costumes foram se tornando cada vez adolescentes – e masculinas. Esse fenômeno acabou por gerar um subgênero curioso, que explodiu comercialmente nos primeiros anos do século XXI, em particular a partir dos filmes dirigidos e/ou produzidos por Judd Apatow (“O Virgem de 40 Anos”).

“Se Beber, Não Case” (The Hangover, EUA, 2009) – com o devido desconto do ridículo título nacional – é cria deste subgênero. Usando a amizade masculina como tema central, o filme de Todd Philips incorpora uma série de outras situação dramáticas típicas de filmes masculinos com aura de macho do meio-oeste americano: despedidas de solteiro, farras homéricas regadas a álcool e drogas em Las Vegas, e até mesmo pitadas de thriller de mistério. O coquetel rende uma alquimia que parece algo nascido de um cruzamento entre “Vamos Nessa” e “Swingers – Curtindo a Noite” (ambos de Doug Liman) e “Penetras Bons de Bico” (David Dobkin), temperado com uma sensibilidade estridente que parece derivada do pior que existe em “Corra Lola Corra” (Tom Tykwer), e ainda por cima sem personagens consistentes.

A história começa como uma trama de Agatha Christie dirigida por algum membro do Monty Python. Após uma bebedeira monumental em Las Vegas, durante a despedida de solteiro de Doug (Justin Bartha), três amigos acordam de ressaca num quarto de hotel. Ninguém se lembra do que aconteceu na noite anterior, mas os indícios não são nada bons. Há um tigre (?) no banheiro e um bebê dentro de um armário. Um dos rapazes perdeu um dente. O colchão de outro está pendurado num ornamento da fachada do hotel. O caríssimo Mercedes do pai da noiva sumiu, e em seu lugar está… um carro da polícia (!!).

Aparentemente, um dos rapazes agora está casado com uma stripper. E isso tudo é só o começo de um dia estranhíssimo (ou, pensando bem, nem tão estranho assim) na Cidade do Pecado, em que eles precisam descobrir o paradeiro do quarto integrante da farra, que é justamente o noivo. Para isso, obviamente, o trio tem que se entregar a uma frenética tentativa de reconstituição da famigerada noite de festa, e isso inclui visitas a hospitais, igrejas e delegacias de polícia, além de um par de encontros inusitados que podem se tornar desagradavelmente violentos.

Estruturada como um thriller de suspense, mas recorrendo o tempo inteiro a diálogos tão expositivos quanto inverossímeis, a investigação se sucede em ritmo alucinante, enquanto personagens idiossincráticos entram e saem de cena rapidamente, incluindo uma garota de programas desmiolada (Heather Graham), um empresário japonês homossexual e até mesmo o lutador Mike Tyson em pessoa. Há bons momentos – especialmente o primeiro ato, que registra as reações incrédulas do trio – mas, infelizmente, os personagens são unidimensionais e desinteressantes. Nada do que eles falam faz muito sentido, algumas piadas têm o gosto de cabo de guarda-chuva de uma ressaca, e em nenhum momento conseguimos acreditar, por um segundo sequer, que qualquer daqueles sujeitos tem um pingo de humanidade.

Nesse ponto, qualquer das produções realizadas pela turma de Judd Apatow (inclusive o bom e adolescente “Superbad”) supera “Se Beber, Não Case” em muito; aquele diretor e roteirista sabe construir personagens factíveis, sólidos, e isso faz a diferença entre um filme engraçadinho e vazio, e outro engraçadinho e com alma. Apesar disso, o sucesso alcançado nas bilheterias norte-americanas (onde “Se Beber, Não Case” ficou duas semanas no topo da lista de filmes mais vistos, superando a barreira de US$ 100 milhões arrecadados em apenas 10 dias) deixa claro que as comédias românticas masculinas estão mesmo na crista da onda. Ainda que as demonstrações de amizade de macho, cheias de abraços à distância e insinuações de homofobia explícitas, pareçam mais enrustidamente gays do que exatamente masculinas.

O DVD simples da Warner é bastante enxuto. Além do filme, com formato correto de imagem (wide anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), os extras incluem um mapa de Las Vegas com os locais mostrados no filme (cada local tem pequenos clipes com making ofs de dois ou três minutos), uma seção de erros de gravação e trechos em que os atores tentam cantar.

– Se Beber, Não Case (The Hangover, EUA, 2009)
Direção: Todd Philips
Elenco: Bradley Cooper, Ed Helms,Zach Galifianakis, Justin Bartha
Duração: 100 minutos

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