Segredo de Brokeback Mountain, O

07/11/2006 | Categoria: Críticas

Ang Lee realiza um tratado singelo de delicadeza e humanidade sobre amor e sexualidade, que não cabe no rótulo de ‘faroeste gay’

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Críticos de cinema adoram rótulos. E rótulos, como todos sabem, quase sempre são simplificações. “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain, EUA, 2005) é uma vítima dessa prática. O belo melodrama sobre o amor impossível entre dois homens ganhou a alcunha de “faroeste gay”. A expressão pode passar a impressão de que Ang Lee fez um libelo engajado na causa homossexual, colocando bichas afetadas para passear no mundo muito macho de John Wayne. Mas não é nada disso: “O Segredo de Brokeback Mountain” é um tratado singelo de delicadeza e humanidade sobre amor e sexualidade, e um filme maduro, que não cabe na alcunha preconceituosa e agrada a qualquer pessoa que goste de cinema, independente da preferência sexual.

Para começar, o longa-metragem do diretor nascido em Taiwan não é sequer um faroeste, no sentido clássico da palavra, porque não se passa na época do Velho Oeste (a virada do século XIX para o XX). É verdade, contudo, que o filme de Ang Lee bebe na iconografia do gênero clássico norte-americano, explorando a imagem dos homens com chapéu de feltro e as belas paisagens naturais da região. A história tem vez no Wyoming, na área rural dos EUA, cujos pastos e montanhas fornecem cenários familiares aos fãs de westerns. O drama começa em 1963 e é cinema clássico, de narrativa limpa e sem gorduras, que subverte sutilmente as convenções do melodrama ao tratar da sexualidade com honestidade e naturalidade não muito comuns em Hollywood.

Um dos muitos acertos de Ang Lee, talvez o maior deles, é evitar a todo custo a tentação de utilizar a história de Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) para passar uma mensagem moral ao espectador. O filme não julga os personagens, não tenta encontrar justificativas para as ações deles, não os explica; apenas narra o caso de amor dos dois com objetividade. Nesse sentido, o longa-metragem tem algo do estilo de Krzysztof Kieslowski, pois dramatiza uma idéia simplesmente contando uma história, sem comentá-la e sem procurar utilizá-la como símbolo de algo maior. É a história que importa, apenas ela.

Ao agir dessa forma, Lee deixa que cada membro da platéia interprete o filme de acordo com sua própria carga afetiva. Na base de tudo, estão dois seres humanos obrigados a sufocar uma paixão por conta de convenções sociais. A paixão de Ennis é Jack, e vice-versa, mas eles poderiam gostar de um esporte, uma profissão, uma mulher prometida a outro. Nesse sentido, “O Segredo de Brokeback Mountain” não é um filme gay, mas integra o filão das obras que caracterizam a instituição social como um monstro castrador, que limita os comportamentos individuais e, nos casos mais dramáticos, arruína a vida das pessoas – Shakespeare já falava disso em “Romeu e Julieta”, apenas para ficar com um exemplo conhecido. Bem, mas essa é apenas uma interpretação possível. O filme não força essa barra.

Uma análise mais detalhada pode até sugerir outros temas que não o amor impossível. A sexualidade ganha, por exemplo, uma visão sensível e complexa, um conceito muito mais abstrato e complexo de definir do que simplesmente encaixando preferências sexuais em categorias como “homo” e “hetero”. É possível até traçar um paralelo interessante entre esse aspecto do filme e sua recepção pela crítica. Se taxar “O Segredo de Brokeback Mountain” com o rótulo de “faroeste gay” é uma atitude simplificadora, o mesmo pode ser dito daqueles que classificam Jack e Ennis de “bichas”. Certamente os dois não cabem nesse conceito. Não são afetados ou efeminados, não gostam exclusivamente de pessoas do mesmo sexo. Ennis nem mesmo se sente atraído por qualquer outro homem que não seja Jack. Eles simplesmente gostam um do outro. Não sabem explicar o sentimento, nem lidar com ele.

“O Segredo de Brokeback Mountain” é um grande filme desde os primeiros minutos de projeção, e a primeira parte, que mostra o encontro e o envolvimento de Jack e Ennis, é uma obra-prima irretocável, que corre tranqüila, no seu próprio tempo, embalada por suaves melodias country ao violão. Chapéus de feltro, botas e calças jeans apertadas, sem dinheiro no bolso, os dois arrumam como trabalho temporário a tarefa de cuidar de ovelhas durante o inverno, numa fazenda afastada da civilização. Têm que passar meses a fio sofrendo com frio, fome, tédio e solidão, no meio do mato. Em certa noite especialmente gelada, os dois acabam fazendo sexo (em uma cena ousada e cheia de virilidade). No dia seguinte, estão chocados. “Não sou bicha”, avisa Ennis. “Nem eu”, rebate Jack. OK. Na noite seguinte, a dança do acasalamento se repete. Estão apaixonados.

