Segredo de Berlim, O

22/08/2007 | Categoria: Críticas

Irregular e de técnica excessiva, filme de Soderbergh é prato cheio para quem curte filmes noir ambientados no pós-guerra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Steven Soderbergh é, além de cineasta de talento, um estudioso de filmes antigos. Além disso, tem usado o poder adquirido em Hollywood por causa da bem-sucedida franquia iniciada com “Onze Homens e Um Segredo” (2001) para comandar projetos diferentes, ousados, com um pé no filão do filme de arte. “O Segredo de Berlim” (The Good German, EUA, 2006) une as duas facetas de Soderbergh – o estudioso e o artista engajado – em uma impecável emulação de noir pós-guerra. É um filme imperfeito, de narrativa truncada e técnica excessiva, mas também um prato cheio para os amantes (como ele e eu) dos filmes B produzidos na década de 1940.

Embora filmado inteiramente em estúdio, em Los Angeles (EUA), o complicado enredo, pinçado de um romance escrito por Joseph Kanon, ambienta uma trama de espionagem clássica nos escombros da Berlim de 1945, arrasada pelos bombardeios da II Guerra Mundial. Os três personagens principais formam um triângulo amoroso. O pano de fundo é a lendária Conferência de Potsdam (cidade vizinha a Berlim), quando os presidentes dos EUA, URSS e Inglaterra se reuniram para desenhar o mapa do pós-guerra na Europa. O capitão-jornalista Jake Geismer (George Clooney, competente) chega à Alemanha para cobrir o encontro, mas com a intenção real de reencontrar uma antiga paixão, a alemã Lena Brandt (Cate Blanchett, misteriosa, mas deficiente no sotaque alemão). Não se passam dois dias e ele descobre que a ex-amante é agora namorada do soldado Patrick Tully (Tobey Maguire, ótimo), designado para servi-lo como motorista. Coincidência?

A abordagem de Soderbergh para filmar os intrincados (e inesperados) desdobramentos deste triângulo foi radical. Ele dispensou o uso de tecnologia moderna para filmar com réplicas dos equipamentos utilizado na Hollywood dos anos 1940. Microfones e lentes, por exemplo, são antigos. A excentricidade forçou todos os envolvidos na produção a redimensionar suas atividades. O uso destes equipamentos, afinal, implicava em limitações para todo mundo. A câmera, por exemplo, não podia ficar muito longe da ação a ser filmada, pois o zoom funcionava de forma precária naquela época. Os atores também foram obrigados a falar mais alto, de forma pausada e clara, para que as palavras pudessem driblar a captação deficiente de áudio. Na impossibilidade de filmar em locação (porque, obviamente, a Berlim de 1945 não tem nada a ver com a atual), Soderbergh construiu todos os sets em estúdio, recusando-se a usar trucagens digitais, o que poderia baratear os custos.

Parece obsessivo em excesso? Pois o cineasta foi ainda mais longe, decidindo filmar no formato 1.66:1, que gera uma imagem mais quadrada do que o normal, ligeiramente mais larga do que o formato das TVs (1.33:1). A decisão provocou um problema aparentemente insolúvel, pois os cinemas do século XXI não estão equipados com projetores capazes de transmitir uma imagem no formato 1.66:1 (hoje em dia, o formato mais estreito utilizado pelos diretores em todo o mundo é o 1.85:1). O que fez Soderbergh? Filmou em 1.85:1 e, na fase de pós-produção, mandou colocar barras negras nas laterais da imagem, de forma que a projeção atingisse exatamente a proporção desejada. Resumindo, Soderbergh é o tipo de diretor que os produtores têm verdadeiro pavor de encontrar. Por sorte, em “O Segredo de Berlim” o produtor era o próprio cineasta, que bancou a película através da produtora Section Eight, que mantinha com Clooney na época das filmagens.

A teimosia obsessiva gerou um filme tecnicamente impecável, que emula com perfeição absurda um filme B dos anos 1940. O cineasta copia os cacoetes do estilo noir nos mínimos detalhes, e isto inclui uma edição que usa takes mais longos do que o habitual. A trilha sonora, composta por Thomas Newman, também parece retirada diretamente de um filme barato daqueles dias. A música, que percorre todo o filme praticamente sem pausas, dispensa metais e percussão (um luxo que só grandes produções tinham na época) e ganha arranjos exclusivamente de instrumentos de corda – vale observar que o diretor recusou uma trilha completa, feita por David Holmes, porque a música não se parecia o suficiente com a produzida na década de 1940. Como se não bastasse, a fotografia assinada pelo próprio Soderbergh privilegia ângulos oblíquos e capricha na iluminação expressionista, de fortes contrastes e muitas sombras.

Insistentemente comparada pela crítica internacional com o suspense pós-guerra “O Terceiro Homem” (1949), por ser ambientada nos escombros de uma capital européia, a produção de Soderbergh também traz ecos de outros dois grandes filmes do período: “Casablanca” (1942), por causa dos detalhes íntimos relacionados ao triângulo amoroso, e principalmente “Ilusão Perdida” (1950). Este último, filmado nos escombros reais do pós-guerra em Berlim, oferece não apenas um panorama completo da situação caótica da cidade – o mercado negro, a prostituição, a divisão da cidade em quatro áreas – como também tem um soldado, interpretado pelo astro Montgomery Clift, que claramente inspirou o personagem de Tobey Maguire. O resultado é ótimo para interessados no cenário do pós-guerra e no gênero noir. Pode não ser um bom programa, contudo, para aqueles que desconhecem as idiossincrasias da Alemanha na época da guerra. Saber como as coisas funcionavam n época é fundamental para compreender o quadro geral.

Apesar do brilhantismo técnico e do esmero na montagem do pano de fundo político, Soderbergh não fez um filme perfeito, e o principal ponto falho é o roteiro de Paul Attanasio. Um dos maiores problemas vem da tripla narração em off, já que cada parte da história (abertura, desenvolvimento e clímax) é contada por um dos três personagens principais, com abundante narração em off. A troca sucessiva de ponto de vista acaba se mostrando um recurso não muito eficiente para clarear, aos poucos, as sombras que pairam sobre cada vértice do triângulo. Assim, “O Segredo de Berlim” revela os detalhes da história de modo oblíquo, irregular, e a trama termina por deixar muitas pontas soltas. É o típico caso de filme que a técnica se sobrepõe excessivamente ao conteúdo, embora a ousadia de Soderbergh tenha que ser admirada.

O DVD da Warner é simples e sem extras. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– O Segredo de Berlim (The Good German, EUA, 2006)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: George Clooney, Cate Blanchett, Tobey Maguire, Beau Bridges
Duração: 105 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


3 comentários
Comente! »