Sem Notícias de Deus

28/11/2004 | Categoria: Críticas

Velha idéia de que anjos e demônios podem viver na Terra é explorada em usina de reciclagem cinematográfica espanhola

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

“Sem Notícias de Deus” (Sin Noticias de Dios, 2001) é uma produção multimídia. Embora o diretor e as duas atrizes protagonistas sejam espanholas, o filme tem várias passagens faladas em francês, possui um ator mexicano (Gael Garcia Bernal) e foi co-produzido com dinheiro de um estúdio italiano. Esses aspecto da produção acaba sendo refletido, talvez inconscientemente, no próprio enredo do longa-metragem. O filme vira uma usina de reciclagem cinematográfica, fazendo uma enorme colagem de influências díspares. Consegue um resultado, no máximo, agradável.

Para resumir, quando o filme começa, ficamos sabendo que o Céu está em crise. A gerente operacional do lugar, Marina D’Angelo (Fanny Ardant), descobre, contudo, que se conseguir salvar a alma de um boxeador mexicano, Manny (Demian Bichir), pode afugentar os maus tempos. Já no Inferno, o problema do administrador, Jake Davenport (Gael Garcia Bernal), é diferente. Ele tem informações que indicam a organização de um golpe, capaz de lhe derrubar do poder. Os dois lados têm interesse na alma do tal boxeador e, então, enviam emissários à Terra.

O anjo encarna na caixa de supermercado Lola (Victoria Abril), que no Céu é uma diva cantora de óperas. O demônio vira a supervisora de mercado Carmen (Penélope Cruz), garçonete no Inferno. A primeira surge na vida de Manny como uma ex-mulher. A segunda, como uma prima distante que lhe pede abrigo temporário na cidade. Morando juntas, as duas rivais começam uma louca corrida pela alma do boxeador.

Familiar? Claro que sim. Afinal, a temática da guerra entre Céu e Inferno, bem como a idéia de que anjos e demônios podem viver na Terra, é muito popular, tanto no cinema quanto na literatura. A trama do filme é uma grande colagem de elementos emprestados de outros filmes, como “Dogma” (1999), “Embalos a Dois” (1983), “Asas do Desejo” (1987) ou os recentes “Devorador de Pecados” (2003) e “Deus É Brasileiro” (2003). Mais recentemente, livros de Neil Gaiman (“Deuses Americanos” e principalmente “Belas Maldições”, que possui uma trama praticamente idêntica) exploraram essa mesma idéia, com resultados muito melhores.

As referências do diretor Agustín Díaz Yanes não param por aí. No filme, Deus está em depressão e desapareceu do Céu – e essa é a idéia básica que sustenta a série de gibis Preacher, de Garth Ennis. A própria seqüências de abertura do filme, que mostra os dois anjos vestindo máscaras sorridentes e armando enormes trabucos para praticar um assalto, empresta elementos de filmes como “Caçadores de Emoção” e “Cães de Aluguel”. Ou seja, a pretensão de “Sem Notícias de Deus” é de virar um compêndio de cultura pop. Nisso, ele falha miseravelmente – a pretensão exala de cada polegada de celulóide, o que sempre resulta em bobagem.

Além disso, em certos momentos do filme, quando os personagens questionam o motivo de uma única alma poder afetar o equilíbrio Céu/Inferno, as respostas soam como se o cineasta não fosse capaz de criar uma resposta adequada a essa pergunta. “Às vezes, coisas que parecem ser insignificantes se tornam cruciais”, balbuciam as personagens. Obviamente, isso não faz o menor sentido. Esse furo no roteiro é particularmente importante porque funciona como motor de toda a trama. “Sem Notícias de Deus” jamais consegue explicá-lo, e isso depõe contra o filme.

Por outro lado, o longa não se transforma em um pastiche sem nenhuma graça porque tem profissionais de qualidade envolvidos no trabalho. Fanny Ardant e Victoria Abril, em particular, oferecem desempenhos corretos. Já Penélope Cruz e Garcia Bernal deixam um pouco a desejar (alguém, por favor, me faça o favor de lembrar um filme em que a namorada de Tom Cruise interpreta bem). O resto do elenco cumpre o que se espera, enquanto o roteiro transforma a colagem de temas emprestados em uma trama sem sal, mas pelo menos com algum humor.

– Sem Notícias de Deus (Sin Noticias de Dios, Espanha/França/Itália/México, 2001)
Direção: Agustín Díaz Yanes
Elenco: Victoria Abril, Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal, Fanny Ardant
Duração: 95 minutos

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