O fim do inverno marca a chegada da realidade ao mundo idílico dos dois. A partir daí, os caminhos se bifurcam, e cada um precisa lidar com a situação. Não é fácil. Eles percebem que se amam, mas não compreendem esse amor, lutam contra ele, não o aceitam (o preconceito também está dentro deles), e temem as conseqüências. Especialmente o taciturno Ennis (“Você não é de falar”, diz uma garota interessada no caubói, que responde com um sisudo “é”). Quando garoto, Ennis foi levado pelo pai em uma excursão macabra, para ver o cadáver mutilado de um vaqueiro que vivia com outro homem. O objetivo da visão infernal era mostrar ao garoto o que aconteceria com ele, caso não gostasse de meninas. O episódio, narrado em rápido flashback, é um fantasma que percorre todo o filme e dá um significado simbólico à história, tão simples quanto poderoso.

Ennis é o grande personagem de “O Segredo de Brokeback Mountain”. Calado, de semblante permanentemente triste, o vaqueiro jamais permite que Jack ou qualquer outra pessoa o conheça de verdade. O mesmo vale para a platéia; embora a câmera de Ang Lee acompanhe a trajetória do rapaz bem de perto, a falta de palavras e de ações que o definam jamais permite que espectador saiba quem ele realmente é. No entanto, sentimos e seu sofrimento, sublinhado lindamente pela câmera de Ang Lee através da progressiva diminuição dos espaços abertos ao seu redor (no fim do filme, ele está morando num trailer apertado). Talvez o próprio Ennis não saiba quem é; a cena mais significativa, nesse sentido, é o momento do reencontro dos dois amigos, quatro anos depois do inverno inesquecível na montanha Brokeback, em que Ennis revela um lado seu que ninguém, nem a esposa e nem a platéia, conhecia até ali.

A interpretação minimalista – mastigando as palavras, quase sem gestos, de olhares cabisbaixos e rosto cheio de linhas de tensão, quase como um Clint Eastwood jovem – do ator australiano Heath Ledger é perfeita, completamente adequada. A energia colocada em cena por Jake Gyllenhaal não fica atrás, mas Jack Twist é um personagem diferente. Não é um homem exatamente expansivo, mas tem bom humor e sabe conversar; é mais sociável. Isso lhe ajuda a lidar um pouco melhor com a questão da sexualidade. Ele consegue assumir a paixão por Ennis com mais naturalidade e descobre aos poucos a natureza homossexual da sua própria vida, assumindo que o que sente pelo amigo não é algo isolado do resto da sua existência.

A trama de “O Segredo de Brokeback Mountain” não se restringe aos dois vaqueiros, abordando também a convivência complicada de ambos com as respectivas famílias – e esse é um grande acerto. No que toca a essa abordagem, “O Segredo de Brokeback Mountain” desenha com linhas firmes a maneira como o drama dos dois repercute não apenas na vida deles, mas também nas vidas de todos aqueles que gravitam ao redor. Os familiares também sofrem, embora às vezes não entendam exatamente o porquê. Alguns até sentem o amor impossível entre os dois, no ar, mas não sabem como abordar o assunto. Exatamente como aconteceria do lado de cá da tela.

Ang Lee narra essa história de amor de maneira simples e contida, com poucos diálogos, em um filme pontuado por um silêncio melancólico que é acentuado ainda mais pela trilha sonora esparsa e calma. A parte visual é marcada pela ênfase nas paisagens naturais do Wyoming, especialmente na primeira fase do filme, mas a câmera de Lee também sabe explorar o rosto cheio de linhas de Ledger e o ar travesso de Gyllenhaal, contrapondo-os como pessoas e traduzindo o sofrimento de ambos a partir do contraste de olhares. Em resumo, este é um filme belo e triste, que emociona de verdade e possui um dos melhores finais de 2005.

A Europa Filmes lançou duas versões do filme em DVD no Brasil. O disco para locação, simples, tem apenas o filme, com imagem que preserva o enquadramento original (widescreen anamórfico), som razoável (Dolby Digital 2.0) e nenhum extra. Já a versão para venda é dupla, contém o filme com excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), mais um disco extra contendo quatro documentários (um making of e featurettes sobre o diretor, os atores e a confecção do roteiro, somando ao todo 45 minutos).

– O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, EUA, 2005)
Direção: Ang Lee
Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway
Duração: 124 minutos

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