Segredo dos Seus Olhos, O

14/09/2010 | Categoria: Críticas

Juan José Campanella volta a misturar humor e dor com perícia, criando thriller criminal que também é bela história de amor, traz atores perfeitos e proezas técnicas consideráveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Na superfície, “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos, Argentina, 2009) funciona como um thriller criminal em que, no espaço de 25 anos, um oficial de justiça investiga o paradeiro de um homem (Javier Godino) acusado de matar e estuprar uma mulher. Espectadores interessados em entretenimento ligeiro podem lê-lo desta maneira, e terão visto um bom filme. Mas a obra de Juan José Campanella, como os melhores melodramas, esconde outras possibilidades de leitura. “O Segredo dos Seus Olhos” é, também, uma bela história de amor. Também é um thriller político, na medida em que comenta, com sutileza e mordacidade, a violência da ditadura militar argentina nos anos 1970.

Junte tudo isso e você tem um filme raro, que reúne destreza narrativa e personagens sólidos, perícias técnicas impressionantes que servem à história e nunca soam como mero exibicionismo, atores impecáveis, humor e dor em doses iguais. Dá até para entender porque o longa-metragem de Campanella destronou o favorito e sensacional “A Fita Branca” (Michael Haneke) na cerimônia de premiação do Oscar 2010, dando à Argentina sua segunda estatueta. É simples: “O Segredo dos Seus Olhos” é irresistível. Tanto que, além do sucesso de crítica, também acumulou a mais alta bilheteria da história do cinema portenho e levou mais de três milhões de argentinos às salas de projeção, maior número para uma produção local desde 1983.

Aliás, quem conhece a parceria estabelecida desde 1999 entre o diretor (atualmente radicado em Los Angeles, EUA, onde dirige regularmente episódios de séries como “House” e “Law & Order”) e o ator Ricardo Darín já sabe que os dois não se juntam para fazer qualquer coisa. Apesar de parte da crítica cinematográfica – sobretudo brasileira – torcer o nariz para o cinema de Campanella, é fato inegável que ele domina como poucos diretores latino-americanos a arte do melodrama popular. Seus filmes sempre cruzam as fronteiras do riso e do choro naturalmente, como se fosse fácil, e padecem de uma aparente simplicidade que muitas vezes esconde a clareza narrativa, o faro para bons diálogos e a colocação certeira de câmera.

Através de suaves e bem tramadas idas e vindas na cronologia (mais ou menos na linha do que Sergio Leone fez em “Era uma Vez na América”), Campanella conta a história do oficial de justiça Benjamín (Darín). No presente, ele acaba de se aposentar. Para espantar a preguiça, o sujeito decide escrever um romance. Opta, então, por relembrar um caso intrigante que investigou durante vários anos, duas décadas antes: o estupro e assassinato de uma bela moça (Carla Quevedo). O caso jamais saiu da cabeça de Benjamín, principalmente pela tenacidade demonstrada pelo viúvo da mulher (Ricardo Morales), que jamais deixou de tentar encontrar o principal suspeito do crime (Javier Godino), um ex-colega de infância obcecado pela morta.

Tão logo inicia os escritos, Benjamín se vê de novo envolvido, do ponto de vista emocional, pelo caso, passando então a manter sucessivos encontros com a promotora Irene (Soledad Villamil), antiga chefe dele, que lê o material e o ajuda a relembrar os fatos. Assim, acompanhamos duas cronologias paralelas. No presente, o oficial de justiça usa o romance como pretexto para passar a limpo a própria vida; no passado, ele lidera uma investigação irregular, auxiliado por um assistente alcoólatra (Guillermo Francella) e indo contra a vontade tanto da promotora que o chefia como do juiz responsável pela jurisdição onde trabalha.

A montagem não-cronológica (assinada pelo próprio Campanella, que também co-escreveu o roteiro) é um dos grandes acertos. Alternando passado e presente, o cineasta realiza a exposição descritiva da trama – sobretudo no primeiro ato – através de uma linguagem puramente visual, evitando diálogos desnecessários e abusando das tomadas com lentes longas, que o auxiliam na tarefa de direcionar o olhar do espectador através do uso do foco. No aspecto visual, “O Segredo dos Seus Olhos” contém grande acumulo de acertos, desde a direção de arte correta (observe as pilhas de processos que se acumulam progressivamente nas mesas do escritório de Benjamín) até a fotografia impecável, que inclui um sensacional plano-seqüência de cinco minutos de duração.

O tal plano-seqüência merece um parágrafo só para si, porque é um daqueles momentos que deixam cinéfilos se perguntando como foi possível fazer aquilo. O plano inicia com uma tomada aérea de um estádio de futebol lotado e encerra dentro do gramado, após uma longa passagem pelo meio da torcida e por dentro dos corredores apertados do estádio. Para fazê-lo, foram necessários três meses de preparação coreográfica, outros nove meses de pós-produção e uso extenso de CGI – na verdade, não se trata de um plano-seqüência real, porque há quatro cortes “escondidos” ao longo da cena. De qualquer forma, a cena capta com perfeição a emoção genuína experimentada naquele instante pelo protagonista, de forma que não se trata de uma peripécia técnica feita meramente com o intuito de impressionar.

