Se Eu Fosse Você

30/05/2006 | Categoria: Críticas

Comédia põe Tony Ramos interpretando mulher e Glória Pires no papel de um homem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Daniel Filho é um dos gurus da telenovela brasileira, e possui uma carreira de sucesso na TV, mas vem sendo responsável, como produtor ou diretor, por alguns dos longas-metragens mais controversos do cinema brasileiro. Via de regra, ele faz filmes como se produzisse uma novela das oito, e por isso todos esses trabalhos parecem se passar num mundo alternativo, um lugar limpinho e asséptico de plástico e fórmica, que não tem textura nem aparência de realidade. “Se Eu Fosse Você” (Brasil, 2006) é um pouco superior a “A Partilha” e ao abominável “Sexo, Amor e Traição”, mas ainda assim apresenta essa mesma cara artificial.

Trata-se de uma comédia romântica com um toque de realismo fantástico, gênero que Hollywood adora revisitar de tempos em tempos. A premissa básica é a seguinte: em um dia como outro qualquer, o casal Cláudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) acorda e percebe que a consciência de um foi parar no corpo do outro. Assim, temos um homem com a mente de uma mulher e vice-versa. A idéia é interessante, mas seu background não é muito promissor, já que entre seus filmes similares que seguiram a mesma veia cômica estão bobagens como “Do Que as Mulheres Gostam”, com Mel Gibson, e “Todo Poderoso”, com Jim Carrey.

Uma olhada nos créditos dispara sensações conflitantes. O nome da produtora Total Entertainment, responsável pelo chatíssimo “Avassaladoras”, dá calafrios; por outro lado, a presença da pernambucana Adriana Falcão (da telessérie “A Grande Família”) é um bom indicativo, bem como o casal protagonista. O desfile de rostos globais em papéis secundários, alguns de pouca importância (Ary Fontoura faz uma ponta em duas cenas, Patrícia Pillar tem apenas um momento), acaba sendo prejudicial à obra, pois reforça a impressão que o filme passa de ser uma telenovela exibida em tela grande. Ademais, quase todo o elenco aparece afetado, interpretando sempre acima do tom e tornando toda a fauna de personagens um bando de caricaturas artificiais.

O que salva “Se Eu Fosse Você” é o casal de protagonistas. Dois dos atores brasileiros mais amados pelo público, Tony Ramos e Glória Pires dá show, em interpretações bem calibradas de papéis complicados. Ele, especialmente, marca um golaço conseguir registros de delicadeza sem parecer afetado, no papel da mulher que tem horror do corpo que ocupa, mas não consegue esconder a curiosidade de saber onde o marido anda escarafunchando após o expediente. Ela não fica muito atrás; em determinada cena, precisa contar uma piada escrachada cheia de palavrões, e se sai muito bem (pena que Daniel Filho deu um jeito de eliminar a parte mais suja da piada, algo que reforça ainda mais o aspecto asséptico do filme como um todo). De qualquer modo, o texto reserva mais tempo de tela para Tony.

O roteiro, escrito a oito mãos, possui alguns acertos, mas um número bem maior de problemas. Sim, existem cenas engraçadas aqui e acolá (a seqüência com Tony Ramos dançando na piscina, a tentativa de ambos de fazer sexo com os corpos trocados), mas muitas outras forçam a mão sem motivo e tornam-se constrangedoras (a terrível coreografia de Tony junto com Patrícia Pillar, a aparição do histérico Jorge Fernando como um ufólogo que parece saído de um espetáculo de Carmem Miranda). Em resumo, o texto é irregular e desigual, apelando excessivamente para clichês mais batidos do que a cara do Mike Tyson.

O pior de tudo, porém, é a construção equivocada dos personagens, que explora ao máximo convenções de ordem sexual. Ou seja, o filme assume que todo homem é egoísta, preguiçoso e tem índole mulherenga; e que as mulheres são seres delicados e altruístas, mas um tanto fúteis. Confirma, ainda, outras tantas convenções sociais que estamos acostumados a ver nos filmes sobre a alta roda brasileira – todo empresário tem e dá em cima de uma secretária gostosa, por exemplo.

No final, é evidente que “Se Eu Fosse Você” mira em um público já experimentado por outras produções de igual calibre: os casais de classe média. Mas é o típico caso da produção cujo maior mérito é, também, o defeito mais grave. Tony Ramos e Glória Pires foram escolhidos para os papéis por serem ícones carimbados da TV e por terem, ambos, talento comprovado. No entanto, eles não geram empatia para uma platéia com menos de 30 anos. E o humor é previsível demais.

O DVD, da Fox, traz o filme com imagem wide anamórfica e áudio Dolby Digital 5.1. Os extras incluem um making of, galeria de entrevistas e erros de gravação, totalizando pouco mais de 30 minutos.

– Se Eu Fosse Você (Brasil, 2006)
Direção: Daniel Filho
Elenco: Tony Ramos, Glória Pires, Thiago Lacerda, Danielle Winits
Duração: 110 minutos

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