Até porque Campanella sabe perfeitamente ser discreto e sutil, quando a situação o exige. Pouco antes do plano-seqüência, por exemplo, há uma bela cena em que Benjamín solicita uma reunião de emergência com Irene. Eles discutem sobre um dos casos investigados pela promotoria, mas o subtexto é completamente diferente: a colocação impecável de câmera e o desempenho brilhante da atriz Soledad Villamil (a química dela com o sempre ótimo Darín é excelente) garantem que o espectador capte, entre os diálogos, uma torrente de emoções que não encontra lugar nas palavras. De fato, talvez a maior qualidade de Campanella seja saber exatamente quando e onde pôr energia, deixando a narrativa fluir às vezes aos saltos, às vezes elegantemente lenta.

Além de tudo, as reviravoltas impulsionadas pela investigação/jornada de auto-descoberta de Benjamín nos levam para recônditos surpreendentes, incluindo um segundo ato que alfineta de modo certeiro as tendências ditatoriais de governos argentinos em geral (a alfinetada serve também aos detratores da obra do diretor, que o chamam regularmente de alienado ou americanizado) e depois a um final lindo, sem diálogos, que encerra o filme com uma nota delicada. Para não dizer que “O Segredo dos Seus Olhos” é um filme perfeito, a maquiagem usada para envelhecer os personagens é infelizmente muito mal realizada (defeito acentuado pelo estilo do cineasta, repleto de generosos close-ups), o que deixa as cenas passadas no presente às vezes meio artificiais. Mas é um problema menor para um grande filme.

A Europa Filmes lançou o longa no mercado brasileiro em um disco simples e sem extras, mantendo o enquadramento original (widescreen anamórfico) e com áudio em qualidade OK (Dolby Digital 5.1).

- O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Argentina, 2009)
Direção: Juan José Campanella
Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella, Javier Godino, Ricardo Morales
Duração: 127 minutos

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17 comentários
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  1. “Apesar de parte da crítica cinematográfica – sobretudo brasileira – torcer”, posso ler cinética?

  2. Não. Eu nem sequer acompanho a Cinética com proximidade. Falo da crítica cinematográfica em geral, com nenhum exemplo em particular. Pode-se ler praticamente em todos os grandes jornais esse julgamento negativo em relação ao cinema de Campanella (como se o fato de fazer filmes populares o tornasse inferior, por exemplo, a Lucrécia Martel ou Pablo Trapero, diretores certamente brilhantes, mas nem por isso superiores).

  3. ” Também é um thriller político, na medida em que comenta, com sutileza e mordacidade, a violência da ditadura militar argentina nos anos 1970″.
    Sinto muito, amigo, mas o passado do filme se passa antes da ditadura militar (governo de Isabelita Perón). Você assistiu onde mesmo filme? Na tela do computador ou na tela do cinema? Não lembro de ele já ter sido exibido por estas bandas.

  4. Junior, não escrevi em nenhum lugar do texto que o passado do filme acontecia durante a ditadura do filme. Isso foi conclusão sua, e só sua. O presente, você deve saber, ocorre em 1974 (portanto, durante o período). E assisti ao filme no Rio de Janeiro – está no Twitter e no Facebook do site – mas, de qualquer modo, não entendo que diferença teria feito se houvesse assistido no computador ou em DVD argentino. Escrevo sobre filmes, não sobre suportes/dispositivos. E que eu saiba o filme é o mesmo em qualquer tela.

  5. Bem, se você perceber, eu tirei um citação do seu texto. Não tirei nenhuma conclusão. Eu acho, simplesmente, que você cometeu um equívoco. Talvez você não conheça a história argentina recente. Talvez você não tenha entendido o que Campanella quis dizer ao situar o filme neste período pré-ditatura militar. Quanto as diferenças de suportes/dispositivos (sic), tenho experiência suficiente para dizer que um tela grande oferece detalhes (além da imersão própria durante a projeção) que uma tela de 20 polegadas não deixa perceber. Agora, se você tiver uma tela de 105 polegadas e projeção em 1080p, tudo bem. Mas, se for para fixar-se apenas no plot, não é preciso ir pro cinema, basta ficar em casa lendo o livro (no qual o este filme é baseado, claro).

  6. Junior, obviamente eu percebi a citação tirada do meu texto, mas não há nela (nem em qualquer outro ponto de texto) uma ligação entre a violência da ditadura argentina e as ações narradas no passado. Pode reler. Eu já cometi dezenas de equívocos, muitos leitores já me chamaram a atenção por isso, e não hesitaria em corrigir e pedir desculpas se fosse o caso. Aqui, não é. Se eu entendi ou não o que Campanella quis dizer, cabe a cada leitor julgar. Não vou comentar sua observação depreciativa à questão do suporte (com a qual não concordo, mas que não cabe no caso, uma vez que assisti ao filme no cinema), mas quanto à observação sobre “fixar-se apenas no plot”, achei curiosa, porque os quatro parágrafos finais estão recheados de observações sobre montagem, colocação de câmera, plano-seqüência, atuações e até maquiagem. Obviamente qualquer leitor pode considerar essas observações como incorretas, equivocadas, superficiais, etc. Agora, não dá pra dizer que não falei das flores. :)

  7. Caramba, deve ser um saco encarar figuras feito essa. No mais, muito boa crítica como a grande maioria do site.

  8. Grande surpresa na cerimónia dos Óscares! Também ainda não estreou em Portugal.

  9. Filmaço, acho que como a maioria conheci Capanella com O Filho da Noiva, e até agora não me decepcionei com este diretor. Tentei ver O Segredo dos Seus Olhos no Festival do Rio, numa sessão com a presenção do próprio, mas os ingressos estavam sendo disputados a tapa. Seria a cinematografia argentina bem mais consistente que a brasileira, ou Campanella é um caso à parte?

  10. Fábio, essa discussão sobre o cinema argentino ser superior ao brasileiro me parece um caso grosseiro de generalizações feitas por gente que não tem um conhecimento abrangente das duas coisas. Eu não me atreveria a dizer algo assim. Mas acho, sem dúvida, que o cinema comercial argentino (Campanella incluso) é muito superior ao cinema comercial brasileiro. Não dá para comparar esse “O Segredo dos seus Olhos” com “Chico Xavier’.

    Quanto à polêmica anterior, relendo com certo distanciamento, vou tentar ser mais explícito na minha explicação sobre a ditadura argentina. Embora o passado do filme seja o trecho que elabora de forma mais contundente o autoritarismo governamental, penso que essa foi uma maneira sutil de Campanella alfinetar a ditadura que viria a seguir (o presente do filme), mais ou menos como Michael Haneke fez em “A Fita Branca”: sugerindo que a atmosfera fascista já estava presente no país antes de o governo adotá-la. Nosso amigo Seu Lunga ali em cima não entendeu, e talvez muito gente não tenha entendido também, porque eu não explicitei essa relação de forma mais clara. Mas agora está feito.

  11. Não gostei do “Segredo dos seus olhos”. Nem sabia que tinha ganho o Oscar (eu cá pra nós, costumo torcer o nariz para filmes que ganham a estatueta.
    O atual sistema de produção de Hollywood supera em muito o chamado sistema de “grandes estúdios” que vigorou até a décadas de 1960/70, quando o cinema independente mudou tudo.
    Atualmente a produção de Hollywood caminha muito mais pelo viés mercadológico do que o artístico (haja vista que do orçamento de Avatar de US$ 500 milhões, U$ 200 milhões foram investidos na campanha de marketing).
    O sistema de produção de “blockbusters” – e que o Oscar é o grande eleitor do que vai ser visto – não permitirá o aparecimento de cineastas como Chaplin,

  12. Jorge, seu comentário em geral é muito bom. Eu apenas colocaria que as coisas, na prática, às vezes não são tão preto no branco assim. Por exemplo, a geração New Hollywood não “derrotou” o antigo star system, simplesmente foi cooptada por ele, porque o cine americano na época passava por uma crise financeira de lascar. Outro exemplo: quando as pessoas falam da Globo Filmes, parecem ver uma espécie de entidade maligna e invisível que manipula a tudo o todos. Mas a Globo Filmes na verdade é uma empresa que usa o poder da TV para fazer propaganda dos filmes produzidos por produtoras menores. Muitos desses filmes são pequenos e interessantes, apesar de haver muita bobagem também, sem dúvida. Abraços.

  13. Dúvido que o Jorge Augusto não sabia que O segredo dos Seus Olhos ganhou o oscar, tanto é que repete isso várias vezes, qualquer pessoa que se informa o mínimo sobre o cinema atual tem essa informação, não que deva ter, todo mundo sabe que o oscar nada mais é que uma premiação da Indústria do Cinema, mas é pq a mídia está aí cheia de informações sobre o oscar. Jornais, revistas, sites da internet não param de falar isso.

  14. Deixando com atraso de alguns meses o meu comentário (nunca tinha visto teu blog antes, Carreiro), fiquei sem entender porque achasses a maquiagem do filme tão ruim. Talvez seja minha ignorância sobre maquiagem – ou desconhecimento mesmo de rostos envelhecidos -, mas saí tão impressionado com o efeito de envelhecimento que dizia para todo mundo que a maquiagem do filme era incrível. Pelo menos, na hora, me parecia super verossímil. E olhe que vi no cinema.

  15. Igor, também achei a maquiagem de “A Origem” muito ruim. Considero ruim qualquer maquiagem que você bota o olho e percebe que é falsa, que foi o caso aqui. Apenas como parâmetro, pode olhar a maquiagem em “O Senhor dos Anéis”: sem comparação. Abraços.

  16. Rodrigo, mais uma vez parabéns pelo comentário e como já dito por ti, o filme é realmente irresistível! Este foi um OSCAR de filme estrangeiro merecido>

  17. Maravilhoso esse filme.

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